Redação

Morreu aos 95 anos neste domingo, 16, o histórico dirigente político e sindical Raphael Martinelli. Com uma história que se funde à trajetória do movimento operário do século 20 e da luta contra a ditadura neste país, Martinelli dedicou os últimos anos da sua vida à luta pela preservação da memória das atrocidades cometidas pelo regime militar, punição do torturadores e reparação para as vítimas.

Nascido em 1924, Martinelli foi vidraceiro e metalúrgico, mas foi como trabalhador ferroviário que se tornou líder sindical, já na década de 1960. Compôs a direção da CGT (Comando Geral dos trabalhadores), atuou no PTB antes de entrar no PCB e, após o golpe de 1964, rompeu com o partidão para integrar a Ação Libertadora Nacional (ANL) de Marighela.

Sua atuação junto à classe operária lhe rendeu duas prisões: em 1955 e, já na ditadura militar, em 1970, já então um ativista experiente, ocasião no qual permaneceu três anos preso, sendo submetido a torturas no DOI-CODI e no Deops.

Com a abertura, ajudou a fundar a CUT e o PT, então os processos mais avançados na organização independente da classe trabalhadora. Mais recentemente, dedicou-se à luta pela memória dos presos políticos e mortos pela ditadura. Fundou em 2001 o Fórum dos Ex-Presos e Perseguidos Políticos do Estado de São Paulo, e em 2009 o Núcleo de Preservação da Memória Política, tendo colaborado ativamente para a Comissão Nacional da Verdade.

Apesar de stalinista convicto, Martinelli sempre foi referência de abnegação, de uma militância honesto em prol da classe operária. Sobre isso, aliás, ele próprio conta uma história interessante, ocorrida há 5 anos numa atividade pela reparação aos perseguidos políticos, em Brasília. Aproximando-se de Luiz Carlos Prates, o Mancha, antigo dirigente operário do PSTU, disse: “Nós stalinistas perseguimos muito vocês trotsquistas… Hoje vocês são maioria. Se tomarem o poder vão fuzilar a gente?“.

Mancha sorriu e respondeu: “Não vamos fuzilar os lutadores da nossa classe“.

E é assim, como lutador da classe, histórico militante em prol da classe operára que se recusou, até os últimos de seus dias, a esquecer os crimes da ditadura e a exigir justiça, que Martinelli será lembrado.

Martinelli, presente!