Por Welliton Brasil, de Macapá (AP)

Um apagão deixou a população do Amapá sem energia elétrica e água nas últimas semanas por conta de um incêndio na subestação no dia 3 de novembro.

Além da falta de energia, os amapaenses sofrem com o descaso e o abandono do governo. Até o momento, o presidente Jair Bolsonaro não colocou os pés no Estado; não foi saber de perto o que está ocorrendo, agindo com total desprezo com a população.

A solidariedade está sendo organizada por entidades sindicais que se preocupam com a situação na qual o povo pobre se encontra, pois são esses os que mais têm sofrido com o apagão, já que a burguesia tem gerador de energia em casa e água extraída de poços artesianos.

A CSP-Conlutas, junto com outras entidades sindicais, está organizando uma ampla campanha de arrecadação solidária para as famílias do Amapá. A iniciativa, até o momento, além da CSP-Conlutas, inclui o Andes-SN, a Adufpa, o Sindufap e o Sinstaufap. A iniciativa seguirá aberta para adesão de entidades interessadas em reforçar o apoio à população amapaense.

Combater a violência policial

Devido à situação de calamidade, abandono e falta de perspectiva diante do caos, a população do Amapá, principalmente dos bairros periféricos, tem realizado manifestações. Os protestos precisam ser fortalecidos, direcionados ao enfrentamento contra os governos e à empresa privada, que são os responsáveis por essa crise. Em vez de ouvir e atender as reivindicações da população, a resposta dos governos tem sido a repressão com uso de um forte aparato militar.

O professor Fausto foi atingido por duas balas, na noite do dia 5, quando participava de um protesto. “O apagão teve início logo após que nossa bebê nasceu e tínhamos acabado de voltar para casa. Ficar sem água e energia já é uma situação difícil para pessoas adultas, imaginem com um bebê em casa. Ficamos sem ter condições básicas de conforto à criança. Isso é que dói mais”, desabafou ele ao Opinião Socialista.

Fausto e sua companheira receberam apoio de uma amiga que tem poço em casa. “Estávamos na casa da nossa amiga, não tínhamos a noção de tempo, os celulares descarregados, não sei a hora exata da noite. Mas Ouvimos na rua alguém gritando, dizendo que estava tendo protesto. Fomos pra lá, engrossar o caldo e gritar contra tudo isso que está acontecendo”, contou.

“A polícia chegou rapidamente, sem conversa, e imediatamente desceu atirando para todos os lados. Eu fui atingido duas vezes: uma na mão, outra no cotovelo; ambos no braço direito”, relatou ainda. “Em meio ao tiroteio, ouvi um grito: ‘acertaram meu filho, acertaram meu filho’. Era um grito estridente, de dor e revolta. Eu ouvia as balas passando perto de mim. De repente senti que também tinha sido atingido. A manifestação foi se dispersando, não tínhamos como revidar tiros com palavras. Ferido, voltamos para casa da nossa amiga, e mais carros da polícia estavam chegando. A situação era tensa.”

As manifestações seguem acontecendo, pois a população continua sofrendo com os apagões, sem receber a ajuda necessária dos responsáveis pelo caos no qual foi inserida. O PSTU apoia e é parte da luta. O partido tem um programa para defender os trabalhadores e o povo pobre do Amapá frente à crise.

ESTATIZAÇÃO SEM INDENIZAÇÃO JÁ!

Caos é resultado da privatização

A crise humanitária que atinge o Amapá é resultado direto da privatização do sistema elétrico. A operadora da linha de transmissão que atende o estado é a espanhola Isolux Corsán, responsável por ligar a região à Usina Hidrelétrica de Tucuruí desde 2015. A empresa mudou de nome para Gemini Energy num processo de recuperaçao judicial.

A subestação atingida por um incêndio no dia 3 de novembro é operada pela Linhas de Macapá Transmissora de Energia (LTME) e devia ter três transformadores prontos para levar energia ao Estado. A Gemini Energy detém 85,04% de participação na linha; 14,96% são da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), autarquia do governo federal vinculada ao Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR).

O incêndio atingiu um transformador da subestação, levando a uma queda de energia. O apagão atingiu 13 dos 16 municípios do estado, afetando 765 mil pessoas. O estado do Amapá tem cerca de 860 mil habitantes segundo projeção do IBGE para 2020. De acordo com o Ministério de Minas e Energia, 85% dessa população foi afetada, ou seja, cerca de 730 mil pessoas.

A subestação de energia do Amapá tem três transformadores. Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, um deles foi atingido diretamente pelo fogo. Outro acabou danificado, e o terceiro nem estava em funcionamento, pois passava por manutenção.

A empresa responsável pela subestação levou quase um ano para enviar para conserto um transformador que estava inoperante. Com problemas desde dezembro, o contrato de reparo do equipamento foi assinado em setembro, mas o transporte do transformador até Santa Catarina, onde será feita a manutenção, começou apenas no último domingo, 15 de novembro.

A demora do retorno da energia é porque a empresa não consegue trocar o transformador que pegou fogo, pois não tem um gerador substituto nem peças de reposição. O sucateamento, o caos e o descaso na manutenção da subestação é resultado da privatização das empresas de energia elétrica estaduais. A Gemini Energy está preocupada apenas com o lucro. O apagão é um alerta sobre o que acontece quando serviços estratégicos e fundamentais à população são privatizados.

É preciso prestar toda a solidariedade à população do estado. As organizações dos trabalhadores devem estar solidárias ao povo do Amapá, denunciar o caso e exigir que o Governo Federal, o Congresso Nacional, o Supremo Tribunal Federal (STF) e todos os estados resolvam imediatamente a situação, usando os recursos que forem necessários, tirando dos lucros das empresas privadas que formam esses consórcios e dos banqueiros acionistas.

Já a empresa Gemini Energy deve ser punida de forma severa. Tem de ser obrigada a devolver cada centavo do prejuízo que causou, estatizada e colocada sob o controle dos trabalhadores.