Samuel Silva e Gilberto Vasconcelos, de Manaus (AM)

Desde o dia 16 de outubro, trabalhadores terceirizados da Petrobras, da Método Engenharia Ltda, lotados na planta de Urucu (MA), estão em greve por falta de pagamento dos salários, vale-alimentação, suspensão do plano de saúde e outros benefícios. São mais de dois meses de atrasos, de assédio e de humilhação. Cansados e indignados, os operários decidiram paralisar suas atividades e dar um basta na situação.

A província petrolífera de Urucu, está localizada no município de Coari, cerca de 650 km de Manaus, capital do Estado do Amazonas.  As operações de extração iniciaram em 1986, é a maior reserva terrestre de petróleo e gás natural provada do Brasil.

Uma greve contra a fome

Há meses a Método Engenharia Ltda vem atrasando salários e benefícios, colocando seus trabalhadores em situação delicada. São muitos os relatos tristes e revoltantes, como o de um trabalhador que tem um filho paraplégico e utiliza equipamento médico elétrico e que teve a energia cortada por falta de pagamento devido ao não recebimento do seu salário.

No grupo do WhatsApp, por onde os operários trocam informações sobre a greve, não faltam vídeos de geladeiras vazias. Enquanto isso, a Petrobras acumula lucro líquido de mais de R$ 75 bilhões em apenas 9 meses, grana que vai ser distribuída entre os acionistas privados da estatal.

Essa é a lógica do capitalismo: acúmulo de riqueza para poucos e miséria para muitos. Por isso os preços do gás de cozinha, da gasolina e do diesel não param de subir e com eles todos os demais preços, impactando diretamente na vida de toda a classe trabalhadora brasileira.

Crise sistêmica

Vivemos a maior crise do sistema capitalista. Mais da metade da população brasileira vive de bicos, sendo que mais de 100 milhões sofrem com insegurança alimentar.

A crise provocada pelo sistema capitalista é tão grande que, mesmo trabalhando numa área extremamente lucrativa, os trabalhadores terceirizados da Petrobras estão literalmente passando fome.

Sem ter como garantir o mínimo para suas famílias e passando por privações inaceitáveis decidiram entrar em greve. Foi um ato de desespero e ao mesmo tempo de resistência contra esse crime cometido dentro da maior empresa do Brasil e da América do Sul.

Nada disso é obra do acaso. É o resultado da política de terceirização e privatização da Petrobras iniciada nos governos do PSDB, continuada pelo PT, pelo MDB e agravada agora com o entreguista Bolsonaro. Mas, a união dos trabalhadores em luta demonstra que toda essa política tem “pé-de-barro” e pode ser derrotada. E, mais ainda, abre caminho para a construção de uma solução verdadeira, de um sistema social diferente, no qual quem trabalha terá vida digna.

Petrobras e Justiça estã pela legalização do trabalho escravo

No dia 21 de outubro, a justiça burguesa numa decisão absurda declarou a greve “ilegal e abusiva” e definiu multa, em caso de desobediência, de R$ 10 mil por hora. Os trabalhadores ignoraram a decisão absurda. No dia 26, a multa foi aumentada para R$ 50 mil por hora. Novamente os trabalhadores ignoraram. Diante do impasse foi marcada uma audiência entre a Petrobras, a Método Engenharia, os Trabalhadores e a Justiça para o dia 28.

De início, a Petrobras e a Método Engenharia, com o aval da justiça, quiseram obrigar os trabalhadores a voltarem para Urucu sem nenhuma garantia. Depois, sem saída, diante dos fatos apresentados, a Método concordou que a Petrobras utilizasse os recursos retidos para pagar os débitos com os trabalhadores, mas vergonhosamente a Petrobrás se recusou alegando que o dinheiro deve ser repassado para pagar a dívida da Método Engenharia com os bancos, e exigiu que os trabalhadores retornem ao trabalho sem receber seus salários. Não houve acordo.

Após a audiência, os trabalhadores em assembleia decidiram que a greve continua até que seus direitos sejam reconhecidos e pagos. O julgamento foi marcado para 4 de novembro no TRT11.

No município de Silves, os trabalhadores da Método Engenharia, que prestavam serviço para a ENEVA no tratamento de gás natural, também estavam com salários atrasados e foram todos demitidos para não seguissem o exemplo dos grevistas de Urucu. A justiça não vê ilegalidade e nem abusividade nisso, mostrando assim que tem lado: o dos patrões!

A saída é a luta coletiva!

A greve de Urucu mostrou o caminho e os trabalhadores da Método no Litoral Paulista, Cubatão e no Paraná a também se mobilizaram. Nesses locais a vitória se deu sem a necessidade da greve, com a garantia de que a Petrobras pagará os salários diretamente aos trabalhadores, sem intermediação da terceirizada.

Mas para os trabalhadores de Urucu a Petrobras quer impor uma derrota para dar o exemplo. A própria gerência da Petrobras em Urucu falou abertamente que nenhum grevista voltará a trabalhar no sistema Petrobras, demonstrando prepotência, desrespeito aos trabalhadores e a existência de uma “lista oculta dos condenados” pela Petrobrás. Esse é mais um crime que precisa ser investigado e punido.

Diante de tantos ataques e da imobilidade dos dirigentes do Sintracomecor/CUT, os trabalhadores de Urucu não estão sozinhos. Eles encontraram apoio no sindicato dos petroleiros – Sindipetro PA/AM/MA/AP -, na CSP-Conlutas, nos sindicatos da Federação Nacional dos Petroleiros – FNP, no sindicato dos professores da UFAM – ADUA, e muitos outros. Além da imensa simpatia da população de Manaus que manifesta apoio diariamente.