Por que os EUA assumem o comando político-militar do país?

O terremoto que se abateu sobre o Haiti em janeiro passado, nos mostrou as dolorosas imagens de uma dura catástrofe natural castigando o país mais pobre de América Latina. Por trás dessas imagens, se viu, também, como décadas de colonização imperialista (em especial, a última ocupação militar, camuflada como “missão de paz” da ONU, a Minustah) mantiveram e agravaram a falta de infra-estrutura que fez com que o impacto do terremoto, em custo de vidas e pessoas atingidas, fosse ainda maior.

Nesse marco, surge um fato novo na situação do Haiti com a chegada de 15.000 soldados norte-americanos, entre eles numerosos “marines” que, de fato, assumiram o controle político-militar do país, substituindo à Minustah como força principal da ocupação. Em outras palavras, o governo de Obama, ainda que sem dizê-lo explicitamente, deixou de lado a “máscara da ONU”. Por que se deu esta mudança?

As várias formas do domínio norte-americano
Como parte do Caribe, o Haiti integra a região que a burguesia imperialista norte-americana considera seu “quintal”, no qual teria o “direito natural” de intervir política e militarmente para garantir a defesa de seus interesses.

No caso haitiano, isto se expressou de várias formas ao longo do século XX. Por exemplo, entre 1915 e 1934, expressou-se através de uma ocupação militar direta; entre 1957 e 1986, através da sangrenta ditadura dos Duvalier (Papa Doc e Baby Doc). Após as massas derrubarem o regime duvalierista, passou a ser dominante a figura de Jean-Bertrand Aristide, um sacerdote católico que tinha adquirido prestígio nos bairros de Porto Príncipe, durante a luta contra Baby Doc. Aristide ganhou as eleições presidenciais de 1990, mas foi impedido pelos militares de assumir.

O período dos governos de Aristide (1994-2004) abriu-se e fechou-se com duas invasões dos marines. A primeira para instalá-lo no poder, após acordo com o então presidente dos EUA, Bill Clinton, de aplicar políticas do Fundo Monetário e de impulsionar a instalação de empresas maquiladoras têxteis.

A segunda invasão foi para tirá-lo do poder, depois da negativa de seu governo de compartilhar com a oposição (formada por velhos duvalieristas e também por dissidentes de seu partido) o usufruto dos fundos da ajuda internacional ao país, transformada na principal fonte de recursos do Haiti.

Iniciou-se assim uma guerra civil entre os dois bandos, mostrando a extrema dificuldade da burguesia haitiana em garantir a existência de um estado próprio, não só no desenvolvimento da infra-estrutura necessária, senão fundamentalmente na criação dos mecanismos de convivência interburguesa para dividir os recursos do estado (ou a clara imposição de um setor sobre outro).

A ocupação da Minustah: um salto na colonização
O governo de Bush, então, ordenou a invasão dos marines para parar a guerra civil, “restaurar a ordem” e evitar que a desestabilização pudesse se estender à vizinha República Dominicana e, por fim, para a região caribenha. Ao mesmo tempo, tratava-se de recuperar as condições de “estabilidade” para as empresas maquiladoras.

No entanto, durante o governo de Bush, os EUA já tinham iniciado duas guerras de ocupação (Afeganistão e Iraque). Por isso, o imperialismo considerou melhor que esta nova ocupação não fosse garantida pelos próprios marines senão por tropas de outros países, camuflada como uma “missão de paz” dos capacetes azuis da ONU (a Minustah).

Camuflagem para a qual, inicialmente, contribuía o fato de que a maioria dos soldados da Minustah fosse oriunda de países latino-americanos. Especialmente, que fosse comandada por tropas do Brasil, país pelo qual o povo haitiano, por razões culturais, sente um grande carinho.

Mas que não podia ocultar o fato de que, com a permanência das tropas da ONU, o Haiti tinha se transformado diretamente em uma colônia. A Minustah representava o poder real, a base deste “estado colonial”, enquanto as “autoridades eleitas” haitianas (o governo do presidente René Preval, o Parlamento) só representavam uma “vestimenta” para tentar dissimular a situação colonial.

Cada vez ficava mais claro que a Minustah era o verdadeiro poder no Haiti, e que sua missão não era “ajudar” ao povo haitiano senão defender os interesses do imperialismo e das empresas maquiladoras. Isto se expressou na duríssima repressão à “rebelião da fome”, em 2008, e às reivindicações por aumento do salário mínimo, em 2009, quando em ambos os casos, Preval apoiou esta repressão e sua imagem também foi se desgastando.

Já não havia margem para jogar o papel de “bons amigos”. Ao mesmo tempo, esta clarificação quanto ao seu verdadeiro papel repressivo provocou um aumento do ódio da população contra a Minustah e iniciou um processo de desgaste do papel das tropas ocupantes, É neste marco que ocorreu o terremoto.

Diante do terremoto, a Minustah e a estrutura da ONU no país não se mostraram capazes de organizar e garantir absolutamente nada. Ademais, no meio da catástrofe, os servidores civis e militares da ONU pareciam bem mais preocupados em salvarem a si mesmos e, alguns, em sair do país do que em ajudar os haitianos.

Foi neste contexto que o governo de Obama decidiu enviar os 15.000 soldados ao Haiti. Isto é, decidiu deixar de lado (ou, ao menos, passar a um papel secundário) a camuflagem da ONU e assumir diretamente o controle do país. Isto é, agora o “estado colonial haitiano” está sustentado por estas tropas e o governo de René Preval passou a ser um lacaio direto do imperialismo norte-americano.

A decisão de Obama origina-se em necessidades que não têm nada de “humanitárias”. Em primeiro lugar, para evitar que, em um marco de debilitamento do poder da Minustah, a terrível situação derivasse em uma insurreição ou uma explosão de desespero do povo haitiano. Algo que está latente em todo momento, a partir da falta absoluta de recursos e das negociações que se estão fazendo com a escassa ajuda que chega através da ONU ou das ONGs. Por exemplo, a mobilização realizada em Petionville, um bairro periférico de Porto Príncipe, denunciando o prefeito local, Lydie Parent, de se apossar da comida para revendê-la e não distribuí-la às pessoas famintas.

Por isso, para evitar estas manifestações, as tropas norte-americanas em Porto Príncipe estão transladando parte das centenas de milhares de sem-teto, para acampamentos isolados, bem longínquos do centro da cidade.

A outra preocupação do governo Obama era impedir que a desesperadora situação no Haiti provocasse uma emigração em massa de “balseiros” haitianos para a costa dos EUA. Por isso, ademais, Obama ordenou à Guarda Costeira dos EUA reprimir duramente a quem tentasse essa alternativa.

Outro aspecto do desembarque dos marines é assegurar que os negócios que surgirão da reconstrução de Haiti fiquem em mãos de empresas norte-americanas (recordemos o antecedente do Iraque), desbancando as de outros países. Algo que já tem provocado mal-estar, por exemplo, na empresa construtora brasileira Odebrecht, muito ligada ao governo de Lula, que por ter jogado até agora um papel importante na ocupação, esperava uma fatia maior.

Obama tenta transformar a necessidade em virtude
Ao mesmo tempo, Obama aproveita-se de dois elementos para “vender ao povo norte-americano esta nova invasão. O primeiro é que ainda conserva parte importante de seu prestígio popular (com Bush seria muito mais difícil). O outro é apresentar o envio das tropas como uma “missão humanitária” e assim se projetar com o sentimento natural de solidariedade que despertou a catástrofe com o povo haitiano. Algo que, até agora, lhe deu um bom resultado, já que pesquisas recentes mostram que uma maioria dos norte-americanos aprova este envio de tropas.

Mas se essa campanha deu-lhe resultados nos EUA, a realidade deixa menos margens para “passar por bonzinho” no Haiti e já se vêem os primeiros sintomas de rejeição a esta nova ocupação: há poucos dias atrás, centenas de manifestantes protestaram em frente ao quartel da polícia judicial, atual sede de governo, onde o presidente René Preval se reunia com o Bill Clinton, designado por Obama como um dos coordenadores do “operativo Haiti”.

Outras centenas manifestaram-se em frente à embaixada norte-americana. Um deles gritava: “Nossos filhos queimam-se ao sol… temos direito a um refúgio”, enquanto o próprio Clinton, reconhecendo que quase não tem chegado nenhuma ajuda à população haitiana, disse: “Lamento que demore tanto em chegar”.

Solidariedade operária e popular sim, ocupação não
Apesar desta realidade, os meios de comunicação vêm lentamente relegando a segundo plano o tema do Haiti, buscando dar a impressão de que, na medida do possível, as coisas estão voltando à “normalidade” e há um fornecimento fluído de ajuda, ainda que o próprio Clinton reconheça que chega muito pouco.

Uma mostra da mesquinhez e desumanidade de um imperialismo que foi capaz de dar trilhões de dólares aos banqueiros especuladores ou de gastar bilhões nas guerras do Iraque e Afeganistão, mas se nega a dar uma ajuda séria e real ao sofrido povo haitiano.

E a pouca ajuda que chega, como temos visto, é fonte de negociatas por servidores públicos haitianos corruptos ou mal utilizada pelas tropas ocupantes, como as escassas rações de comida que foram atiradas pelo ar por aviões norte-americanos.

Por isso, diante da quase inexistente ajuda burguesa imperialista, ao mesmo tempo em que propõe exigir destes governos que mandem essa ajuda, a LIT-QI impulsiona uma campanha de solidariedade independente dos governos e a ONU, com um claro conteúdo de classe operário e popular. Em primeiro lugar, pelas organizações que a impulsionam e a organizam nos respectivos países. Em segundo lugar, pela proposta de entregar os fundos e bens arrecadados a organizações operárias e populares haitianas, para que sirvam realmente às necessidades do povo. A proposta é que sejam entregues a Batay Ouvriye, uma organização que, desde o início, tem lutado contra a ocupação da ONU e que lançou um chamado a uma campanha internacional de solidariedade. A proposta da LIT-QI é que estes fundos sejam utilizados para realizar ações concretas de ajuda aos trabalhadores e habitantes das fábricas e bairros onde Batay está presente.

Em outros materiais publicados neste site, fomos informando da marcha da campanha em vários países, como Brasil, Argentina, Espanha e Itália. Agora queremos mostrar um importante passo da campanha no Brasil: por proposta da direção do sindicato dos metalúrgicos de São José dos Campos e Região, assembléias dos trabalhadores da GM aprovaram dar uma contribuição de 1% de seu salário mensal. Nesta cidade, a GM têm mais de 8.000 empregados, o que representará uma arrecadação de cerca de mais de 150.000 dólares. Resoluções similares adotaram-se em outras 6 fábricas da região, com cerca de 3.000 trabalhadores de conjunto. O dinheiro será parte da campanha organizada pela Conlutas e será levado ao Haiti por uma delegação que o entregará a Batay Ouvriye.

Um exemplo da campanha que impulsiona a LIT-QI sob as consignas: Sim à solidariedade operária e popular, não à ocupação.