O escândalo envolvendo o recém-ex-presidente da Caixa Econômica Federal, Pedro Guimarães, mostrou que os que estão à frente desse governo expressam muito bem o seu caráter: machista, assediador, abusador, hipócrita e corrupto.

Pedro Guimarães caiu nesta quarta-feira, 29, após vir à tona uma série de denúncias de assédio sexual contra funcionárias do banco. Segundo reportagem do Portal Metrópoles, ao menos cinco mulheres do banco acusam o então presidente da Caixa de assédio sexual. Segundo apuração do Portal, as denúncias foram realizadas no final de 2021, e envolvem funcionárias diretamente ligadas ao gabinete de Guimarães.

O modus operandi do ex-presidente da CEF incluía o de escolher mulheres que considerava atraentes para acompanhá-lo em viagens, situação na qual se aproveitava para assediá-las e praticar toda sorte de abuso. Entre convites para saunas ou piscinas, Guimarães também mantinha, segundo as denúncias, o hábito de “convidar” mulheres ao seu quarto tarde da noite, sob o pretexto de levar medicações ou documentos ou até carregador de celular. Numa dessas situações, ele teria aberto a porta com um “short, parecia que estava sem cueca”.

Outra funcionária denuncia outra situação constrangedora logo após uma reunião de trabalho. “Ele passou a mão em mim. Foi um absurdo. Ele apertou minha bunda. Literalmente isso”, relatou ao site. Numa viagem a Porto Seguro (BA), o braço direito de Bolsonaro resolveu simplesmente fazer um “carnaval fora de época” com intenções bastante óbvias. “Ele disse: ‘A gente vai fazer um carnaval fora de época (…) Ninguém vai ser de ninguém. E vai ser com todo mundo nu’”, denunciou outra funcionária. “Ele me falou: ‘Vou te rasgar. Vai sangrar’”, afirma.

O dia-a-dia de assédios e abusos instaurou um verdadeiro clima de pânico entre as funcionárias, principalmente as mais próximas do gabinete de Guimarães. O caso é investigado pela Procuradoria da República do Distrito Federal, em sigilo, mas é mais do que evidente que o governo sabia dos hábitos e costumes desse abusador em série.

Homem forte de Bolsonaro

Palavras do Presidente da Caixa Econômica Federal, Pedro Guimarães.
Foto: Marcos Corrêa/PR

Indicado diretamente por Paulo Guedes, ex-dono do Banco BTG Pactual no qual ele próprio trabalhava, Pedro Guimarães sempre foi desde o início do mandato o homem forte de Bolsonaro, sempre fazendo questão de exibir uma fidelidade canina ao seu chefe. Ele chegou a imitar Bolsonaro constrangendo seus subordinados a fazerem flexões, situação de evidente assédio moral e humilhação. O caso provocou, já no ano passado, protestos dos bancários pelo assédio.

Rato antigo do mercado financeiro, especialista em privatizações, Guimarães foi fartamente recompensado pelo longo período de puxa-saquismo e humilhações aos bancários, e principalmente às bancárias, além de reproduzir o discurso negacionista do chefe e investir contra as medidas de distanciamento em plena pandemia. Ganhou notória visibilidade concedida por Bolsonaro, aparecendo em inúmeras lives e nos anúncios mais midiáticos, como os do auxílio-emergencial, que chegou a chamar de “molezinha”. “A gente tem que evitar o cara que tá quebrado, que já estava quebrado antes, e quer a nossa molezinha“, chegou a declarar.

Enfim, o pacote completo do bolsonarismo: machista, abusador e que odeia pobre.

Ódio às mulheres e hipocrisia é constante no governo

Ter uma postura ostensivamente misógina parece exigência para se ocupar um cargo no primeiro escalão do governo Bolsonaro. Ele próprio sempre faz questão de deixar evidente seu ódio às mulheres, sempre disfarçado de um falso moralismo. A última se deu em relação ao escândalo provocado por uma juíza de Santa Catarina que tentava impedir o aborto de uma menina de 11 anos, grávida após um estupro.

A atitude da juíza, que chegou a retirar a criança da família para impedir o procedimento permitido pela Justiça sob qualquer aspecto, provocou indignação e uma comoção nacional. Não para Bolsonaro. “Não se discute a forma que ele foi gerado, se está amparada ou não pela lei. É inadmissível falar em tirar a vida desse ser indefesa“, twittou.

Mais uma fala hipócrita de Bolsonaro, que inclusive já admitiu em entrevista ter cogitado à sua então companheira abortar a gravidez que geraria seu filho mais novo, Jair Renan. É um discurso que parte de um drama de milhares de mulheres, sobretudo de mulheres pobres trabalhadoras, para jogar para a sua plateia, e consolidar o seu séquito de seguidores conservadores e de ultradireita. Isso, às custas dos direitos, e das vidas das mulheres.

Um corrupto miliciano que brada contra a corrupção

Ministro Milton Ribeiro e Bolsonaro Foto Carolina Antunes/PR

O falso moralismo de Bolsonaro, contudo, vem sendo desmontado um a um. Um dos mais graves foi a recente prisão de seu ex-ministro da Educação, Milton Ribeiro, pego num esquema de liberação de verbas públicas da Educação para prefeituras em troca de propina. O esquema, envolvendo pastores próximos e indicados diretamente por Bolsonaro, contava até com pedidos de barras de ouro. O próprio ex-ministro já havia confessado que o esquema era intermediado diretamente por Bolsonaro. Agora, interceptação telefônica mostrou que o próprio Bolsonaro avisou o ex-ministro da ação da Polícia Federal poucos dias antes da deflagração da operação que culminou em sua prisão.

É talvez a maior prova do envolvimento direto e descarado de Bolsonaro num caso de corrupção, em pleno exercício do cargo. Seu histórico de “rachadinhas”, seu envolvimento há longo tempo com milicianos e a interferência na Polícia Federal para salvar a própria pele, e dos filhos, já eram conhecidos. Tivemos ainda o escândalo da tentativa de compra de vacinas superfaturadas em contratos fraudados. Mas agora temos Bolsonaro flagrantemente à frente de um esquema de desvio de verbas da Educação, e vazando informação sigilosa para obstruir a Justiça.

Era caso para cadeia já, não fosse um sistema presidencialista em que o mandatário poderia praticamente dar um tiro em alguém em frente às câmeras e sair como se nada tivesse acontecido, já que ele só pode ser denunciado pela Procuradoria Geral da República (PGR), que come em suas mãos. Augusto Aras, atual procurador, aliás, reconduzido ao cargo com os votos do PT.

Fora Bolsonaro e Mourão

A queda de Pedro Guimarães só confirma que o governo Bolsonaro, começando por ele próprio, é formado por uma corja misógina, corrupta e, sobretudo, hipócrita, que mente diariamente para manter uma aura de um moralismo cujos fatos vem se mostrando cada vez mais fajuto.