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Rosenverck Estrela 

Sem dúvida nenhuma, o debate sobre a questão racial é complexo, principalmente num país que se negou a fazer esse debate de forma séria, histórica e visando a emancipação da população negra. Para esse projeto, o movimento negro – em suas diversas posições políticas – se colocou em confronto com o Estado, com as organizações da sociedade civil que não aceitavam discutir o racismo de forma consequente e, acima de tudo, em confronto com os racistas.

Nesse projeto de confronto e por uma sociedade sem racismo, no movimento negro tivemos e temos propostas por dentro da ordem capitalista, propostas reformistas e até de pura adaptação ao sistema capitalista. E propostas que não negam a necessidade de conquistas no interior da ordem do capital, mas tem consciência de que a eliminação do racismo só poderá ocorrer com a destruição da própria sociedade capitalista, que por natureza depende da desigualdade e da racialização das hierarquias entre os seres humanos.

Dentro desse debate, atualmente, encontramos os defensores do “empoderamento” negro. Grosso modo, trata-se de uma postura que pretende individualmente ou para pequenos grupos – porque em verdade para a massa da população negra na sociedade capitalista é impossível – a ascensão social dos negros e negras, no sentido de formarem uma classe média negra ou uma burguesia negra. Em vista disso, é necessário que os negros e negras – não importando sua posição política, visão de mundo e projeto de sociedade – galguem espaços na estrutura de poder, no aparelho de Estado, nas empresas e nas diversas esferas de comando político e econômico. Dessa forma, acredita-se que os negros e negras nesses espaços de poder podem contribuir no combate ao racismo e na formação de uma sociedade brasileira mais humana. Nesse aspecto, o fato de ter a pele escura é quase como um crachá de boa índole, de justiça social e luta contra o racismo. Há uma essencialização da raça, tão débil quanto a que a branquitude racista construiu.

Mas esse debate, de novo não tem nada. As propostas de integração da população negra na sociedade de classes são discutidas, por exemplo, desde a Frente Negra Brasileira e, em 1988, Clóvis Moura já criticava o que ele chamava de classe média negra por esta, inclusive, rejeitar a grande massa negra da população brasileira. Dizia ele: “essa grande massa negra – […] – sistematicamente barrada, através de inúmeros mecanismos e subterfúgios estratégicos, colocada como o rescaldo de uma sociedade que já tem grandes franjas marginalizadas, é rejeitada e estigmatizada, inclusive, por alguns grupos da classe média negra que não entram em contato com ela[1].

E dizia mais, que esse tipo de postura – que era política e também intelectual – poderia ser considerada como sociologicamente branca, não no sentido da cor, mas do projeto político de dominação e relações. Esse tipo de raciocínio e defesa de parte da “classe média negra” – sociologicamente branca – fazia com que defendessem a presença de negros e negras nos quadros de direção das multinacionais, do Estado, da Justiça, dito de outra forma: nos aparatos institucionais de poder e exploração.

Não é difícil perceber que tais posturas e defesas – apesar de criticarem o racismo das instituições republicanas – não pretendem acabar com elas, mas tão somente trocar os que dirigem. Ao mesmo, tempo não é difícil perceber que tais posturas e defesas não questionam o fato das empresas multinacionais explorarem e oprimirem países africanos inteiros, terem contribuído para o holocausto negro e a massa da população negra ser explorada cotidianamente por elas, mas apenas se interessam que tenham negros nos postos de comando dessas empresas.

Não é difícil também perceber que tal postura e ação pode ser pensada para os postos de comando na Justiça, no Parlamento, no Estado de forma geral, como se a simples presença de “negros empoderados” pudesse significar uma mudança estrutural dessas instituições e aparatos. Como tenho dito, esse debate não é novo e nem só restrito ao Brasil. Na África do Sul, com seus milionários negros explorando e oprimindo milhões de trabalhadores negros o debate é o mesmo; e nos Estados Unidos como bem já destacou Cornel West, houve a formação de uma elite negra que não questionou as estruturas de dominação e exploração capitalista, mas pelo contrário, se adaptaram a essas estruturas e se afastaram da massa negra trabalhadora vivendo nos guetos norte-americanos atacados pelas políticas neoliberais do empreendedorismo, do individualismo e do empoderamento individual, tudo mascarado pelo manto da auto-afirmação empresarial, mas que em realidade, transforma trabalhadores formais em trabalhadores precarizados e sem direitos sociais.

Desta forma, como tenho dito também: está cheio de “preto empoderado” juiz, promotor, delegado de polícia, prefeito, governador, dirigente de multinacional matando e explorando uma massa negra não empoderada.

Não por acaso, esse debate volta à tona com a nomeação e exoneração do Professor Carlos Alberto Decotelli. Como primeiro ministro negro do governo Bolsonaro, não faltaram aqueles – no interior de setores do movimento negro – que se calaram diante da nomeação de um negro a um governo de extrema-direita ou mesmo aqueles que em nome da cor, defendessem que menos mal era um negro que estava no poder e poderia trazer o diálogo. O portal Geledés[2] logo reproduziu uma matéria no qual o futuro ministro da Educação de um governo racista dizia ser do diálogo e do apaziguamento.

Não é preciso ser muito inteligente para saber que tipo de “diálogo” e “paz” governos autoritários, de extrema-direita e racistas têm para o povo negro. As covas e as celas dos presídios são os exemplos concretos da paz branca da extrema-direita. Mas para alguns, o simples fato de ser negro já trazia esperança de diálogo e paz desconsiderando completamente a estrutura do Estado, da natureza do governo e de seus projetos políticos para a população negra. Projeto político que Decotelli fez campanha, defende e queria implementar.

De qualquer forma, Decotelli foi forçado a renunciar e logo reapareceu o debate supramencionado, dos negros em espaços de poder e de como somos atacados quando estamos lá. Já aparecem defensores de toda sorte do defensor de um governo racista. Em outras palavras: está sendo vítima de racismo um defensor de um governo racista. Eis que, de repente, o próprio Decotelli diz ser vítima de racismo, a partir de uma campanha de difamação contra seu currículo.[3]

Estranho? Contraditório? O que os marxistas e o movimento negro revolucionário têm a dizer sobre isso?

A primeira constatação é que é no mínimo constrangedor o próprio Decotelli fazer essa afirmação, por dentro de um governo que diz que o problema de raça não existe, que somos “todos povo brasileiro” e que é “mimimi” o problema racial, o genocídio indígena, o feminicídio, o genocídio da juventude negra, a LGBTfobia. Agora, esse próprio governo e seu defensor utilizam o argumento racial para se defenderem.

Certamente há racismo em muitos dos que o criticam. Não tenho dúvidas!  O racismo antinegro é uma marca do Brasil e estando “empoderado” ou não, ele sofrerá racismo. Mas, na análise marxista, não cabe apenas a interpretação das falas, da subjetividade, dos comportamentos. Interpretamos e analisamos também as relações de produção e poder, a materialidade, a condição e luta de classes e os projetos políticos. E, nesse sentido, quando verticalizamos a análise, quando saímos da aparência para a essência encontramos determinações que são muito mais importantes do que o aparente ou o subjetivo.

Nesse caso, há um fato concreto, que não tem a ver com a qualidade da dissertação ou da tese do professor Decotelli; não tem relação com os argumentos que ele defende, com a qualidade de sua escrita – como era o imbecil do Abraham Weintraub – ou com as imperfeições e problemas teóricos de qualquer produção científica; não tem a ver com o ataque que a produção científica negra sofre do establishment branco das universidades e centros de pesquisa. O fato concreto é que a tese não existe e a dissertação é plágio! Esse fato concreto, diz muito sobre um homem preto que adere a um governo de extrema-direita que quer eliminar – fisicamente e culturalmente – o próprio povo a quem ele diz pertencer.

O fato concreto e a fala de Decotelli comprovam mais uma vez que o problema desses negros não é falta de consciência racial, mas sua posição de classe. O lado no qual escolheu da luta de classes. Esse homem – consciente de sua negritude – escolheu o lado dos brancos ricos, dos assassinos de jovens negros, dos estupradores das mulheres negras, de quem genocida os indígenas e matam os LGBTs. Esse negro empoderado escolheu o lado da burguesia branca e de um governo de extrema-direita que retira direitos sociais e tem um projeto eugênico e de higienização da população negra. Ele é um homem negro que defende um governo que quer extinguir os próprios homens negros e o movimento negro.

O fato dele defender tudo isso, o exime de não sofrer racismo? Longe disso! Ele mesmo sabe que por ser negro e por estar na defesa dos ideais desse governo, ele também será vítima de racismo. O que o sistemático ataque que ele vem sofrendo e o que a Fundação Getúlio Vargas fez – de forma oportunista e racista – é uma prova do racismo brasileiro em todas as esferas da formação social de nosso país.

Entretanto, assim como defendemos que todos os corruptos e corruptores sejam presos, sendo eles de “esquerda” ou de direita; assim como defendemos a expropriação da propriedade privada dos meios de produção de todos os burgueses, sendo eles de qualquer cor de pele; defendemos também que Damares, Ricardo Salles, bem como os outros ministros de Bolsonaro e tantos criminosos que fazem parte desse governo tenham também sua vida pública aberta à opinião pública. Que a FGV, os seus especialistas e a mídia também investiguem as falsificações em tantos currículos e vidas profissionais e políticas dos outros integrantes desse governo racista. Não é possível querer que se trate Decotelli da mesma forma de Damares e Ricardo Salles, passando a mão na cabeça e encobrindo os crimes, mas sim que se tratem ambos da mesma forma que se tratou Decotelli.

Mas a sua exoneração, ao mesmo tempo, é prova de que os “capitães do mato” desse governo são os primeiros a serem descartados. Os (as) ministros brancos(os) são afundados em incompetência, corrupção e todo tipo de bandidagem, mas se mantém nos cargos porque também são brancos (os) e da classe dominante. Já Decotelli e Sérgio Camargo são descartáveis para Bolsonaro e sua milícia, porque em verdade eles só cabem nesse governo na medida em que podem servir como símbolos de integração racial, democracia racial e ataque por dentro dos setores oprimidos e explorados. Na hora que eles perdem essa função, não tem porque mantê-los no cargo como se faz com os ministros brancos da classe dominante. É uma prova concreta de que lado nós devemos estar!

Mas ele opta por se defender do racismo não ao lado dos movimentos negros, da juventude negra, dos trabalhadores negros, dos movimentos sociais. Ele opta por se defender dos racistas, do lado daqueles que mais reproduzem e sustentam o racismo. Nesse sentido, além da posição de classe, tem o fato de falsear a sua própria história para poder ser “aceito” nos meios militares e extremistas da direita e da burguesia.

Como já alertava Clóvis Moura: “[…] não se poderá resolver o problema do negro, a sua discriminação, o preconceito contra ele, finalmente o racismo brasileiro, sem atentarmos que esse racismo não é epifenomênico, mas tem causas econômicas, sociais, históricas e ideológicas que alimentam o seu dinamismo social. Um negro diretor de uma multinacional é sociologicamente branco. Terá de conservar a discriminação contra o negro na divisão de trabalho interno da empresa, terá que executar suas normas racistas, e, com isto, deixar de pensar como negro explorado e discriminado e reproduzir no seu comportamento empresarial aquilo que um executivo branco faria.” Dito de outra forma: Decotelli é um homem negro empoderado individualmente, defensor da extrema-direita e, portanto, sociologicamente branco no intelecto, na postura e na conduta política.

O que está por trás – em nossa análise – não é o fato de ter ou não ter doutorado, pois uma coisa é certa: mestrado ou doutorado não determina nada na competência, no caráter, na inteligência e na identidade de um ser humano. Está certo – como disse Wilson Honório – que quem geralmente nos arrebenta são os diplomados! Historicamente, trata-se de uma “baboseira intelectualóide” construída pela classe dominante para separar os que merecem deferimento e melhores condições sociais, e os que devem trabalhar manualmente e, portanto, serem vistos como inferiores.

Evidente que em muito já rompemos com essas determinações e estamos construindo mestres e doutores comprometidos com a classe trabalhadora e a emancipação da população negra. São esses pretos diplomados que queremos em nossas fileiras. Somos nós que defendemos esse projeto, passando pelas universidades ou não, tendo títulos ou não, que somos essenciais na luta contra o racismo. A nós e a todos os pretos e pretas que defendem esse projeto, eu dedico o poema de Solano Trindade:

Negros que escravizam
e vendem negros na África
não são meus irmãos

negros senhores na América
a serviço do capital
não são meus irmãos

negros opressores
em qualquer parte do mundo
não são meus irmãos

Só os negros oprimidos
escravizados
em luta por liberdade
são meus irmãos

Para estes tenho um poema
grande como o Nilo.

[1]   MOURA, Clóvis. Sociologia do Negro brasileiro. São Paulo: Ática, 1988. p.9

[2]  ‘Não tenho nem preparação para fazer discussão ideológica, minha função é técnica’, diz novo ministro da Educação. Conferir em: https://www.geledes.org.br/nao-tenho-nem-preparacao-para-fazer-discussao-ideologica-minha-funcao-e-tecnica-diz-novo-ministro-da-educacao/

[3] Decotelli: “Brancos trabalham com imperfeições em currículo sem incomodar”. Conferir em: https://educacao.uol.com.br/noticias/2020/07/01/decotelli-brancos-trabalham-com-imperfeicoes-em-curriculo-sem-incomodar.htm