No artigo anterior, falamos da carreira do excepcional músico cubano que faleceu na terça, dia 22, depois de embalar, por décadas, sonhos, desejos, prazeres, dores e lutas, principalmente dos povos latino-americanos. Aqui, iremos discutir, porque, exatamente por isso, Pablito se transformou num ferrenho crítico da ditadura castrista e do estalinismo que ela representa.

Há muito o castrismo não entoa as trovas da revolução

Aqui, não é possível desenvolver o debate sobre a atual conjuntura cubana. Mas, para entendermos o porquê saudamos Pablo Milanés não só por sua excepcional trajetória artística, mas, também, por sua postura política, são necessárias, ao menos, algumas referências.

E, para tal, tomaremos como “eixo” a rebelião que tomou as ruas em 11 de julho de 2021, o chamado “11J”, e é exemplar do que o regime castrista é nos dias de hoje, tanto pelas reivindicações quanto pela resposta dada pelo governo.

Na época, setores inteiros da população, com enorme destaque para os mais jovens, saíram às ruas contra a carestia, a crise sanitária, a asfixia política, a ausência das liberdades democráticas e as várias formas de opressão. Em represália aos protestos, entre julho e dezembro, no mínimo 1.300 pessoas foram detidas.

Para se ter uma ideia da intensidade da repressão, em janeiro de 2022, a Procuradoria Geral de Cuba informou que 790 pessoas ainda enfrentavam processos criminais, dentre elas 115 acusados/as com idade entre 16 e 20 anos. Desse número de acusados, 68% estavam em prisão preventiva desde julho.

Grande parte dos presos foi detida sob a acusação de insurreição e furto, apresentados como “graves distúrbios e atos de vandalismo, com o propósito de desestabilizar a ordem pública, a segurança coletiva e a tranquilidade cidadã”. Tudo, obviamente de acordo com o discurso oficial, sob as ordens dos Estados Unidos e com propósitos contrarrevolucionários.

Estudante é detido durante protestos em Havana

Um discurso que não resiste a uma análise concreta da estrutura econômica e política do regime cubano, mas, que, contudo, é repetido à exaustão (ou conta com uma silenciosa cumplicidade) por um enorme setor da esquerda mundial que, influenciada pelos castrismo e o estalinismo, não só mantém o apoio ao regime, identificando-o de forma completamente falsa como um exemplo do “socialismo”, como se recusa a defender os lutadores e lutadoras criminalizados.

É diante disto tudo isto que estamos do lado de Pablo Milanés e não desta suposta esquerda, em suas críticas ao regime. Apesar de, com certeza, não compartilharmos da mesma perspectiva política do cantautor em todos os aspectos deste debate, partimos de um mesmo princípio: o estalismo traiu a revolução e uma burocracia, esta, sim, contrarrevolucionária, está no poder.

O que nos aproxima é algo que discutimos em um dos muitos textos que temos publicado sobre Cuba, como “O regime cubano é implacável com os presos políticos do 11J”.

“(…) E a realidade é que não existe “socialismo” em Cuba, posto que a própria direção castrista encabeçou o processo de restauração capitalista (liquidando o que, naquele momento, foi um Estado operário burocratizado) associado a capitais e interesses imperialistas, sobretudo europeus e canadenses. O que existe em Cuba é um regime autoritário, policialesco e repressor, controlado pela cúpula do Partido Comunista de Cuba (PCC) e pelo alto comando das FFAA que garantem, com mão de ferro, o bom andamento de lucrativos negócios para os capitais estrangeiros, assumindo para si um papel de “sócio menor” da entrega do país ao imperialismo”, escreveu o companheiro Daniel Sugasti, autor do artigo.

“Para esse regime, é intolerável qualquer organização e ação independente da classe trabalhadora e do povo cubanos. Seu pior pesadelo é uma explosão social, com as características que o 11J teve. Por essa razão, em Cuba não existe o direito à sindicalização independente, à reunião e à greve”, concluiu.

Divergências que vêm de longe: Pablo e os “campos de concentração” da UMAP

Como mencionamos no artigo anterior, em 1965, o músico, cumprindo serviço militar, como muitos revolucionários de sua geração, foi designado para um campo de trabalhos forçados das famigeradas Unidades Militares de Ajuda à Produção (UMAP). Uma experiência que não abalou sua crença na revolução, mas o marcou profundamente.

Em uma entrevista ao jornal espanhol “El País”, em 21/02/2015, Pablito lembrou que as UMAPs aprisionaram mais de 40 mil pessoas, “com trabalhos forçados desde as 5 horas da madrugada até o anoitecer, sem nenhuma justificativa nem explicações, e muito menos o perdão que estou esperando que o governo cubano peça”.

Contudo, seus depoimentos mais contundentes sobre este período foram dados em um documentário dirigido por seu amigo Juan Pin Vilar, em 2019. O lançamento, diga-se de passagem, coincidiu com uma declaração de Mariela Castro (filha de Raúl e, portanto, sobrinha de Fidel, além de diretora do Centro Nacional para Educação Sexual) que serve como exemplo dos porquês Pablo se tornou um crítico do regime.

Enquanto para Mariela o tema das UMAPs é “muito sobredimensionado”, já que as Unidades deveriam ser comparadas a “escolas no campo”, Pablo sintetizou a experiência, que ele qualificou como “brutal”, em uma frase: “Conseguiram reunir todos aqueles que consideravam desprezíveis num campo de concentração”, no qual ele só conseguiu manter a sanidade em função da música e das leituras.

Evidentemente, a “tarefa” não foi uma escolha sua. “Eu me sentia como um revolucionário. E quando me enganaram, desta forma, me enviaram um telegrama, dizendo que eu tinha sido escolhido para o serviço militar, e fui escolhido para um campo de concentração (…). Eu estava rodeado de guardas com baionetas”, explicou, recordando que quando foi levado havia “centenas de ônibus” e sequer teve tempo para se despedir de sua esposa e de sua mãe.

Um campo onde, que na pior da tradição de locais como estes, os mais oprimidos também foram os mais vitimados. “Na verdade, os que mais sofreram foram os homossexuais. Uma tarde apareceram caminhões… Com uma lista, alguns oficiais, nomeando pessoas, numa operação relâmpago. Isso aconteceu em todos os campos em Camagüey, na mesma tarde, de forma cronometrada. Pegaram todos eles e os levaram para guetos distantes, isolando-os, todos juntos”, disse ele.

Uma situação que teve com um de seus responsáveis mais diretos o próprio Fidel Castro, basta lembrar uma entrevista dada por ele em 1965. “Jamais iremos crer que um homossexual seja capaz de encarnar as condições e os requisitos de conduta que permitiriam considerá-lo um verdadeiro revolucionário, um verdadeiro militante comunista (…). Um desvio dessa natureza choca-se com o conceito que temos do que deveria ser um militante comunista”, declarou o líder cubano.

Mergulhado na culpa, viu na fuga a única alternativa, sabendo, inclusive, que acabaria preso. “Não foi por ser homossexual, não foi por ser dependente químico, não foi por ser contrarrevolucionário. Foi por causa das minhas opiniões sobre a revolução”, disse Milanés sobre a sua prisão.

Um opositor ferrenho do estalinismo

Não foi só sua dramática experiência nos campos de trabalho forçado da UMAP que fez de Milanés um opositor do estalinismo. Em uma entrevista concedida a uma emissora da República Dominicana, em outubro de 2015, o cantautor manifestou que sua posição tinha a ver com o fato do regime castrista ter se tornado um obstáculo concreto para a verdadeira libertação de seu povo, exatamente por carregar a tradição burocrática do estalinismo.

“Existem mecanismos repressivos que não permitem o protesto de rua, não permitem a livre expressão dos sindicatos (…). O secretário dos sindicatos… é do Comitê Central do Partido ou membro do Bureau Político do Partido Comunista de Cuba, então que independência os sindicatos podem ter para se expressarem na rua, quando houver uma greve ou algo assim?”, questionou Milanés, lembrando que a “Central dos Trabalhadores de Cuba” (CTC) é o único sindicato legalizado do país e, na época, era presidida por Ylises Guilarte, membro do Comitê Central do PCC.

E foi além. “Não pode haver reuniões de mais do que eu não sei quantas pessoas (…). Não há possibilidade de liberdade de expressão (…). Em outras palavras, há muita manipulação, vinda de todos os lados, que são legados do estalinismo que herdamos da União Soviética e que ainda estão em vigor em Cuba”, concluiu Pablo.

Sua oposição ao castro-estalinismo chegou a tal ponto de que, para além das complicações com o regime, acabou resultando num rompimento com seu parceiro mais antigo, Silvio Rodríguez, defensor incondicional dos desmandos da ditadura cubana.

O distanciamento teve início ainda nos anos 1980, mas a coisa descambou de vez em 20103, depois que Rodríguez foi um dos signatários de uma famigerada “Carta Aberta”, apoiando a detenção de 75 dissidentes em Havana e a execução de três pessoas que seqüestraram uma embarcação precária, tentando escapar da ilha.

Contudo, apesar de todas estas desilusões, é uma farsa e uma calúnia dizer que Pablo se tornou um contrarrevolucionário. Pelo contrário. Foi sua crença na revolução que o manteve na ilha, apesar de todos os pesares. E sua própria carreira é testemunha disto.

Ainda nos anos 1980, quando os tortuosos caminhos da revolução haviam se acentuado, Milanés compôs músicas mergulhadas por um profundo otimismo. Não na condução do país pela burocracia, mas no próprio processo revolucionário, como fica evidente na belíssima “Creo em ti” (Acto de Fe), na qual Pablo reafirma sua “crença” na revolução, apesar dos desgostos e contradições, “porque não há nada mais humano” do agarrar-se à luta. Ou, ainda, “Pobre del cantor”, onde lamenta o destino dos cantores que não se arriscam, por medo de arriscarem a própria vida.

Um aliado do povo em luta e das LGBTIs

Uma crença que, inclusive, Pablito realimentou quando viu seu amado povo tomando as ruas, no “11J”, quando, após o levante e diante da repressão que corria solta nas ruas, ele usou sua página no Facebook para manifestar sua posição, em 24 de julho.

“É irresponsável e absurdo culpar e reprimir um povo que se sacrificou e deu tudo de si durante décadas para sustentar um regime que acabou por aprisioná-los. Há muito tempo que venho expressando as injustiças e erros na política e no governo do meu país. Em 1992, estava convencido de que o sistema cubano tinha falhado definitivamente e eu o denunciei. Reitero, agora, as minhas declarações e confio no povo cubano para procurar o melhor sistema possível de coexistência e prosperidade, com plena liberdade, sem repressão e sem fome. Acredito nos jovens, que, com a ajuda de todos os cubanos, devem ser e serão a força motriz da mudança. Aos 78 anos de idade, continuarei a expressar estas mesmas opiniões enquanto a minha saúde me permitir fazê-lo”.

Também estamos com Pablo em sua defesa da comunidade LGBTI, extremamente criminalizada e perseguida pelo castrismo, mesmo depois das barbáries ditas por Fidel (formalmente reconhecidas, e apenas isto, em 2010) e cometidas nas UMAP, como mencionado acima.

Uma das maiores e mais demonstrações de solidariedade foi dada por Pablito aconteceu em 1994, quando gravou “El pecado capital” (mencionada no artigo anterior): Dos almas / dos cuerpos / dos hombres que se aman / van a ser expulsados del paraíso / que les tocó vivir” (“Duas almas / dois corpos / dois homens que se amam / vão ser expulsos do paraíso / em foram colocados para viver”), cantou Milanés em repúdio à perseguição e criminalização daqueles que amam para além dos padrões que eram (e continuam sendo) considerados dignos, pelo castrismo.

Composta em homenagem e solidariedade a Lázaro Gomes, seu amigo e produtor, a música foi censurada pelo regime. Mas, hoje, como ficou evidente no seu show em Havana, é um verdadeiro hino dos quanto LGBTIs, abraçado pelos seus aliados na luta contra a discriminação.

Aliás, é evidente que ter incluído a música na apresentação teve endereço mais do que certo. Pablo e sua filha Haydée foram algumas das muitas vozes que se levantaram contra a forte repressão que atingido fortemente e a comunidade LGBTI durante as manifestações contra o regime, como ficou evidente no “11J”.

Para saber mais sobre o tema, leia dois artigos publicados pela Liga Internacional dos Trabalhadores (Quarta Internacional): “Uma crônica dos protestos de 11J em Cuba” (https://litci.org/pt/2021/09/03/uma-cronica-dos-protestos-de-11j-em-cuba/), que traz um relato da ativista trans e militante socialista Mel Herrara e “Cuba: LGBTIs também tomaram as ruas no 11J” (https://litci.org/pt/2021/08/11/lgbtis-tomam-ruas-cubanas-por-direitos-e-liberdade/).

As calúnias e ataques do castro-estalinismo contra Milanés

A coerência por Pablo em sua derradeira apresentação em Havana, em 21 de junho passado, evidentemente ecoou nos gabinetes dos burocratas do regime e, inclusive, vazou para as ruas, principalmente através da jornalista espanhola Ana Hurtado.

Estalinista de carteirinha, amiga íntima do ditador Miguel Díaz-Canel, a jornalista funciona como uma espécie de porta-voz extra-oficial do regime cubano na Europa, principalmente depois de encabeçar uma verdadeira “cruzada” nas redes sociais contra aqueles e aquelas que ela chamou de “contrarrevolucionários” que tomaram as ruas nos protestos de 11 de junho.

Dias após o evento, Hurtado usou sua página no Facebook para chamar Milanés de “gusano” (literalmente, um verme que desenvolve em matéria em decomposição, mas usado para designar a elite burguesa cubana que, fugindo da Revolução, se refugiou nos EUA, nos anos 1960) e, ainda, de forma completamente patética, para tentar utilizar a apresentação como um exemplo da “liberdade de expressão” na ilha.

“Penso que Pablo tem sido um ‘gusano’ desde 1992, tem sido uma pessoa muito má e assim por diante (…). Aqui na Espanha as pessoas dizem que em Cuba não há liberdade de expressão, mas vejam como há liberdade de expressão, Cuba abriu as suas portas a um ‘gusano’ para que ele pudesse cantar. Olhem a ditadura, o maior ‘gusano’ de todos os ‘gusanos’ vai lá e lhe é dada a oportunidade de cantar”, esbravejou a jornalista.

Se isto não bastasse, também foi furtado que escancarou o que o castrismo, o estalinismo e, por tabela, seus defensores realmente pensaram diante da morte da morte do Trovador da Revolução, como fica evidente em uma mensagem asquerosa que Hurtado fez poucos antes disto, no Twitter, quando Pablo já agonizava no leito do hospital.

Nele, Hurtado não só o chamou de “gusano”, de novo, como foi além. “É um oportunista, que bebeu da bondade da revolução e depois a traiu, no período especial. Menores presos, não [numa referência às denúncias de Pablo, em relação aos manifestantes detidos no 11J]. Delinquentes presos e bem presos que estão. (…). Compreendo que dói, mas é o que é”, disparou a asquerosa pseudo-jornalista.

 “Não ser revolucionário seria trair minha consciência”

Criticada mundo afora, inclusive por sua pura e simples demonstração de desumanidade, Hurtado, contudo, só manifestou de forma mais grosseira e cruel o que muita gente que se diz de esquerda tem feito em relação a figuras menos ilustres que Milanés, apenas disfarçando a repulsa em textos e discursos em “defesa do socialismo” e “oposição ao bloqueio norte-americano”.

Algo que não tem sido feito apenas pelo regime e o estalinismo, mas também por um crescente coro de reformistas, em suas múltiplas versões. Gente que, contudo, ainda é obrigada a reconhecer o talento, a genialidade e o legado de Pablo Milanés, cujas trovas, como ficou evidente no seu último concerto em Havana, continuarão ecoando através do povo. Queira o regime e a “esquerda castrista” ou não.

E, por isso mesmo, terão que seguir com suas manobras e maquinações, traições ou venda de ilusões vãs tendo, mesmo que no fundo da mente, a voz de Pablo Milanés em versos como os do já mencionada “Éxodos” que, depois de constatar que seus velhos amigos estão, agora, entre os empresários, gente que só pinta falsas paisagens ou que só constrói novos instrumentos para a repressão, dispara: “Onde é que eles estão? / quero vê-los para saber / que eu sou humano / que eu vivo e sinto pelos meus irmãos / e eles para mim.”

Por isto, também, apesar de também termos muitas divergências com as perspectivas políticas de Pablo Milanés, nunca o trataríamos ou trataremos como um traitor e um contrarrevolucionário. Pelo contrário. Quem merece estas definições são exatamente seus acusadores.

Em uma entrevista concedida para o jornal “El País”, em 26/02/2015, perguntado porque, mesmo depois de tudo que viu nas UMAPs, ele continuou a se considerar um revolucionário e a defender a revolução, Milanés deu uma resposta que também nos leva a defendê-lo diante dos que o atacam.

A origem está no que Cuba significou para o mundo no ano de 1959. Eu tinha, nessa época, 15 anos, e quando me aprofundei sobre a realidade social da América Latina me transformei em um revolucionário. Essas ideias não só coalharam em mim, mas em todos os países latino-americanos. Os ideais que professávamos eram os mais puros que se podia ter naquele momento. Outra coisa teria sido trair minha consciência. Apesar dos erros cometidos, vi que era preciso defender a ideia original… e ainda a defendo”, disse ele.