Os conciliadores da “Oposição de Esquerda” e a resposta da extrema-direita

Wagner Miquéias

O governador da Bahia, Rui Costa (PT), deu preciosa cobertura para a família Bolsonaro ao defender a nebulosa operação da PM baiana que resultou na morte do miliciano e ex-capitão do BOPE, Adriano da Nóbrega.

Primeiro, Rui Costa se recusou a comentar a operação. Depois, disse o seguinte: “Eu não quero falar sobre isso. Eu não quero politizar um assunto que, a meu ver, não tem nada de político. Esse é um assunto que está sendo tocado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro, pelo Ministério Público da Bahia e pela Polícia Civil do Rio e da Bahia. Isso é um assunto policial. Eu não fico comentando as ações da polícia“.

Como é possível não “politizar” o assassinato de um dos criminosos mais procurados do país, escondido no sítio de um vereador do PSL, envolvido com a família Bolsonaro e suspeito de envolvimento no assassinato da ex-vereadora Marielle Franco do PSOL?!

O curioso é que o governador petista não agiu dessa maneira em 2015, quando a sua PM executou barbaramente 12 jovens negros e pobres no bairro do Cabula, na periferia de Salvador. Na ocasião, Rui Costa imediatamente comentou a operação defendendo a Polícia Militar e comparando-a a “um artilheiro em frente ao gol que tenta decidir, em alguns segundos, como é que ele vai botar a bola dentro do gol, pra fazer o gol“.

A cobertura dada por Rui Costa foi uma ajuda inestimável para a família Bolsonaro! Dada, justamente, nos primeiros dias da operação, quando o grau da repercussão do assassinato ainda não era de todo conhecido. No dia do assassinato do miliciano, o ministro Sérgio Moro desconversou, twitando que sentia saudades dos programas infantis matutinos na TV… Já Bolsonaro ficou em silêncio, e Flávio Bolsonaro e seus outros filhos também.

Mas, passados os dias, a turba bolsonarista se sentiu forte o suficiente para assumir a ofensiva. Primeiro, Sérgio Moro deu declarações insinuando a responsabilidade do PT e, nesse dia 15, Bolsonaro e seu filho Flávio, na saída do Palácio da Alvorada, em Brasília, direcionaram a artilharia para cima do PT, acusando com todas as letras o PT de “queima de arquivo” pelo assassinato do Adriano da Nóbrega, reavivando o assassinato do então prefeito de Santo André (SP), Celso Daniel (PT).

Os conciliadores da chamada “Oposição de Esquerda” acham que, ao colaborarem com a extrema-direita, serão pagos na mesma moeda. Não serão.

PT e PSOL seguem de mãos dadas

Alguns petistas, esquecendo a orientação dada por Lula de deixar Bolsonaro trabalhar e “não torcer contra” o governo miliciano, já dizem que essa foi uma atitude isolada do governador da Bahia, e que ele não representa o PT.

Muito pelo contrário! Hoje, Rui Costa é a expressão mais fiel e acabada do PT. Ou seja, quem esqueceu e/ou quer saber o que pensa e pode fazer o PT quando governa, olhe para Rui Costa. É tão vergonhoso o papel desempenhado pelo PT que há de se pensar que Bolsonaro estaria em mais apuros se o assassinato do miliciano tivesse sido feito pela PM de João Dória (PSDB), ex-aliado de Bolsonaro e hoje desafeto.

Vale lembrar que Rui Costa (PT) foi o primeiro governador a emplacar uma reforma da Previdência, antes mesmo da aprovação do projeto de Bolsonaro e Guedes. Em janeiro deste ano, protocolou mais uma reforma da Previdência e usou a PM para reprimir duramente os trabalhadores que protestavam em frente à Assembleia Legislativa. E, como se isso não bastasse, faz questão de elogiar o projeto de Lei Anticrime do ministro Sérgio Moro…

Mas a conciliação de classes não é só exclusividade do PT. Também é o devir do PSOL, que vai a reboque de Lula.

Consequentemente, algo parecido acontece com o PSOL: quem quer saber qual é a natureza, a estratégia e para onde caminha o PSOL, não deve olhar para um ou outro parlamentar psolista esforçado, mas sim para Marcelo Freixo. Ele é a versão mais fiel, coerente e acabada do reformismo psolista. Os fatos que comprovam isso são abundantes, mas tomemos apenas o mais recente.

No final do ano passado, Freixo (PSOL-RJ), Edmilson Rodrigues (PSOL-PA) e Fernanda Melchionna (PSOL-RS) votaram a favor do Pacote Anti-Crime do ministro Sérgio Moro. Com isso, deram apoio político a um projeto racista e autoritário, dias após o massacre em Paraisópolis, e colaboraram para fortalecer uma das figuras mais perigosas do governo Bolsonaro.

O mesmo Sérgio Moro que deixou o miliciano Adriano da Nóbrega fora da lista dos criminosos mais procurados do país, elaborada pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, e justamente chamado por Glauber Braga (PSOL-RJ) de “capanga da milícia”.

O objetivo é claro: mostrar para uma parte da burguesia que o PSOL, sob a égide de Freixo e de seu grupo, podem governar o Estado burguês de forma “responsável”, e que não oferecem risco para a dominação burguesa. Até a bandeira dos “direitos humanos” – bastante esvaziada de classismo – vem dando lugar à bandeira da “segurança pública”…

É a partir disso que compreendemos o tratamento dado por boa parte do PSOL ao assassinato da Marielle: primeiramente, tentando impedir uma mobilização de massas em resposta à morte da vereadora, em 2018; e, agora, tentando desvincular o miliciano Antonio da Nóbrega da família Bolsonaro. O PSOL chegou a alterar uma nota emitida no dia 9 de fevereiro, atenuando o tom de denúncia no envolvimento entre a família Bolsonaro e o assassinato de Marielle Franco.

Em síntese, PT e PSOL se comportam em relação a Bolsonaro como os reformistas italianos se comportavam com a ascensão de Mussolini: “deixe-me em paz, que o deixarei em paz”. A história mostrou que isso não funciona.

Derrotar Bolsonaro nas ruas e nas lutas

Bolsonaro é um político com traços fascistas, e que lidera um governo de ultradireita populista que tem um projeto ditatorial para o país, cujos contornos ainda não estão completamente definidos. Ele subiu ao poder numa espécie de gambiarra de Frente Única de extrema-direita, abrigada numa sigla de aluguel (PSL) que já mostrou seus limites.

A adaptação à democracia burguesa, e o desprezo por partidos políticos coesos para a tomada e conservação do poder, também atingiu a extrema-direita. Bolsonaro e seu núcleo perceberam que nada adianta um projeto autoritário sem um aparato forte e disciplinado para levá-lo adiante.

Pôs mais um militar no Planalto, o general Braga Netto que comandou a Intervenção Militar no Rio de Janeiro, em 2017-18, sob ordens de Michel Temer (MDB). E, paralelo a isso, corre para formar seu partido (Aliança pelo Brasil) e, com a conivência da justiça eleitoral burguesa, o apoio das máfias cartoriais, e a vista grossa da grande mídia e da “oposição de esquerda”, deve conseguir em breve legalizá-lo.

Não podemos esperar que o governo Bolsonaro se fortaleça mais. Por isso, os trabalhadores e a juventude não podem se subordinar a essas direções carcomidas pelo reformismo, pelo oportunismo eleitoral e pelo burocratismo. É hora de organizar o enfrentamento a esse governo!

Os petroleiros estão indicando o caminho: é hora de parar a produção, os serviços, e ir às ruas. É hora, também, de unificar as lutas do serviço público e impulsionar a construção de uma Greve Geral que tire o chão social dos pés de Bolsonaro e mine a influência que ele ainda exerce sobre parte dos trabalhadores.

Passando para a frente das ações, a classe trabalhadora consegue se desembaraçar da influência da pequena burguesia e da classe média, podendo guiar parte desses setores ao invés de ser guiada por eles. Demonstrando assim, na prática, que a única saída para a crise que estes setores atravessam é lutar ao seu lado, ao lado dos trabalhadores na construção de um governo socialista apoiado em conselhos populares.