O início do programa Big Brother Brasil 21 vem causando um grande debate, especialmente nas redes sociais, mas também fora delas. Entre o uso superficial do discurso da luta contra as opressões, passando por episódios de xenofobia, até o que vem provocando mais celeuma nos últimos dias: a forma cruel com que a cantora Karol Conká e a psicóloga Lumena Aleluia vêm tratando o artista, também negro, Lucas Penteado.

Antes de mais nada, é preciso lembrar que o BBB é um programa que lucra levando seres humanos ao limite de suas emoções.

Confinar vinte pessoas numa casa em meio à maior pandemia do século XXI, por si só, é um espetáculo de perversidade que só o capitalismo é capaz de oferecer. Ninguém ali parece estar bem. O que me leva a concluir que a Rede Globo deve SUSPENDER IMEDIATAMENTE esta edição do BBB e que a emissora deve ser responsabilizada e obrigada a reparar os danos causados à saúde mental de todos os participantes.

Dito isto, deixo algumas impressões a partir dos resumos que assisti até aqui:

– A emergência da luta contra o racismo, indiretamente, fez deste o BBB mais negro da história; e o BBB com o maior número de LGBT’s declarados;

– Mas nestes poucos dias, parece cada vez mais nítido que não basta ser negro ou negra. É preciso ter compromisso político e moral com a nossa raça e com a nossa classe;

– Há negros que podem ser cruéis até mesmo com outros negros, especialmente quando possuem alguma vantagem educacional, profissional, regional e/ou de classe;

– Como disse o humorista negro Paulo Vieira, “a herança do Brasil é um monte de preto com a cabeça fodida” como o Lucas. “Lucas é o que mais tem na minha casa” e é o que mais tem nas casas de famílias negras pobres e trabalhadoras.

– As respostas aos erros cometidos por ele tornam-se completamente desproporcionais;

– A crueldade desproporcional que estamos vendo partindo de pessoas negras como a Karol Conká e Lumena Aleluia contra o Lucas – e contra a Juliette no episódio de xenofobia de Conká contra a paraibana – também pode ser entendida como uma espécie de sinal emitido para os brancos e para o sistema;

– Historicamente, esse tipo de ação persecutória, assediadora e cruel contra irmãos e irmãs de cor – sobretudo quando são pobres e trabalhadores – é uma tentativa de demonstrar aos brancos e aos donos do sistema que esses sujeitos são confiáveis já que, no limite, são capazes de punir seus próprios irmãos;

– Por outro lado, torná-la a “vilã” do programa, ou qualquer outro (a) não resolve absolutamente nada;

– Há um uso abusivo e hipócrita do debate sobre as opressões; com “palestrinhas” por todos os lados. Fiuk é o grande exemplo disto.

– A ameaça do “cancelamento” paira como uma nuvem sobre a Casa do BBB 21;

– O “cancelamento” é uma distorção do ascenso na luta contra as opressões; é uma distorção do aumento da consciência contra as opressões. É uma forma de julgamento/crítica coletiva apropriado e dirigido por oprimidos da classe média e da pequena burguesia;

– E um dos efeitos colaterais dessa política do “cancelamento” é exatamente isso que estamos vendo: comportamentos hipócritas, choros sem remorso, pessoas “palestrinhas” e discursos bonitos sem nenhum lastro com a prática;

– O medo de ser “cancelado” não produz mais consciência e solidariedade racial, de gênero e/ou de sexualidade;

– O medo de ser “cancelado” produz mascarados e mascaradas; e, de tabela, ajuda a desmoralizar perante a população a luta contra as opressões;

– Por fim, há duas grandes estratégias de enfrentamento à luta contra o racismo em curso no país atualmente: 1) Aquela exemplificada por Bolsonaro, de bater de frente com o ascenso negro e as pautas raciais, de negar a existência do racismo, ou minimizá-lo; 2) Aquela exemplificada pela Rede Globo que incorpora parte do debate racial, promove figuras negras confiáveis e tenta abafar as lutas diretas.

– Ambas estratégias são burguesas. Nenhuma delas nos serve. O detalhe é que a política da Rede Globo leva à desmoralização da luta contra as opressões perante a classe trabalhadora.

– Obs: Nem tudo é “cancelamento”. Setores oportunistas da “direita” e da “esquerda” (sobretudo os stalinistas) tentam adesivar qualquer crítica e combate às opressões como “cancelamento” e “identitarismo” para ocultarem o seu desacordo com a necessidade de se combater cotidianamente o machismo, o racismo e a LGBTfobia combinado com a luta contra a exploração capitalista.