Weverton Rocha ( PDT) e Guilherme Boulos em reunião no Congresso para discutir aproximação entre os dois partidos.

Direção estadual do PSTU do Maranhão

Neste texto queremos abrir um debate público com o PSOL do Maranhão e com os trabalhadores e a juventude que entendem que é necessário derrotar o governo genocida de Bolsonaro. Queremos debater que tipo de programa vamos defender para o Maranhão e com quais organizações políticas.

Esta semana veio à tona uma crise grande no interior do PSOL do Maranhão, que teve sua conferência estadual no dia 5 de dezembro implodida. As correntes Alternativa/Fortalecer, Resistência, Revolução Solidária e independentes se retiraram da conferência acusando o presidente do partido, Enilton Rodrigues e o MES, de autoritarismo. Mesmo assim, Enilton foi declarado pré-candidato ao governo do Maranhão por essa pulverizada conferência. Contudo, nos parece que essa candidatura própria não é para valer.

O próprio Enilton defende abertamente uma “Frente Popular e Democrática” com o PSB, PT, PCdoB, PDT, etc. Chegou a declarar, em entrevista no dia 27 de outubro à “Agência Tambor”, que o cenário ideal para um segundo turno no Maranhão seria uma disputa entre Weverton Rocha, do PDT, e Felipe Camarão, do PT.  Ou seja, o próprio Enilton deixa claro que a candidatura própria do PSOL é mera formalidade, pois de conteúdo o que deve prevalecer é a “frente ampla” com partidos burgueses, a exemplo do PDT e do PSB.

Essa mesma orientação foi defendida publicamente por Guilherme Boulos, segundo matéria publicada na Folha de S. Paulo do dia 15 de junho: “Em almoço em Brasília, Boulos e Orlando Silva (PCdoB-SP) se comprometeram a buscar apoio em seus partidos ao senador Weverton (PDT-MA) na batalha para o governo do Maranhão. Nesse cenário, em contrapartida, o PDT apoiaria Boulos.

Isso lembra a troca de favores da política dos governadores na época da República do Café com Leite. É lamentável que Boulos coloque o PSOL do Maranhão como moeda de troca para obter apoio de partidos burgueses em outras regiões.

Tudo indica que a direção nacional do PSOL comporá uma “frente amplíssima” com partidos burgueses como o MDB, o PSB e tantos outros em torno do nome de Lula. O PT quer recuperar a confiança da burguesia. Alckmin como vice de Lula pelo PSB não seria novidade para quem já teve Temer como vice de Dilma. A novidade é o PSOL na composição dessa frente e o seu atual presidente e pré-candidato ao governo do Maranhão seguir na mesma direção.

O PDT governou a cidade de São Luís por cerca de 30 anos. Na educação municipal, o então prefeito de São Luís pelo PDT, hoje PSD, Edivaldo Holanda Jr., ficou os quatro anos do seu último mandato sem conceder reajuste salarial aos profissionais da educação e servidores municipais, e sem receber a direção dos sindicatos de trabalhadores.

Quando o PDT governou o estado, o falecido ex-governador Jackson Lago tentou aprovar a famigerada “Lei do Cão” em 2006, mas foi derrotado por uma das maiores greves da história do Maranhão.

Esse partido tem dado apoio aos principais ataques do governo Bolsonaro à classe trabalhadora. Oito dos seus deputados federais votaram a favor da Reforma da Previdência, incluindo o deputado Gil Cutrim do Maranhão, hoje no Republicanos (ex-partido do Vice-Governador Brandão) e base de Bolsonaro.

O trágico caminho da adaptação do PSOL à ordem burguesa

O que Boulos e Enilton defendem para o Maranhão é a reedição do que foi a Frente Popular (PT/ PMDB) que governou o Brasil durante 13 anos. O fim dessa política de conciliação de classes – todos nós já sabemos – foi trágico. Foi o que abriu os caminhos para Bolsonaro chegar ao governo. Quem conhece a história dessas frentes deve alertar a classe trabalhadora e a juventude.

São frentes que surgem quando a burguesia está frágil e sem forças para implementar ela mesma os ataques necessários para o sistema capitalistas, e que tem como objetivo desmoralizar e desmobilizar os trabalhadores.

Lênin, líder da Revolução Russa de 1917, foi o primeiro a formular uma orientação aos revolucionários frente a capitulação à Frente Popular: “explicar pacientemente, todos os dias, o caráter burguês e contrarrevolucionário deste governo”.

Atualmente, essa política é regra geral para quase toda esquerda reformista. Mas, desta vez, o PSOL não está defendendo “voto crítico” a essas frentes sob o pretexto de que é preciso derrotar Bolsonaro, mas dispostos a participar desses governos burgueses.

Uma política de que a classe trabalhadora deve participar do bloco burguês “progressista”, mesmo de direita, para derrotar o “reacionário”, no caso atual derrotar o campo de Bolsonaro. Isso no plano nacional. Já no Maranhão, a corrente Resistência defende a conformação da “Frente de Esquerda” para derrotar a “Direita”, da qual Flávio Dino agora seria parte em razão da sua ida para o PSB. Contorcionismo político é o que não faltará para defender essas frentes a qualquer custo.

Sem desconsiderar o fracionamento da burguesia e suas disputas intestinas, para os marxistas revolucionários existem apenas dois campos: o da burguesia e o do proletariado. O programa de um partido revolucionário deve ser a favor da classe trabalhadora contra a burguesia, já que temos interesses opostos. E essa oposição de interesses não pode deixar de existir nas disputas eleitorais.

Essas frentes com partidos burgueses, em vez de educarem revolucionariamente os trabalhadores, apenas empurram-nos para os braços da própria burguesia, preparando novas e grandes derrotas.

Os lutadores devem se perguntar: numa frente dessa é possível expropriar o agronegócio, que é o principal responsável pela situação de fome no Maranhão e um obstáculo à titulação dos territórios quilombolas e à demarcação das terras indígenas? Essa frente vai defender a desmilitarização das escolas públicas que o governo Flávio Dino está militarizando?  Está disposta a estatizar os grandes supermercados e os centros de distribuição de alimentos para eliminar a fome que atinge mais da metade da nossa população? Vai defender a suspensão do pagamento da dívida pública estadual para que possamos melhorar os serviços públicos e gerar empregos? Essa frente vai defender que os operários e o povo pobre organizem sua autodefesa para enfrentar os milicianos da extrema direita? Assim como o PT não se propõe a anular nenhuma das reformas feitas por Temer e Bolsonaro, no Maranhão, onde Flávio Dino foi o primeiro a impor a Reforma da Previdência de Bolsonaro, essa frente caminhará na mesma direção, com famílias pobres e negras catando lixo em meio a voos rasantes de urubus.

Nenhuma dessas propostas é imediatamente socialista, mas nenhuma delas será realizada por frentes conformadas por partidos que servem aos interesses dos grandes grupos econômicos que controlam o Maranhão e o Brasil.

O PSTU não embarcará em frente de conciliação de classes

A corrente Resistência/PSOL do Maranhão lançou nota antes da Conferência estadual do PSOL, defendendo a conformação de uma “Frente de Esquerda” com PT, PSOL, PSTU, PCdoB, UP e PCB, que seria encabeçada pelo atual secretário de Educação, Felipe Camarão, recém-filiado ao PT.

Felipe Camarão é um político que até pouco tempo estava no DEM, e que migrou para o PT com fins eleitoreiros. A Resistência esconde isso e sequer lembra que Felipe Camarão é o atual Secretário de Educação do governo de Flávio Dino e que desferiu vários ataques contra a educação pública e contra os professores em particular. Nunca respeitou o Estatuto do Educador, nunca reajustou os vencimentos da categoria de acordo com as previsões do FUNDEB, sem contar a cruzada que tem feito para militarização das escolas públicas. Ao invés de desmascarar Felipe Camarão, a Resistência o acaricia propondo a cabeça da tal “Frente de Esquerda”. A isso chamamos de conciliação de classes, ou seja, iludir os trabalhadores para defender um político e um programa a serviço dos interesses da outra classe.

No Maranhão, o PT deve compor com aquele campo burguês que mais servir aos seus interesses eleitoreiros. Por outro lado, a candidatura de Enilton Rodrigues pode estar a serviço do fortalecimento da candidatura de Weverton Rocha do PDT. E, se isso se confirmar, o que farão os militantes do PSOL? Capitularão a tamanho retrocesso ou romperão com esse partido?

É preciso construir um Polo Socialista e Revolucionário para o Maranhão

O capitalismo enfrenta uma das maiores crise da sua história, e já deu sinais de que não existe saída para os trabalhadores por dentro desse regime e muito menos com conciliação de classes. No Brasil temos um genocida no poder, que ainda não caiu porque as principais centrais sindicais dirigidas majoritariamente pelo PT e pelo PCdoB pisaram no freio, apostando todas as suas fichas nas eleições de outubro de 2022.

Não achamos que Lula seja igual a Bolsonaro, em particular porque este último defende a imposição de uma ditadura no Brasil e não esconde seu caráter racista, machista e LGBTIfóbico. Porém, não vendemos a ilusão de que derrotando Bolsonaro nas urnas, nossos problemas estarão resolvidos; assim como a derrota eleitoral de Roseana Sarney não mudou qualitativamente a situação da classe trabalhadora do Maranhão. Pelo contrário, a situação tende a piorar no próximo período, em razão da crise do capitalismo e dos ataques da burguesia a nossa classe. Isso precisa ser dito aos trabalhadores para que eles se preparem para enfrentar esses governos.

Em razão disso, o PSTU e várias outras organizações e lideranças do movimento estão impulsionando a construção de um Polo Socialista e Revolucionário, com um programa para um único campo que é dos trabalhadores, com total independência de classe e que se contraponha a todos os programas burgueses, sejam eles “puro sangue” ou de conciliação de classes. Um programa socialista que possa, sim, ser propagandeado nas eleições burguesas, mas que vá muito além disso; que apresente medidas estruturais para mudar o país e que diga, sem meias palavras, que a classe trabalhadora deve tomar o poder em suas mãos para que tal programa se realize.