Metroviários do PSTU

No dia 20 de outubro, dois agentes de segurança do Metrô foram filmados em uma atuação aplicando uma mata-leão em um homem negro, após receberem uma cusparada. Este caso, que ocorreu na estação Anhangabaú, teve repercussão na imprensa e no movimento negro de todo país e trouxe à tona mais uma vez debates importantes sobre criminalização da pobreza, racismo e qual deve ser o papel da atuação da segurança do Metrô. Não podemos nos furtar de fazer esse debate se queremos fortalecer a luta contra o racismo e em defesa de todos os trabalhadores.

O desentendimento começou a partir do questionamento da atuação dos seguranças sobre um vendedor ambulante – que acabou por sair de sistema – e resultou em uma cusparada do homem negro contra os seguranças que, por sua vez, reagiram com um mata-leão. Para nós, a ação dos Agentes de Segurança (AS) foi equivocada e desproporcional. Temos consciência de que, em virtude do racismo, os negros e negras são os principais alvos de ações desproporcionais como essas.

Além disso, o mata-leão é uma técnica que os governos foram obrigados a proibir, tanto na Guarda Civil Metropolitana de São Paulo, como na Polícia Militar de São Paulo, desde julho do ano passado, pelo risco que traz à vida. Essa proibição veio dias depois que um vídeo circulou nas redes sociais, em 24 de julho de 2020, com PMs aplicando um mata leão e sufocando um jovem negro em João Ramalho-SP, e dois meses após o assassinato de George Floyd, um homem negro estrangulado por um policial branco, nos EUA, e que desatou uma onda de protestos antirracistas pelo mundo.

Porém, apesar disso, o Metrô de São Paulo segue ensinando essa técnica em seus treinamentos e avaliza essa ação, não levando em conta todo esse histórico.

Achamos fundamental lutar contra a política de criminalização da pobreza e racista de Doria e do Metrô que vão levar a mais situações como essa se mantiver a política de guerra aos ambulantes e pedintes.

O Brasil vive uma das piores crises de sua história e a tensão no Metrô deve aumentar

Cresce a pobreza e o desemprego. Mais de 20 milhões passam fome no país. O desemprego, subemprego e a informalidade ultrapassam 90 milhões de pessoas. Essa situação gravíssima é ainda pior entre os negros e negras do país. Com uma herança colonial marcada pela escravidão cujas consequências persistem até hoje, os negros acabam por ser os mais afetados e compõem a maioria da população de pedintes e ambulantes (desempregados), explicitando o racismo da sociedade.

Diante dessa realidade, o Metrô, a mando do governo de Doria (PSDB) – como faz também Bolsonaro em Brasília – fecha os olhos para a crise social e, de maneira cínica, coloca trabalhador contra trabalhador, fazendo com que parte da atuação central do corpo de seguranças do Metrô seja nas plataformas e trens retirando ambulantes e pedintes, com estratégias nas linhas para recolher mercadorias e “barrar” a venda irregular nas áreas do metrô.

A segurança do Metrô não deve servir de bucha de canhão de Doria e da empresa!

A existência de pedintes e ambulantes no sistema de transporte metroviário é uma espécie de sintoma da crise social em que vivemos, um reflexo da situação do país e, por isso, não deve ser papel do corpo de segurança a coibição disso. Qualquer tipo de ação aí é “enxugar gelo”: se de 500 ambulantes apreendemos dez, amanhã serão 600, na semana seguinte 700, e por aí vai.

Além disso, os seguranças são de “bucha de canhão” do governo e da empresa. Afinal, ao reprimirem outros trabalhadores ambulantes e pedintes, os ASs também colocam suas vidas e seus empregos em risco pois – como já vimos antes – em caso de algum excesso ou erro de abordagem esses ASs estarão sozinhos e serão abandonados pela empresa.

A ocorrência que assistimos em Anhangabaú contra um homem negro com seu filho não deveria ter acontecido, se houvesse uma política social dos governos para arrumar emprego a esses trabalhadores e acabar com essa guerra que coloca os ASM I (seguranças), ambulantes e pedintes em situação de risco.

Essa deve ser a nossa luta. Enquanto não conquistamos isso, a empresa deveria ter uma atuação aumentando a ação de presença com equipes maiores, com mais contratação, tempo livre semanalmente para treinamentos dos ASMs, com equipe de preparação e centro de treinamentos diretos, não terceirizando esse serviço. Essa luta deve ser encaminhada pelo sindicato e o conjunto da categoria.

Para nós, isso faria com que a segurança concentrasse a sua atuação no atendimento às necessidades da população. Há tempos se discute a necessidade de o Metrô legalizar e organizar o comércio ambulante dentro dos trens. Há tempos se discute que o trabalho da segurança não deve ter como centralidade realizar estratégias de combate aos ambulantes e pedintes. Não devemos servir de bucha de canhão ao governo Doria e reproduzir casos como o que assistimos no Carrefour em novembro do ano passado, quando João Alberto, um homem negro, foi brutalmente assassinado por seguranças da rede de supermercado. Este não é nosso papel.

Chefe de Departamento de Segurança e Presidente do Metrô são os grandes responsáveis por essa situação

Para nós, o ocorrido é consequência direta da política elitista criminosa do Metrô e de Doria que prioriza a criminalização da pobreza e que produz consequências graves para negros e negras. Os grandes responsáveis por essa situação são Doria, Silvani Alves Pereira, presidente do Metrô, e o chefe do departamento da Segurança, Raphael Fernandez, responsáveis por esta política dentro da empresa. É preciso abolir o treinamento da técnica de mata-leão e, desde já, chamamos o sindicato a uma campanha que oriente os companheiros da segurança a não colocarem ninguém em risco e não aplicarem essa técnica, fruto da irresponsabilidade e do atraso da empresa e do governo.

Junto disso, exigimos que o governo tenha uma política de emprego para esses trabalhadores informais, abrindo o debate sobre a organização e legalização desta atividade dentro do sistema de transporte, e que os seguranças do metrô tenham como foco de sua atividade atuar nas ocorrências de segurança pública, para a defesa da população que utiliza o sistema metroviário. E, na contramão da privatização que destrói as condições de trabalho e sucateia a função, exigimos que se realize o chamado ao concurso já efetuados e abertura de novos concursos para ampliação do quadro de funcionários, o que permitirá ações de presença e ampliação da qualidade dos serviços prestados aos trabalhadores que utilizam o transporte e condições dignas de trabalho.

Sindicato deve estar na linha de frente da luta contra o racismo e a criminalização da pobreza!

Diante deste caso, o Sindicato dos Metroviários se equivocou e optou por uma nota que não se solidariza com a vítima e não enfrenta a política da empresa, desresponsabilizando a direção da empresa e o governo por uma política racista de criminalização da pobreza que acaba por reforçar essa situação de conflito, mantendo todos os trabalhadores em risco.

Chamamos o sindicato dos metroviários a rever sua posição e, nas vésperas do Dia da Consciência Negra e no intuito de manter o firme compromisso e diálogo às organizações do movimento negro, convidá-las para ampliação do debate sobre o racismo e a criminalização da pobreza para fortalecer os laços entre nós que estamos aqui embaixo, para construirmos propostas comuns que fortaleçam a nossa luta contra os governos e grandes empresários.