A primeira rodada do brasileirão mostrou a enorme irresponsabilidade da CBF e dos grandes clubes brasileiros no retorno do futebol num momento em que o país vive o auge da pandemia. A partida entre o Goiás e o São Paulo foi suspensa em cima da hora diante do anúncio de que nove jogadores do clube goiano deram positivo para o coronavírus.

O laboratório credenciado pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e responsável pelos testes divulgou o resultado apenas na manhã do jogo, um dia depois de o Brasil registrar mais de 100 mil mortes em decorrência da pandemia.

O mais incrível é que, mesmo com o resultado dos testes, o jogo não havia sido cancelado. O Goiás buscou gente para cobrir quase todo o time titular, incluindo um goleiro reserva que estava num almoço de Dia dos Pais que sequer foi testado. A partida só foi suspensa por determinação do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) com os jogadores já em campo.

Já na série B, o CSA de Alagoas teve nada menos que 20 de seus 31 jogadores com testes positivos para Covid-19. Fora seis funcionários, mais aqueles que convivem com eles que também podem estar contaminados. A CBF adiou o segundo jogo do clube alagoano, mas contra vontade. Pressionou-o para jogar contra o Cuiabá. Já o Imperatriz, do Maranhão, time que joga a terceira divisão, teve 12 de seus 19 jogadores contaminados.

Esses casos evidenciam o total descomprometimento dos cartolas com a saúde dos jogadores, da equipe técnica e todos os seus familiares. Segundo o UOL, as três séries principais somam pelo menos 52 jogadores infectados pelo novo coronavírus. Mas até agora só três partidas foram suspensas.

O protocolo exigido pela CBF é para inglês ver, com a realização de testes a cada três dias e antes das partidas. O problema é que, entre o teste e o resultado, um jogador ou integrante da comissão técnica assintomático pode transmitir a outros. Além disso, a CBF reduziu o tempo mínimo entre as partidas a fim de cumprir o calendário, de 66h para 48h, sobrecarregando os atletas e os expondo a riscos maiores de lesões.

É um absurdo o retorno das partidas de futebol em meio à pandemia. O comentarista da TV Globo Walter Casagrande Jr., o Casão, disse que se sente constrangido em comentar os jogos em meio à pandemia do novo coronavírus. O ex-craque ainda pede a paralisação das partidas.

Em menos de cinco dias do início do Campeonato Brasileiro, já tem um número enorme de jogadores das Séries A, B e C contaminados pela Covid-19. Isso tem que parar. Isso não devia nem ter começado. Era muito óbvio que isso ia acontecer“, disse Casão em vídeo no Instagram.

Ao celebrar a volta dos jogos no Brasil, com o reinício do Campeonato Carioca em junho, o presidente do Flamengo, Rodolfo Landim, defendeu que os protocolos adotados no esporte seriam “um exemplo para outras atividades”. A frase foi dita depois de Landim ter se encontrado com Bolsonaro para pedir a volta dos jogos. Aliás, Bolsonaro foi um grande defensor da volta do futebol em todo esse período.

A realidade desmentiu o cartola e Bolsonaro. Em menos de dois meses, o futebol tem se mostrado incapaz de consolidar um procedimento que seja imune ao ritmo desenfreado de contágio do vírus. Mais um gol contra também do governo genocida de Bolsonaro com a cumplicidade dos governadores.

Isso mostra como a vida nada vale aos dirigentes da CBF e diretorias dos grandes clubes, que expõe a vida e a saúde de seus atletas em troca de dinheiro.