O novo Vietnã do imperialismo norte-americano

Combatente da resistência iraquiana

O que há de comum entre Saigon e Bagdá na históriaCada período histórico possui particularidades, circunstâncias sociais, econômicas e políticas. Mais isso não quer dizer que não seja correto comparar fatos históricos com o presente. Tais comparações nos ajudam a compreender e a criticar os acontecimentos atuais, que se desenvolvem perante os nossos olhos. Nesse sentido, é importante fazer uma comparação entre a atual situação iraquiana e os acontecimentos produzidos há mais de 30 anos e que conduziram o imperialismo à sua maior derrota militar na história.

A situação atual do Iraque é comparável, em vários aspectos, ao Vietnã em meados dos anos 60. Em primeiro lugar porque, depois da invasão das tropas norte-americanas e britânicas, desenvolveu-se no país uma grande resistência militar armada, pela libertação nacional do país, reunindo diversas facções políticas contra um inimigo comum: o agressor imperialista.

Pode-se dizer que hoje, sem a menor sombra de dúvida, a resistência encontra um apoio de massas entre a população. Fato este que impede as tropas invasoras de avançar para obter um controle definitivo do país. As operações de sabotagem e as ações contra os militares norte-americanos lembram muitas ações desenvolvidas pelos vietcongues nas ruas de Saigon e de outras cidades do sul vietnamita.

O apoio popular à resistência tem como matéria-prima a brutalidade praticada pelas tropas invasoras. Seja homem, mulher, idoso ou criança, todo iraquiano é um inimigo comum que precisa se derrotado. “Os norte-americanos estão cegos por seu chauvinismo. Seus militares estão violando e matando as mulheres iraquianas. Entram nas casas, as saqueiam e destroem tudo”, declarou o iraquiano Mohamed Hasan. A covardia e brutalidade contra a população civil também é traço comum que liga o Iraque e o Vietnã na história e ambas produziram a base do apoio popular à resistência.

Outro problema que enfrenta o exército invasor, e que alimenta a idéia de um novo Vietnã, é a crescente desmoralização e degeneração das suas tropas. Muitos soldados estão vivendo estados de tensão e loucura em função dos constantes ataques surpresas empreendidos pela guerrilha. “Os que estão aqui há 6, 9 ou 12 meses demonstram impaciência, apontam suas armas para qualquer pessoa e as vezes estão drogados”, testemunhou um jornalista norte-americano Dahr Jamil.

A divisão começa a corroer as tropas invasoras. É crescente o número de soldados que se declaram “objetor de consciência” (soldados que se recusam a lutar).
Mas talvez o fato que mais pode levar a uma comparação direta entre os dois períodos históricos sejam as tentativas de trajar a ocupação com a farsa da “democracia”.

Em 1963, o governo fantoche de Ngo Dinh Diem, aquela altura extremamente impopular, não servia mais aos propósitos ianques e sofreu um golpe apoiado pelos EUA que custou a vida do antigo ditador. Mais tarde, em 1967, foram convocadas eleições para a escolha de um novo governo fantoche para o Vietnã do Sul. “Uma eleição vitoriosa foi considerada como fundamental para a política do presidente Johnson de alimentar o crescimento dos processos constitucionais no Vietnã do Sul (…) O propósito da votação foi legitimar o governo de Saigon, que se assenta sobre golpes e corrupção desde de novembro de 1963”, dizia o jornal New York Times em 1967.

Na semana que antecedeu os 30 anos da queda de Saigon, a Assembléia Nacional iraquiana aprovou o gabinete do novo governo da Aliança Unida Iraquiana, vencedora das eleições de janeiro. Caberá ao novo governo fantoche tentar aplacar a resistência iraquiana e auxiliar os EUA na rapina do país. Prova disso é o fato de Ahmed Chalabi ter sido indicado para ocupar o ministério do Petróleo. Chalabi é conhecido pelas suas estreitas relações com o Pentágono e responde acusações de roubo e corrupção.

Como se pode ver, em que pesem as diferenças históricas, há muita coisa em comum entre o Iraque e o Vietnã na história. “Lá não existe selva” teria dito Donald Rumsfeld, tentando exorcizar os fantasmas que rondam os falcões de Bush.

Mas eles continuam a assombrar. “Como no Vietnã, como na Líbia quando Mussolini ocupou esse país, como no Sudão contra o império Britânico, como em todo o país que tenha se confrontado com uma força guerrilheira, nenhum exército estrangeiro convencional conseguiu derrotar uma força guerrilheira local de certo tamanho”, afirma Craig B. Hulet, ex-combatente do Vietnã.

Nos casos citados acima, todas as forças invasoras amargaram derrotas e foram obrigadas a retirar suas tropas. A história conspira contra os invasores norte-americanos.