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Não há quem não tenha ouvido falar de Marília Mendonça nos últimos dias. Aqui, quero falar dela como uma mulher que, tendo sua mesma idade, aprendeu a admirá-la e respeitá-la em um espaço não discutido pela grande mídia: o das lutas.

2015 foi um ano intenso. E também foi quando iniciei minha trajetória no PSTU. No Paraná, fizemos greves, ocupamos a reitoria da Universidade Federal, lutamos contra a privatização dos hospitais universitários e fizemos umas três caravanas para Brasília. E, lá do Sul, eu olhava para São Paulo, onde os estudantes secundaristas estavam ocupando escolas, em luta contra o governo Alckmin.

Quando iniciamos 2016, as ocupações haviam se alastrado pelo país, em especial pelo Rio de Janeiro. E lá fui eu pra capital carioca, onde pude ver que, assim como em São Paulo, a linha de frente era de mulheres, negros(as) e LGBTIs.

Feminejo, consciência e protagonismo das mulheres

Mas, o que isso tem a ver com Marília Mendonça? Foi nesse mesmo ano que explodiu o primeiro grande “hit” da cantora, “Infiel”. E foi nas ocupações, na periferia do Paraná, que eu conheci a música, ao lado de sucessos de outras cantoras sertanejas, como Naiara Azevedo, e Maiara e Maraísa. Um “fenômeno” que passou a ser chamado de Feminejo, em referência ao protagonismo que, pela primeira vez, as mulheres assumiam nos palcos e, também, nos temas e letras das músicas deste gênero há muito dominado por homens.

Não digo que o Feminejo surgiu como expressão das lutas dos oprimidos. Mas, mas “ouso” usar os mesmos critérios de Marx, Lênin e Trotsky, quando estes defendiam que a produção artístico-cultural reflete e dialoga, sempre de forma distorcida, com o que se passa na realidade. Se o gênero bombou é porque havia uma geração de mulheres jovens buscando formas para expressar “outra” consciência, fruto de suas luta, rebeldia e organização.

Não interessa se foi o Feminejo que deu voz a mulheres e meninas que estiveram em luta ou vice-versa. Foi um processo de mão-dupla. O fato é que, nos palcos e nas escolas (e, inclusive, no movimento), mulheres jovens exigiam protagonismo em espaços dominados por homens, onde não raramente estavam sujeitas ao assédio e à violência.

Solidariedade e protesto

No universo de Marília, cercado por rodeios e alimentado por shows onde a mulher é sexualizada e “coisificada”, não se pode negar que ela foi uma inspiração, compondo outro retrato sobre nós. Não cantou a “amante” a serviço dos homens, mas a mulher que ama, é amada ou é “infiel”, se não correspondida. Uma mulher que, enfim, é mais senhora de si própria, não inferior ou submissa.

Não é de se desprezar, por exemplo, que em sua primeira “live” durante a pandemia, acompanhada por milhões, Marília tenha aparecido de pijama, sem maquiagem. Algo “simples”, mas que conquistou o coração e a empatia de mulheres que se fortaleceram, também, através de músicas que, nos shows, eram entoadas num tom de protesto e solidariedade, algo particularmente forte em “Supera”: “(…) Te usa e joga fora / O que ‘cê ‘tá passando, eu já passei e eu sobrevivi (…) / De mulher pra mulher, supera”.

Além disso, ela também não se omitiu. Em 2018, por exemplo, falou abertamente contra Bolsonaro e usou o hashtag “#EleNao”. E, quando errou, procurou se corrigir de forma realmente exemplar. Em 2020, quando fez um comentário transfóbico numa live, assumiu que sua postura era injustificável e, por isso, abriu espaço, em outra live, para que Alice Felis, uma mulher trans que foi espancada quase até a morte, no Rio, contasse sua história.

Amiga, confidente, “companheira”

Diante de sua morte não faltaram elogios “exagerados” em relação ao seu papel na história da música nem posturas como a de um colunista da Folha de S. Paulo, Gustavo Alonso, que decidiu apresentá-la como uma “gordinha que brigava com a balança”; ou seja, destacando exatamente aquilo que Marília desafiou e lutou contra.

Mas, ser fã não significa não ter críticas. Acredito, por exemplo, que Marília, como reflexo de sua própria história, adotava uma perspectiva bastante individualizada. Mesmo que suas letras conseguissem pintar o machismo como “algo social”, que tem que ser desafiado, não ia muito além disso, deixando a “solução” quase que inevitavelmente nas mãos das próprias mulheres e diante de suas relações afetivas e pessoais, e, não, contra todo um sistema que o alimenta e dele se beneficia dele. Isso, no entanto, não me impede de admirá-la.

Acredito que, hoje, há muitas, assim como eu, que acreditam que a melhor forma de a homenagear será continuando na luta pra que surjam novas gerações de mulheres, cada vez mais fortalecidas e donas de si. Mulheres sertanejas, rappers, roqueiras, sambistas ou o que quer que elas queiram ser. Inclusive militantes, dispostas a lutar por construir gerações que se autodeterminem e lutem pela libertação não só de mulheres, mas de todos os explorados e oprimidos.

E até mesmo pelo fato de que o início da minha trajetória e de outras tantas a teve como trilha, só posso dizer uma coisa: “Obrigada por ter sido parte de tudo isso, Marília!”