Sobre a necessidade de unir os que lutam

Às vésperas da realização do Congresso da Conlutas, fomos surpreendidos com a saída da corrente MTL que, junto com o MES, tem um peso importante na direção do PSOL. O MAS (grupo prestista de Santa Catarina) está também seguindo o MTL. Felizmente, vários setores do PSOL seguem construindo a Conlutas.

Os motivos apresentados indicam algo grave: essas correntes não entendem a necessidade de entidades de frente única dos trabalhadores, que incluam várias opiniões. Para eles, ou se está de acordo completo com as posições de seu partido ou não se pode construir a Conlutas. No terreno latino-americano, ou se está de acordo com o governo Hugo Chávez, ou não se pode sequer realizar o Encontro Latino-Americano e Caribenho dos Trabalhadores (Elac).

Direções do MES-MTL não aceitam um Encontro amplo e plural
Vejamos, em primeiro lugar, a polêmica sobre o Elac. A Conlutas, a Central Operária Boliviana (COB), a Batalha Operária (Haiti), a Tendência Classista Combativa (TCC – Uruguai) e a corrente C-CURA (Venezuela) convocaram um encontro com o objetivo de discutir um plano de lutas comum para os trabalhadores do continente.

Esse encontro vai se realizar logo após o Congresso da Conlutas e está recebendo grande apoio entre as organizações sindicais, populares e estudantis da América Latina.
Só a presença das entidades que convocam o encontro já indica seu caráter amplo. A COB é, talvez, a central sindical de maior tradição em toda a América Latina. A Batalha Operária está à frente das lutas contra a ocupação militar do Haiti. A C-CURA é uma corrente sindical de peso na Venezuela em setores operários, em particular petroleiros e têxteis, cuja maior liderança é Orlando Chirino. A TCC é uma corrente sindical de oposição ao governo da Frente Ampla no Uruguai.

Além dessas, existem já centenas de entidades que devem enviar delegados. A discussão sobre o encontro formou grupos sindicais e populares amplos, que não existiam antes, como a Mesa Coordenadora no Paraguai, que agrupa 47 sindicatos urbanos e rurais. Outro exemplo é a Coordenadora Sindical de Bases em Luta (Peru), que reúne sindicatos de trabalhadores mineiros, ceramistas, do serviço público, e conta com a participação da Confederação Nacional Agrária, uma das mais importantes organizações camponesas do país.

Na Costa Rica, estão convocando o Elac duas das mais importantes entidades do país: a Central Geral de Trabalhadores (CGT) e a Federação dos Estudantes da Universidade de Costa Rica (FEUCR). Do Equador, virão delegados dos sindicatos do setor elétrico, de petroleiros, telefônicos, do funcionalismo público. Do Chile, participarão representantes da Confederação de Sindicatos de Trabalhadores Santiago Poniente, Confederação Nacional de Pescadores Artesanais do Chile e vários outros. Virão representantes dos trabalhadores de educação do México, que acabam de fazer uma passeata com 20 mil pessoas contra a reforma da previdência. Outros países, como Argentina e Colômbia, também estão discutindo suas delegações.

É importante destacar que esses sindicatos e entidades populares são muito diferentes entre si e têm uma composição política bem ampla. Estarão presentes dirigentes sindicais que fazem oposição a Chávez e que apóiam seu governo. Ou ainda, organizações a favor e contra o governo Fernando Lugo no Paraguai, Evo Morales, na Bolívia, e Rafael Correa, no Equador.

Isso acontece porque a convocatória do encontro foi ampla o suficiente para poder unificar todos esses setores, com a única condição de serem independentes dos governos de seus países.

O MES-MTL, no entanto, não está de acordo sequer com a realização do Elac. No texto “A proposta do Elac não ajuda a luta dos trabalhadores e dos povos latino-americanos”, diz que “a única orientação possível para os trabalhadores é a de estar ao lado dos governos para resistir aos ataques sistemáticos que fazem a direita e o imperialismo”.

Para as direções do MES- MTL e do Coletivo Luiz Carlos Prestes, a “única” posição correta é estar com Chávez. Quem não apóia seu governo “cai do lado oposto”, ou seja, do imperialismo. E como essa é a “única” posição correta, os companheiros rejeitam o encontro: “acreditamos que esse encontro está muito distante de ajudar na organização da luta dos trabalhadores e povos latino-americanos e, pelo contrário, põe a Conlutas do lado de setores que, em nome da pureza socialista, fazem o jogo de interesses da direita”.

Isso quer dizer que a COB faz o jogo da direita na Bolívia e a C-CURA apóia a oposição de direita na Venezuela. Numa postura típica do stalinismo, repete sua fórmula: quem não apóia o governo burguês “progressista” está do lado da burguesia e do imperialismo.

No Elac, estarão centenas de dirigentes sindicais e populares que estão a favor e contra esses governos, mas que estão dispostos a encaminhar juntos os planos dos trabalhadores. Isso é errado, no entanto, para o MES-MTL, porque o movimento tem de ser parte dos governos Chávez, Correa e Morales. Não pode haver críticas a eles nem lutas conjuntas com os que não estão a favor desses governos.

Direções do MES-MTL quer atrelar os movimentos sociais aos governos
Os governos da Venezuela, da Bolívia e do Equador muitas vezes confundem os ativistas honestos por se declararem de esquerda e por terem alguns conflitos com Bush. No entanto, nesses países as multinacionais seguem controlando a economia e os trabalhadores continuam recebendo salários miseráveis. Não houve nenhuma ruptura real com o imperialismo norte-americano. As empresas dos EUA seguem tendo lucros altíssimos. A dívida externa continua sendo paga. Menos ainda houve qualquer ruptura com o imperialismo europeu.

O MES escreveu teses públicas que definem o governo Chávez como um “nacionalismo revolucionário”, podendo ir até o socialismo. Defendeu a entrada dos dirigentes sindicais da UNT (União Nacional dos Trabalhadores) no PSUV, partido criado por Chávez para disciplinar os trabalhadores. Ou seja, os trabalhadores devem ser um apêndice do populismo e do governo venezuelano.

Chávez, porém, vem perdendo o apoio social na Venezuela ao manter o capitalismo, com suas conseqüências de inflação e miséria. Não foi acaso sua derrota no plebiscito do final do ano passado, em particular nos bairros mais populares. Depois do plebiscito, Chávez está indo à direita, como se demonstrou no perdão aos golpistas de 2002 e nas recentes declarações contra as Farc. Não temos acordo com a política e os métodos da guerrilha colombiana, mas defendemos as Farc contra o governo pró-imperialista de Álvaro Uribe. Chávez defendeu uma rendição unilateral da guerrilha, com a entrega de suas armas e reféns, o que pode significar simplesmente o assassinato dos guerrilheiros.

O MES-MTL ignora tudo isso. A única coisa que falam da Venezuela é da nacionalização da indústria Sidor. Mas essa medida não foi um “presente” de Chávez. Se os trabalhadores acabaram vitoriosos e obrigaram o governo a nacionalizar a empresa, não se deve à natureza “antiimperialista” ou “nacionalista revolucionária” de Chávez, mas a uma greve longa que enfrentou a intervenção do ministro do Trabalho e a repressão direta e violenta da polícia, antes de ser vitoriosa.

O que significaria estar atrelado ao governo Chávez nesse caso? Silenciar diante dessa repressão? É bem significativo que os companheiros fiquem mudos em relação a isso. Ainda hoje, nada disseram sobre a repressão.

O que significou estar atrelado a Chávez quando ele demitiu Orlando Chirino? Um representante do MAS respondeu a essa questão na reunião da direção da Conlutas, quando apoiou abertamente a demissão de Chirino. Não é por acaso que o MAS está apoiando a ruptura do MES-MTL com a Conlutas.

As diferenças sobre os governos venezuelano, equatoriano e boliviano são profundas. Mas não explicam porque o MES-MTL quer inviabilizar o Elac e rompeu com a Conlutas.

Como todos sabem, não era proposta de nenhuma das organizações convocantes definir no Elac uma posição sobre temas polêmicos como a caracterização do governo Chávez, mas sim tirar um plano de lutas. E isso deveria incluir tanto aqueles que apóiam quanto os que não apóiam Chávez. Exatamente como convivem no interior da Conlutas posições diferentes sobre esse tema.

O problema é que para os companheiros não basta que o Elac não vote uma posição contra o governo Chávez. Para eles, o encontro tem de votar o apoio a Chávez ou então o evento estará ao lado do imperialismo.

Por isso, eles afirmam em seu texto: “não aceitamos um encontro cuja essência é pôr-se contra o processo bolivariano, posicionando-se objetivamente do lado da reação e do imperialismo”.

Post author Eduardo Almeida, da Direção Nacional do PSTU, e José Weil, da Liga Internacional dos Trabalhadores
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