Governo do PT quer entregar terras quilombolas às empreiteiras

Governador Rui Costa (PT) quer reduzir em 80% as terras do Quilombo Quingoma

Vander Bispo e Gabriel Almeida*, de Lauro de Freitas (BA)

Nos últimos anos, a população quilombola de Quingoma vem enfrentando duramente o governo de Rui Costa (PT). O primeiro ataque do governador foi a invasão das terras quilombolas para a construção da Via Metropolitana. A estrada tem 11,2 quilômetros de extensão, ligando a Rodovia CIA-Aeroporto (BA-526) e a Estrada do Coco (BA-099) nos municípios de Lauro de Freitas e Camaçari, região metropolitana de Salvador. A obra já nasceu privatizada e é executada pela Bahia Norte, empresa que controla a maioria das estradas com pedágio do litoral norte da Bahia.

“A Bahia Norte invadiu a área do quilombo em 2013. Derrubou nossa mata, destruiu árvores centenárias e sagradas para nossa ancestralidade. Chegaram com pessoas armadas, cortaram arames das cercas. Houve um grande conflito. Nós resistimos”, contou Ana Lúcia, popularmente chamada de Dona Ana, coordenadora da Associação do Quilombo Quingoma.

Os ataques ao Quingoma, quilombo, formado no século 16 pelos primeiros escravos a chegar ao Recôncavo Baiano, seguiram no mesmo ritmo da construção da Via Metropolitana. Com a abertura da estrada, os olhos das construtoras e das empreiteiras voltaram-se às terras quilombolas. Rui Costa, que foi financiado por esse setor e governa junto com eles, não faz corpo mole para atender aos interesses de seus amigos. O governo apresentou um documento em que reduz em 80% as terras do quilombo.

“Todas as vezes que o governo apareceu para se reunir com a comunidade quilombola foi para defender a construção da estrada. Agora, na última reunião com o Ministério Público, teve a cara de pau de apresentar um documento em que assume reconhecer apenas uma pequena parte do nosso atual território; 80% das nossas terras estão fora do mapa do governo. O objetivo é entregá-las às construtoras, que querem construir condomínios de luxo à margem da nova via”, disse Dona Ana.

“Eles querem eliminar, apagar a história do povo de Quingoma. Se não fosse nossa resistência, eles já tinham nos tirado daqui. Esse é o projeto deles. Querem nos expulsar para servir às empreiteiras, colocar nossas terras para especulação imobiliária. Entregar para Odebrecht e OAS e deixar a gente sem território”, completou.

*Ativistas do Movimento Aquilombar

Povo Quingoma resiste

O povo de Quingoma resiste e luta apesar do silêncio da maioria das entidades do movimento negro, todas ganhas pelo governo estadual. No dia 29 de agosto, os quilombolas fecharam a Estrada do Coco e seguiram em caminhada até a Câmara de Vereadores de Lauro de Freitas. No trajeto, os manifestantes gritavam “Moema, pode falar, de que lado você está?”, questionando a prefeita Moema Gramacho (PT).

Os quilombolas ocuparam a Câmara de Vereadores. Alguns parlamentares correram do plenário. A ocupação forçou a prefeita a atender uma comissão, mas a petista apenas enrolou e não se posicionou. “A prefeita olha na nossa cara e diz que não pode fazer omelete sem quebrar os ovos. E quem vai comer essa omelete? Ninguém respeita a nossa comunidade. Nós não somos baderneiros, nós não somos vândalos. Somos quilombolas, nascidos e criados em Quingoma. Não aguentamos mais, estamos cansados. Todo mundo fecha os olhos para a nossa causa. Mas nós não somos bestas”, ressaltou Rejane Rodrigues, liderança quilombola, em seu discurso na Câmara.

O dia 9 de setembro também foi marcado por manifestação. Os quilombolas realizaram uma caminhada pelas estradas do quilombo. A atividade é parte de um calendário de mobilização que tem o objetivo de organizar a luta por baixo. O Movimento Aquilombar está junto com o povo de Quingoma. É importante destacar que o PSTU também abraçou essa luta.

Vai ser dado início a uma campanha nacional de apoio e solidariedade ao Quilombo Quingoma. Em assembleia, os trabalhadores do Judiciário federal da Bahia aprovaram uma moção de apoio e solidariedade. A proposta é encaminhar essa moção para que entidades de todo o Brasil, por meio do congresso da CSP-Conlutas, possam aderir.

Enquanto isso, segue a organização por baixo para derrotar os de cima. Rui Costa e o PT são inimigos do povo quilombola. Governam da mesma forma que a velha oligarquia, a favor dos ricos, massacrando o povo negro e pobre da Bahia. Lutar, porém, é um verbo que os negros e os quilombolas conhecem muito bem. Quingoma resiste!