POI – Rússia

Escrevemos este artigo no calor dos primeiros acontecimentos na Belarus[1] ao redor das “eleições presidenciais”. Sem a pretensão de uma análise detalhada do que está ocorrendo neste momento no país vizinho, queremos deixar algumas primeiras impressões e um esboço de política para uma situação que no momento é imprevisível.

A Belarus é uma semi-ditadura. Não há espaço para reais partidos de oposição, sindicatos livres ou imprensa independente. Instituições como parlamento ou justiça são de fachada. Quem manda no país há 26 anos é Lukashenko e a KGB (sim, na Belarus a KGB segue existindo, com o mesmo nome, até hoje). Os três candidatos que Lukashenko acreditava trazer riscos à sua reeleição foram impedidos de participar delas, um foi preso e dois tiveram que fugir do país.

As “eleições” se deram sob total controle da máquina de Lukashenko, sem possibilidade de fiscalização independente, sem observadores internacionais, como aliás, ocorre há duas décadas. Mesmo com toda a repressão, os comícios da oposição reuniam dezenas de milhares de participantes por diferentes cidades. Estava claro que algo se passava. Portanto, os manifestantes contra Lukashenko têm todo o direito de desconfiar dos resultados oficiais do pleito, que deram 80% dos votos a Lukashenko. Que 80% são esses, se o país está sublevado contra Lukashenko? Lukashenko é o responsável pela total falta de legitimidade do processo eleitoral.

A situação na Belarus se insere num marco maior de instabilidade e crise. A Belarus não é uma ilha. Sofre os efeitos da crise mundial e da epidemia de Covid-19. Há demissões, redução de salários, falta de recursos para combater a epidemia, que foi negada por Lukashenko. Vodca e sauna[2] não resolvem isso. Ao mesmo tempo, há uma justa reivindicação democrática do povo, cansado do monopólio de poder de Lukashenko e da KGB há 26 anos.

Estes dois aspectos da luta, democrático e social, se cruzam hoje na maior crise política pela que Lukashenko já passou.

A luta por democracia na Belarus representa o início de uma luta mais profunda, por sua independência nacional. Lukashenko não pôde garantir uma verdadeira independência do país, que se manteve assim quase como um apêndice da Rússia. As companhias russas (em especial de gás e petróleo) se comportam como donas da Belarus, a cada ano elevando os preços dos combustíveis. O maior ponto de apoio de Lukashenko é a KGB, com toda a sua tradição de repressão a qualquer dissidência e estreitamente ligada a FSB[3] russa desde os tempos soviéticos. E o regime de Putin, sem qualquer constrangimento, compra a lealdade de Lukashenko graças aos superlucros do petróleo e do gás, exigindo deste mais e mais obediência.

As manifestações começaram no mesmo dia das eleições, assim que saíram os primeiros resultados preliminares oficiais dando 80% dos votos a Lukashenko. Foram manifestações absolutamente pacíficas. Mas Lukashenko e a KGB não podiam suportar o povo nas ruas expressando sua vontade. Ao longo de três dias sua polícia e Forças Armadas, em especial as tropas de choque OMON, atuaram com grande violência nas ruas das cidades bielorrussas. 7 mil presos, centenas de feridos e dois mortos em 4 dias de luta. Lukashenko dizia pela TV que os manifestantes eram ovelhas manipuladas, gado, um povinho, não mais que 20 pessoas… A sociedade bielorrussa, adormecidas por três décadas de “ordem e tranquilidade”, não podia mais suportar.

No 3º dia as mulheres já estavam na linha de frente, em defesa dos milhares de presos, contra a violência contra seus semelhantes. Um dia depois, entrou com toda a sua força a classe operária da Belarus. Simples operários, homens e mulheres, interromperam o trabalho das maiores fábricas do país, obrigando os burocratas locais a escuta-los. A lista é grande, atingindo todas as grandes cidades do país:

Operários da MTZ em manifestação em Minsk. A faixa diz: “Não somos ovelhas, nem gado, nem um povinho. Somos operários da MTZ, e não somos 20, mas 16.000!”

Na capital Minsk, MAZ (automóveis), MTZ (tratores), MEZ (equipamentos elétricos), MZKT (tratores e caminhões), MZSh (autopeças para colheitadeiras), MAPID (construção civil), Milavitza (têxtil, lingerie), BelOMO (equipamentos óticos), MMZ (motores). Em Grodno, Grodno Azot (fertilizantes), Grodnenskiy Myasokombinat (processamento de proteína animal), Budoulya (revestimentos de pedra e concreto); em Soligorsk, Belaruskaliy (fertilizantes). Em Navapolatsk, Naftan (refinaria de petróleo), Polimir (indústria química); em Jlobin, BMZ (metalurgia); em Bobruysk, Belshina (pneus); em Petrikaw, Petrikovski GOK (equipamentos para processamento de minérios); em Jodino, KZTSh (metalurgia, autopeças para veículos pesados); em Brest, Gefest (pisos cerâmicos); em Baranovich, Atlant (eletrodomésticos), Fábrica 558 (manutenção de aviões); em Jabinka, ZhSZ (usina de açúcar); Gomel, Gomselmash (maquinaria agrícola)… A lista já ultrapassa 50 empresas em greve ou estado de greve.

Assembleia Grodno Azot – Grodno

Os metroviários da capital Minsk aprovaram estado de greve, assim como uma das linhas de trens. Médicos, mulheres, operários, eis a verdadeira força da revolução bielorrussa. Esses dissiparam como fumaça o ameaçador poder de Lukashenko, obrigado no 5º dia de protestos, dois dias depois do começo das greves, a dizer que “escutou os operários” e passou a libertar os milhares de presos, recebidos com festa na saída das prisões.

Manifestantes sendo libertados da prisão, aplaudidos e abraçados pelos demais manifestantes

Agora que a repressão não foi suficiente, passa às mentiras, acusando os milhares de manifestantes e operários em greve de serem marionetes financiados desde o exterior “pelos inimigos”, sem dar uma única evidência disso. É a mentira preferida de todo ditador ameaçado por um levante de seu próprio povo.

A entrada em cena da classe operária no processo, com seus métodos próprios de luta e organização, são um exemplo para todo o mundo. Uma grande lição da revolução bielorrussa, em especial para os que achavam que a classe operária já não teria mais a centralidade nos processos de luta social. Pois é a união dos operários, com seus métodos de luta, e dos oprimidos em geral, que pode pôr fim ao regime de Lukashenko. Essas massas, interrompendo a produção, saindo às ruas, mesmo quase sem organização, é que está mudando o país. E não a assim chamada oposição “liberal”.

A direção liberal tentou manter o protesto dentro dos estreitos limites da legislação de Lukashenko. A candidata da oposição, Svetlana Tikhanosvskaya[4], fez toda a sua campanha eleitoral ao redor de um único ponto, eleições livres, recusando-se a incorporar qualquer bandeira social que fosse. Mais que isso, limitava a luta por eleições livres ao processo eleitoral, repetindo em todos os comícios que não queria uma revolução no país. Após o anúncio dos resultados oficiais, Tikhanosvskaya se apressou em agradecer à comissão eleitoral que deu a vitória a Lukashenko por “haver contado corretamente os votos”. Na primeira noite, véspera da repressão, disse que os manifestantes “já haviam sido vitoriosos” por “vencerem o medo” e chamou todos a voltarem às suas casas.

Quando milhares saíram às ruas após o anúncio da “vitória” de Lukashenko para protestar contra a fraude eleitoral, ela chamou todos a serem pacíficos e a não provocarem uma “Maidan[5]” na Belarus. Na noite do mesmo dia, quando milhares de manifestantes enfrentavam heroicamente a dura repressão policial nas ruas, ela seguia chamando os manifestantes a “serem pacíficos”. E segue até agora sem convocar a greve geral na Belarus, único caminho para derrubar Lukashenko, e que está se construindo por baixo.

Os protestos mostram que para garantir a vitória, o povo deve superar os limites de seus próprios dirigentes. Com meias-palavras e meias-medidas, não será possível derrotar Lukashenko. Assim foi na Ucrânia, aliás, durante a Maidan. Os liberais de todas as cores haviam fechado um acordo com Yanukovich, EUA, União Europeia e Putin para manter Yanukovich no poder por mais alguns meses até a realização de novas eleições, e as massas na Maidan, sem querer esperar, passaram por cima de seus dirigentes (o símbolo disso foram as vaias a Klitschko[6] na praça por sua covardia). E hoje uma assim chamada oposição quer evitar a todo custo uma Maidan na Belarus. Sonham com uma transição “pacífica e gradual” a uma democracia-burguesa, sem revolução, para que Lukashenko saia “por bem”, da forma mais tranquila possível. A oposição, pelo caráter burguês de sua política, teme muito uma revolução, teme que os operários e simples trabalhadores, juventude e oprimidos, possam com sua força e determinação, tomar a direção de suas mãos.

Toda a propaganda oficial na Belarus e na Rússia tenta mostrar a Maidan como algo negativo, que deva ser evitado. Inclusive a dita “oposição”. Nada mais falso. A Maidan foi uma legítima revolução popular, um levante contra o regime repressor, reacionário, pró-Putin e corrupto de Yanukovich. O levante popular na Maidan garantiu as liberdades democráticas na Ucrânia, ameaçadas pelo candidato a ditador Yanukovich. Todos os problemas subsequentes com que se enfrenta a Ucrânia são resultado não da Maidan, mas da guerra de Putin contra a Maidan: com a anexação da Crimeia e os mercenários russos no Dombass[7]. O levante da Maidan só foi vitorioso por sair do controle da oposição liberal, que tentava a todo custo mantê-la dentro dos estreitos limites da legalidade de Yanukovich. Foram as massas nas ruas que rejeitaram o acordo entre os liberais, UE, EUA e Putin de manter Yanukovich no poder até novas eleições e o derrubaram.

Se os operários em unidade com os oprimidos na Belarus mostraram sua força, mostraram quem de fato pode derrubar Lukashenko e todo o seu regime, então é claro como o dia que estas mesmas forças, operários e o oprimido povo da Belarus devem também dirigir o país, e não um novo grupo de políticos “de oposição” que fala bonito, mas só mentiras. Para tal, que há que se construir uma organização independente da classe operária, para que todos os trabalhadores bielorrussos tenham sua força política própria, e não sejam obrigados a optar indefinidamente pelos capitalistas de Lukashenko ou pelos capitalistas liberais. É necessária uma alternativa operária de verdade, que coloque a economia do país a serviço dos interesses da maioria. Garantindo emprego e salário digno a todos, em especial durante a epidemia. Que interrompa as privatizações. Que interrompa o pagamento da dívida externa ao FMI, UE e Rússia, que juntos saqueiam o país.

Isso permitirá garantir mais verbas para a saúde pública, para a educação, para as aposentadorias, para moradia e serviços públicos. Só a classe operária em aliança com os oprimidos pode colocar o potencial industrial e agrícola do país a serviço de elevar o nível de vida das amplas massas e de desenvolver o país, e não a serviço do lucro dos oligarcas bielorrussos e estrangeiros, que defendem Lukashenko, mas que tampouco teriam problemas em apoiar a oposição liberal em caso de necessidade. Exatamente esta política da classe operária e do oprimido povo bielorrusso, permitirá tornar a Belarus verdadeiramente independente.

E para impor este programa operário, é necessário um partido operário à altura. Esta é a maior debilidade do processo em curso na Belarus até aqui. É a mais urgente tarefa para todo ativista consciente da Belarus.

Os trabalhadores da Rússia (assim como qualquer democrata honesto) têm a obrigação de apoiar com todas as suas forças o processo em curso na Belarus contra Lukashenko. Posicionar-se contra as ações agressivas da Rússia em relação ao país, contra a permanente pressão de Putin, contra a chantagem do gás, contra a tentativa de absorver o país, contra a sua utilização como território de passagem para seus mercenários. A derrubada do regime repressor e corrupto de Lukashenko seria um grande golpe contra o regime repressor e corrupto de Putin, assim como foi a derrubada do regime repressor e corrupto de Yanukovich.

Se a derrubada deste último foi a maior derrota política de Putin até hoje, a de seu homólogo bielorrusso poderia ter um efeito ainda maior. Mostraria a todos como o regime de Putin, ao invés de garantir a “unidade do espaço pós-soviético”, leva os povos vizinhos a se afastarem cada vez mais. Putin é o espantalho que, em nome dos interesses de meia dúzia de oligarcas, semeia a divisão e o ódio entre os povos. O regime de Putin tem em suas mãos o sangue das revoluções síria, ucraniana, egípcia, líbia, chechena… E existe o risco de que a Belarus seja a próxima da lista. Derrubar este regime repressor e odioso de Putin é uma tarefa do conjunto dos povos da região. E a derrubada de Lukashenko é um passo fundamental neste caminho.

  • Fora Lukashenko!
  • Greve geral até a derrubada do regime Lukashenko/KGB e OMON!
  • Dissolução da OMON, abaixo a repressão!
  • Putin, fique longe da Belarus!
  • Zhiv´e Belarus! (Viva Belarus)

[1] Utilizamos o nome Belarus, reivindicado pelo povo do país, ao invés do nome Bielorrússia, nome usado na Rússia com o óbvio objetivo de impedir a autodeterminação do país

[2] Lukashenko ocupa, junto a Bolsonaro, Ortega e Trump, o grupo de presidentes que negou a existência da epidemia de coronavírus. Chamou o povo a seguir trabalhando sem máscaras. Foi o único país europeu a não interromper o seu campeonato de futebol. Lukashenko dizia “Que vírus? Alguém está vendo o vírus? Eu não vejo”, o que trouxe a lembrança do desastre nuclear de Tchernobil, ocorrido próximo à fronteira do país em 1986, quando os burocratas do Partido Comunista também diziam: “Não vejo nenhuma radiação. Alguém vê alguma radiação? Eu não vejo nada”. Lukashenko propôs vodca e sauna contra o coronavírus

[3] Atual nome da KGB (polícia política) russa

[4] O candidato era o marido de Svetlana, preso e impedido de se candidatar. Ela saiu então candidata, propondo caso vencesse as eleições, libertar todos os presos políticos e convocar eleições livres no país imediatamente. Se negou a apresentar qualquer programa. Dizia que queria libertar seu marido, eleições livres, e então “voltar a cozinhar para sua família”…

[5] Praça Maidan (Praça da Independência) no centro de Kiev, palco das manifestações que derrubaram Yanukovich em 2014. O termo Maidan se tornou sinônimo de Revolução Ucraniana, sendo muito estigmatizado pelos meios de comunicação e governos da Rússia e Belarus

[6] Ex-boxeador, líder da oposição de então, depois prefeito de Kiev

[7] Região do leste da Ucrânia, rico em carvão e indústria pesada