Sarampo em São Paulo: Um novo grito de alerta

Tomaz Silva/Agencia Brasil

Ary Blinder, médico e militante do PSTU

No final de agosto São Paulo teve três mortes por sarampo. Um adulto de 42 anos e duas crianças com menos de um ano contraíram a doença, que é viral e de transmissão por via respiratória.

A Secretaria de Saúde de São Paulo já havia informado 2457 casos da doença confirmados no ano e está investigando mais dez mil casos. A mídia vem noticiando que o surto é restrito ao estado de São Paulo, mas na realidade houve um grande surto na região amazônica no ano de 2018 até início de 2019, com mais de 10 mil casos e 12 óbitos.

As investigações em andamento dão conta que o vírus que causou o surto da Amazônia estava circulando na Venezuela em 2017, enquanto o surto paulista foi causado por vírus trazidos por viajantes que estiveram na Noruega, Malta e Israel.

É importante notar que o surto de sarampo não é um fenômeno exclusivamente brasileiro, pois dados da OMS (Organização Mundial da Saúde) indicam que em 2019 o mundo está tendo a maior incidência de Sarampo desde 2006.

Não podemos deixar de assinalar, no entanto, que o surto atual de sarampo é sim um grito de alerta para nosso país. Ocorre que o Brasil havia sido declarado pela OPAS (Organização PanAmericana de Saúde) em 2016 como área livre de sarampo, como resultado de amplas campanhas de vacinação feitas nos últimos vinte anos. O retorno do sarampo, as epidemias de dengue, chikungunia e outras mostram, porém, que as conquistas da saúde pública são sempre efêmeras dentro do capitalismo.

Causas do surto atual
É sabido que para se conseguir uma efetiva proteção contra o sarampo é necessária uma cobertura vacinal de 95% da população. Antigamente se acreditava que uma dose da vacina já era suficiente, mas de alguns anos para cá as pesquisas concluíram que o ideal é aplicar duas doses. A cobertura vacinal em São Paulo para o sarampo estava em 90% da primeira dose, ou seja, abaixo do indicado. Entre os bebês de 6 meses a um ano de idade a cobertura para a segunda dose está em 65%.

A pergunta que se coloca é de porque isso está ocorrendo. Estamos falando de uma doença mortal e que tem prevenção muito eficaz.

Como quase tudo em saúde pública, as causas são multifatoriais, mas há hipóteses mais robustas. Está claro que o vírus do surto paulista foi trazido da Europa e Oriente Médio e tem a ver com a circulação crescente de pessoas pelo mundo para turismo ou negócios. Já o vírus que causou o surto amazônico está relacionado aos fluxos migratórios da região norte e do êxodo populacional devido à forte crise da Venezuela. Principalmente no caso amazônico, essa população que veio para o Brasil teve grande dificuldade para inserção nos serviços de saúde de nosso país, para não dizer dos programas de vacinação.

Mas o que dizer de São Paulo, o estado mais rico do país? A queda da cobertura vacinal está relacionada com fatores como o desmonte gradual dos serviços públicos de saúde e vigilância epidemiológica e uma queda da motivação de setores da população em relação à procura pela vacinação.

O desmonte dos serviços públicos tende a continuar devido a irresponsabilidade e descaso dos governos de plantão, defensores incondicionais das políticas de “austeridade fiscal” que causam um processo de sucateamento do SUS que vai acelerar nos próximos anos, pois a previsão é de congelamento dos gastos públicos num cenário de envelhecimento populacional que provoca uma necessidade de mais gastos em saúde. A austeridade fiscal traz como consequência desmonte das equipes de saúde, desmonte da vigilância, despreocupação com estoques de medicamentos e vacinas pelo ministério da saúde e secretarias estaduais de saúde.

O principal prejudicado com isso é o povo pobre e trabalhador que depende do SUS para atendimento e prevenção, pois a saúde privada é cara e não tem nenhum foco em prevenção. No entanto, até a classe média e os “privilegiados” acabam sendo atingidos pelo desmonte do SUS, particularmente no que toca a doenças infecciosas e transmissíveis.

Há um outro elemento que é importante citar, que é uma certa desmotivação de parcelas da população na busca e exigência das vacinas. Esta desmotivação é paradoxalmente fruto das vitórias anteriores, pois a erradicação temporária do sarampo fez com que gerações mais novas não tivessem tanto contato e conhecimento desta doença. Mas este fenômeno poderia ser evitado por amplas campanhas de informação pela mídia que deveriam ser feitas pelos diversos níveis de governos.

Não podemos deixar de citar aqui o problema das Fake News em saúde. Circulam pela Internet alertas e campanhas contra a vacinação, com informações completamente equivocadas sobre supostos efeitos nocivos da vacinação, como por exemplo aumento de casos de autismo, que não tem nenhuma base científica. Infelizmente há um público para isso, assim como para acreditar no terraplanismo, mas a pergunta que fica é: quem é que dissemina estas informações falsas? Esta discussão é muito interessante e importante, há alguns setores políticos e religiosos por trás disso, mas cabe a nós combater os detratores da ciência, pois é ela que ajuda a eliminar as doenças que afligem a humanidade há milênios. Os sindicatos e movimentos sociais podem ter um importante papel neste combate contra os detratores da ciência. Informar a população trabalhadora dos riscos de não vacinar seus filhos pode ser um excelente serviço prestado pelos sindicatos, movimentos pela moradia, movimentos contra opressões e outros.

A não vacinação contra o sarampo traz preocupações em relação ao possível retorno de outras doenças que estão erradicadas, como a poliomielite, que tem consequências tão severas para os portadores. A ocupação indiscriminada da Amazônia (e da África) traz o risco de surgirem doenças hoje desconhecidas. A continuidade do desmonte do SUS devido a tal “austeridade fiscal” feita para sustentar o pagamento da dívida pública faz prever que muitos outros surtos fatalmente virão.

O capitalismo no mundo desenvolveu tecnologia para erradicar muitas doenças, mas cada vez mais se transforma em um sistema econômico incapaz de garantir que estes progressos sejam permanentes. Ao contrário, há países inteiros retrocedendo em seus índices de saúde. A classe trabalhadora precisa exigir dos governos que o Brasil não entre nesse caminho de decadência. É preciso derrotar os governos que nos levarão para o desastre, como Bolsonaro em Brasília e Dória no estado de São Paulo.