Gustavo Lopes Machado, de Belo Horizonte (MG)

É comum escutarmos as pessoas falarem: “não dependo de ninguém” ou “a vida é minha, eu faço o que eu quiser”. Essas frases resumem bem a noção de liberdade na sociedade capitalista e uma de suas principais ideologias: o liberalismo. Na concepção liberal, as demais pessoas são um limite, uma barreira. Numa sociedade em que cada um é obrigado a lutar contra todos para sobreviver, o inferno são os outros. Trabalhadores lutam entre si pelo emprego ou por um novo cargo. Os capitalistas procuram destruir uns aos outros na eterna busca pela maior fatia de lucro. Nessa guerra, ser livre é não depender de ninguém.

É curioso que a mesma pessoa que diz não depender de ninguém não se dá conta de que a cada instante, a cada momento ela está se relacionando e depende da atividade de milhões de outras pessoas. Sem elas, não sobreviveria nem por uma semana. Na água que bebemos, na energia elétrica que consumimos, na casa que moramos, nas roupas que vestimos, nos meios de transporte que utilizamos e todo o resto existe o trabalho e o suor de milhões de trabalhadores em todo o mundo. Como é possível uma forma de sociedade que, ao mesmo tempo que gozamos do fruto do trabalho de tanta gente, espalhadas por todos os lugares do mundo, acreditamos não depender de ninguém? É exatamente essa pergunta que Marx procura responder nos primeiros capítulos de sua principal obra: O Capital.

Não é um livro de economia no sentido que vemos nos noticiários. O Capital é um livro sobre a vida. Não a vida dessa ou daquela pessoa, mas como é a vida de todas as pessoas dentro da sociedade capitalista.

O Capital também não é um livro de sociologia. A economia e a sociologia são ciências burguesas. Elas servem para administrar a sociedade capitalista. O que Marx busca não é apenas uma nova teoria sobre o funcionamento da sociedade. Ele procura compreender a sociedade capitalista para encontrar os caminhos possíveis de sua transformação, de sua destruição. Por isso, o que encontramos em O Capital é uma teoria revolucionária: base de um programa de transformação social.

A mercadoria e as relações sociais: as coisas não são o que parecem ser
Foi necessário gastar tanta tinta e tanto papel para escrever essa obra porque no capitalismo as coisas não são o que parecem ser. Como indicamos antes, as pessoas parecem independentes umas das outras. No entanto, estamos utilizando o produto do trabalho de milhões de outras pessoas quando nos alimentamos, nos vestimos, caminhamos pelas ruas e tudo o mais. Isso acontece porque no capitalismo tudo se mostra às avessas. Todas as relações sociais estão encobertas.

Essa situação é tão real que normalmente acreditamos ter relações sociais quando nos reunimos com os amigos ou a família, quando conversamos com colegas num bar ou mesmo em encontros religiosos e políticos. Nada mais falso. Uma relação social não é todo tipo de relação entre pessoas. Ela acontece quando as pessoas se relacionam com a sociedade de modo a garantir que ela continue a existir. Por isso, por estranho que possa parecer, nos relacionamos socialmente quando fazemos compras, quando pagamos uma passagem de ônibus ou, ainda, quando quitamos a parcela de um automóvel ou uma casa. É pela compra e venda de mercadorias que as pessoas se relacionam na sociedade capitalista, garantindo a distribuição de toda a riqueza produzida.

A situação é tão estranha que quando temos de fato relações sociais, não percebemos. Quando temos relações privadas, com amigos, família e companheiros, acreditamos que estamos tendo relações sociais. É esse fenômeno que Marx chamou de alienação ou estranhamento. Isso acontece porque, no meio de todas relações sociais, existe sempre uma mercadoria. Quando nos relacionamos socialmente, não vemos pessoas, nem trabalho, nem esforço, nem pesquisas, mas um produto acabado com seu preço. Por isso, a mercadoria ganha vida própria e as pessoas caminham hipnotizadas e encantadas no oceano das mercadorias. É o que Marx chama fetiche da mercadoria.

Dinheiro, o rei das mercadorias
Esse estranhamento é ainda maior com a mercadoria das mercadorias: o dinheiro. O dinheiro é o equivalente universal que permite comprar todas as demais mercadorias. Se pensarmos bem, no entanto, veremos que ele é ainda mais estranho. Todas mercadorias tem seu valor representado no dinheiro. Uma mercadoria vale R$ 100, R$ 200 ou R$ 1.000. Porém quanto vale uma nota de R$ 100? Ora, R$ 100. A pergunta parece ridícula, porque o dinheiro, ao que parece, é a própria encarnação do valor. Parece que as mercadorias têm valor por causa do dinheiro. Por isso Marx diz que o dinheiro é “o deus e o rei das mercadorias” é o “tesouro que nem as traças nem a ferrugem devoram”. O dinheiro se reveste, assim, de forças sobrenaturais. Esse é o fetiche do dinheiro.

Não sem razão, na sociedade capitalista, tudo se mede pelo dinheiro. Uma pessoa é considerada bem sucedida se ganhou muito dinheiro. Não importa seu caráter, seus feitos e conquistas. Um pesquisador que descobriu importantes leis da natureza ou da sociedade, um dirigente sindical que organizou importantes greves e mobilizações, todos são fracassados se não ganharam dinheiro. As pessoas ficam satisfeitas quando a poupança se eleva e tristes quando têm de gastá-las. Tudo está a serviço da acumulação de dinheiro. Num episódio curioso, a mãe de Marx lhe escreve que, além de ter dedicado toda sua vida a escrever O Capital, deveria ter se dedicado a ganhar o capital.

O dinheiro nessa sociedade não é apenas valor. Ele é também poder. Diz Marx: “o poder social, assim como seu vínculo com a sociedade, [o indivíduo] traz consigo no bolso”. Sem dinheiro, estamos excluídos de todas as relações sociais. Estamos condenados à morte. Até as armas se transformam em mero meio para acumular dinheiro. Isso é verdade tanto para as milícias do Rio de Janeiro e o tráfico de drogas quanto para o poder oficialmente organizado: o Estado. Por um lado, os estados dominantes detêm o controle das principais armas. Por outro, todos os estados garantem a hegemonia de seus capitalistas sobre o dinheiro.

Porém, se o dinheiro é o valor que mede a tudo e a todos, o que aconteceria se recolhêssemos todo o dinheiro de um dado país? Tudo seria gratuito e sem valor? Evidentemente, não. O dinheiro apenas aparece como sendo o valor. Na verdade, ele apenas representa a riqueza da imensidão de mercadorias que circulam. A recente greve dos caminhoneiros no Brasil, bem como uma greve geral, mostram que sem mercadorias para vender e comprar o dinheiro não serve para nada. Na realidade, dinheiro é circulação de mercadorias.

É o trabalho que produz valor
A teoria do valor de Marx mostra que só é possível que todas as mercadorias expressem seu preço no dinheiro, porque toda mercadoria já tem valor independente do dinheiro. Isso acontece porque todas mercadorias são comparadas e igualadas umas com as outras no mercado. Por isso, seu valor é reduzido à única substância social comum a todas mercadorias: o trabalho. Toda mercadoria, seja sapatos, seja carros, seja iPhones, é produto do trabalho igualado a outros no mercado. Por ter essa substância social comum, o trabalho no geral, trabalho abstrato, o dinheiro pode expressar o valor de todas elas.

Quando olhamos para todo esse universo de mercadorias não apenas como um produto acabado que vale dinheiro, mas como algo que contêm trabalho humano e, por isso, valor, tudo vira de pernas para o ar. Vemos, em primeiro lugar, que todos dependem de todos. Que não existem indivíduos isolados. Vemos que ser livre não é fazer o que lhe der na telha. Ser livre é ter consciência de todo esse processo de produção e distribuição da riqueza e, assim, ser parte ativa dele.

Na sociedade capitalista, isso é impossível. Todo trabalho contido nas mercadorias, todo valor, toda produção é regulada e distribuída por um mercado que tem os capitalistas e seus representantes governamentais como agentes. Os trabalhadores que são, na verdade, os que produzem todo valor e, assim, responsáveis pelo poder de compra do dinheiro, estão impedidos de usufruir da sua própria obra. É por isso que estão alienados. A alienação não tem nada que ver com ideias falsas e a rede Globo. A alienação é o modo mesmo de funcionamento da sociedade capitalista. Relacionamos diretamente com coisas: mercadorias e dinheiro e, apenas indiretamente, com outras pessoas. Não vemos as relações sociais que se ocultam por trás de tudo.

Lutar para destruir o capitalismo
Como superar esse abismo que separa todas as pessoas no interior das relações sociais capitalistas? Seria necessário fazer com que os trabalhadores leiam O Capital de Marx para se darem conta da situação ? Ora, se fosse esse o caso, transformar a sociedade capitalista seria impossível. O Capital de Marx foi escrito para a vanguarda dos trabalhadores que atuam de forma organizada no lugar onde todo o valor se origina: o local de trabalho. Quando os trabalhadores atuam não enquanto indivíduos no mercado, mas como classe social, toda realidade absurda da sociedade se revela. Os trabalhadores de uma fábrica em greve se dão conta de que tudo que existe ali é produto de seu trabalho. Numa greve geral, fica evidente que a sociedade inteira paralisa sem a atividade dos trabalhadores. Fica nítido, também, que os capitalistas são apenas parasitas que vivem do trabalho alheio.

Por isso, O Capital de Marx foi escrito para indicar que, sem destruir a sociedade capitalista, toda e qualquer luta ou mobilização será uma tempestade num copo d’água. Lutar para destruir essa forma de sociedade é, por isso, a maior liberdade que se pode ter no capitalismo. É a única forma de ação em que temos consciência das algemas que nos prendem e das possibilidades de libertação que a própria própria sociedade oferece.