Em 2018, me lembro de comentar com alunos um projeto feito pela Fundação Cesgranrio que, sinceramente, me encantou bastante. Chamava-se “Projeto Griôs da Cultura Popular Brasileira” e tinha como objetivo promover uma roda de conversa entre os griôs da Mangueira (Monarco, Rubem Contefe e Tia Maria do Jongo, dentre outros) com crianças e jovens da comunidade, tendo como anfitrião Nelson Sargento, um dos mais importantes do griôs mangueirenses.

Pra quem não sabe, “griots” são aqueles ou aquelas (conhecidas também como “jelis”) que, na tradição africana, são incumbidos de preservar e transmitir as histórias, as lutas, os conhecimentos, as canções e os mitos do seu povo. São os guardiões e guardiãs da sabedoria, da cultura e da ancestralidade. E Nelson Sargento, inegavelmente, cumpriu este papel. E não só na Mangueira.

Lamentavelmente, contudo, ele se tornou mais uma dentre o quase meio milhão de vítimas da Covid-19, tendo falecido, hoje pela manhã, aos 96 anos. Mais uma morte que devemos colocar na conta não só de um vírus, mas, principalmente, de um governo genocida, representante de um sistema que, de fato, não faz os esforços necessários para conter a pandemia exatamente porque ela está matando os mais vulneráveis entre nós.

Aliás, como alerta, vale lembrar que Nelson já havia tomado duas das três doses necessárias da vacina, o que, inclusive, não impediu que a pandemia o atingisse.

Filho do Morro, irmão do Samba

Nelson Sargento “é” História e fez a história de nossa gente e cultura. Nascido com o sobrenome Mattos, em 25 de julho de 1924, e tendo passado a infância no Morro do Salgueiro, ao lado de seus 16 irmãos, o artista desde sempre tem seu nome vinculado ao samba carioca e, particularmente, à Mangueira.

Era filho de uma empregada doméstica (Rosa Maria), tendo como padrasto um pintor de paredes e tecelão português (Alfredo Português) que, bem ao estilo de nossa antropofágica cultura (capaz de deglutir e recriar as mais diversas tendências e influências), transformava fados em samba, ao lado de Jamelão e Nelson Cavaquinho, com quem o então garoto Sargento (com 10 anos) aprendeu a tocar violão.

Durante a vida, como muitos negros e negras, fez de tudo um pouco. Entregou as roupas lavadas por sua mãe, pintou paredes, foi vidraceiro, trabalhou na construção civil e, servindo no Exército, ganhou o apelido que grudou ao seu nome. Mas, foi no samba e na Mangueira que ele se encontrou, quando mal tinha chego à adolescência, passando a integrar sua ala de compositores em 1942, quando estava prestes a completar 18 anos.

Em 1949, venceu, juntamente com o padrasto, o concurso de samba-enredo da Mangueira, com “Apologia ao mestre”, façanha repetida no ano seguinte, com “Plano SALTE”. E, em ambos os casos, levaram a Escola à vitória. Mas, foi em 1955 que pai e filho registraram seus nomes na história do samba-enredo ao comporem “Primavera” (também chamado de “As quatro estações do ano”), considerado, até hoje, um dos mais belos de todos os tempo (aqui abaixo, numa apresentação com Chico César).

Colocando o antirracismo em campo

Vascaino “doente”, hoje, Nelson está recebendo homenagens de todas as torcidas e clubes brasileiros, não só pela sua contribuição para o samba, mas, também, por ser autor de uma música necessária até os dias de hoje, exatamente por ter como foco o racismo no futebol.

“Casaca, casaca” — https://youtu.be/W9FoF8zt3NA — (que faz referência ao grito de guerra do time “casaca, casa, casaca / a turma é boa / é mesmo da fuzarca!”) celebra um episódio de extrema importância para o combate ao racismo nos campos.

Em 1924, o Clube de Regatas Vasco da Gama foi impedido de participar do campeonato da então AMEA (a elite do futebol carioca à época) por ter 12 jogadores negros no elenco – apesar dos motivos oficiais dados à época eram outros. Numa postura literalmente excepcional para a época, o time se recusou a substituir os jogadores e abandonou o campeonato.

“Vasco da Gama baniu o preconceito / em nome do direito / dando razão à razão / Formando atletas de escol / na regata e no futebol / o seu nome está presente”, cantava Sargento, lembrando a luta histórica do clube contra o racismo no futebol.

 “Agoniza, mas não morre”

Nelson não foi apenas testemunho da História do Samba e da cultura popular e negra por quase um século. Ele atuou, ativamente, até pouco “antes do suspiro derradeiro”, como diz uma de suas músicas mais conhecidas (“Agoniza, mas não morre”) para sua preservação, divulgação e, inclusive, renovação.

Diante do seu violão (que, de forma impressionante, foi o mesmo, preservado durante 50 anos) ou “conversando” com ele, passaram alguns dos maiores bambas de nossa história, como Cartola, Carlos Cachaça, os revolucionários integrantes, nos anos 1960, de “A Voz do Morro” (Zé Kéti, José da Cruz, Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Jair do Cavaquinho e Anescarzinho do Salgueiro), e “Os Cinco Crioulos” (com quem fez um espetáculo antológico em 1966, “Rosa de Ouro”), Clementina de Jesus, Beth Carvalho, Elza Soares, Alcione, Sandra de Sá, Diogo Nogueira, Teresa Cristina e tantos outros.

Nos anos 1960, particularmente, vivia-se um momento profundamente rico de nossa história que, sabemos, foi violentamente interrompido pelo Golpe Militar de 1964. E os shows mencionados acima foram parte do mesmo processo em que se inserem as iniciativas do Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional do Estudantes (UNE), da tentativas do Cinema Novo se aproximar dos setores mais explorados e oprimidos, através de filmes como “Cinco Vezes Favela” (de Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hiszman e Cacá Diegues), do Teatro de Arena “engajado” de Augusto Boal, Vianinha e Gianfranceso Guarnieri.

Neste sentido, em particular, foi um espetacular “griot”. Pois, talvez, seja exatamente na sua imensa capacidade de dialogar com diversas vertentes e gerações do samba que resida sua principal contribuição, para além das mais de 400 composições que nos deixou (como “Encanto da Paisagem”, “Falso amor sincero”, “Século do samba” e “Acabou meu sossego”) e a imensidade de gente que inspirou e influenciou. “Agoniza, mas não morre” é uma celebração da capacidade de reinvenção do samba, de sobrevivência pela própria renovação.

Escrita em 1979, em meio aos debates sobre os rumos da cultura popular diante da cada vez mais impactante “globalização”, a letra nos lembra que o samba é “negro, forte, destemido / foi duramente perseguido / na esquina, no botequim, no terreiro”, e que, no decorrer da história, já tinha sido abraçado pela “fidalguia” (a nobreza e grã-finagem) do salão, que “mudaram sua estrutura / impuseram outra cultura”.

Mas, Nelson não cantava isto em tom de lamento. Fazia uma constatação. E não da “derrota” do samba, mas, sim, de sua capacidade de renovação, resistência e recriação. Algo do qual o próprio Sargento foi exemplo fantástico, até mesmo pela sua extrema generosidade e espírito “juvenil”, capaz de dialogar, como poucos, com as novas gerações. Exemplo disto, diga-se de passagem, foi ter lançado, em 2018, aos 94 anos, um canal no YouTube.

Um eterno menino! Um griot imortal!

Além de músico, Nelson ainda se dedicou à pintura e se aventurou na atuação, tendo participado em filmes como “Orfeu do Carnaval” (Cacá Diegues, 1999), “O Primeiro Dia” (Walter Salles e Daniela Thomas, 1998) e da minissérie “Presença de Anita” (2001). Em 1997, sua vida foi registrada em um premiado filme de Estevão Ciabatta (“Nelson Sargento na Mangueira”).

Mesmo tendo lutado contra um câncer de próstata nos últimos anos, manteve-se em atividade até pouco de ser internado. Em fevereiro, consciente do avanço da pandemia, veio a público defender a suspensão do Carnaval. “Todos nós estamos um pouquinho tristes por não ter desfile, mas foi melhor assim. Temos que estar todos vacinados para fazermos um grande carnaval em 2022”, declarou à imprensa.

Infelizmente, não o veremos em 2022. Mas, com certeza, seu nome sempre estará vinculado à festa mais popular do país. Aliás, adoro uma frase que ele disse em 2019, em uma de suas mais simbólicas passagens pela Sapucaí, quando desfilou como ninguém menos que Zumbi, no maravilhoso enredo da Mangueira (“Histórias para ninar gente grande”) e lhe perguntaram de onde ele tirava tanta disposição: “Enquanto os meninos que moram dentro da minha cabeça estiverem na ativa, continuarei fazendo algumas coisas”.

Infelizmente, os “meninos” foram levados ao descanso. Mas, com certeza, seus sambas, seu legado e sua importância para a cultura negra e popular continuarão cantalorando e dançando em nossas cabeças por muito, muitíssimo, tempo. Hoje, nos resta estender nossa solidariedade a sua família – ele deixa a mulher Evonete Belizario Mattos, nove filhos, além de netos e bisnetos – e nos unirmos a todos que lamentam sua morte.

Mas, para além do lamento por terem lhe arrancado a possibilidade de viver os anos que, certamente, ainda estariam por vir, só podemos lhe agradecer por ter dedicado sua longa e bem vivida vida à exaltação de nossa cultura.