Rebeldia – Belo Horizonte

Desde o início da pandemia, passamos por vários estágios em relação à educação. No início, foi o EaD (Educação à Distância), que depois se transformou em Ensino Remoto Emergencial. Agora vemos  a tentativa de instituir o EaD sob a máscara de “Ensino Híbrido”, à medida que os governos conseguem impor a volta às aulas.  Se o Ensino Remoto no início já escancarou o despreparo dos governos em lidar com a educação na pandemia, a volta às aulas agora não desvia das mesmas conclusões.

 O EaD e o Ensino Remoto eram um reflexo da pressão econômica de, ainda que com um método improvisado,  seguir o calendário estudantil a qualquer custo e, portanto, não atrasar os lucros dos grandes empresários da educação. Por outro lado, a volta às aulas se colocava cada vez mais com a pressão da retomada da “normalidade”, também no sentido de conter a evasão dos alunos das instituições privadas e garantir o trabalho presencial dos pais dos estudantes das escolas públicas. E ao longo de todo esse tempo, a burguesia ficou estudando como institucionalizar o EaD – essa forma mais barata de ensino para eles, e mais precária para nós – que agora se concretiza com a proposta de Ensino Híbrido.

O resultado da política do Ensino Remoto foi  aprofundar a desigualdade social na educação: o índice de evasão universitária nas instituições privadas foi 14% maior que no mesmo período do ano de 2019, que diga-se de passagem são os locais onde mais se concentra a juventude trabalhadora e precarizada – cada dia mais desempregada . A evasão dos estudantes das escolas públicas teve um aumento de quase 2% Os trabalhadores da área da educação foram o segundo setor com mais demissões na pandemia. Além da abstenção recorde do Enem 2020, que ultrapassou os 50%, e os mais recentes dados do Enem 2021, que é o mais branco e elitizado da história. Um verdadeiro absurdo.  O resultado: um impacto na qualidade educacional que certamente será percebido por um longo período,

A volta às aulas com o Ensino Híbrido: um duplo ataque

Diante de todos os problemas citados e com o avanço da vacinação na juventude, o tema da volta às aulas começa a se concretizar nas universidades, que  já anunciam aulas presenciais mediante a implementação do ensino híbrido, principalmente dos cursos que contém aulas práticas e em laboratório. Ao mesmo tempo, se discute hoje que o ensino à distância tenha caráter permanente  em diversas instituições privadas, e, agora também, nas federais.

Como se não bastasse todos os problemas de acesso e aprendizagem, implementar o ensino híbrido sedimenta o caminho da precarização e privatização da universidade pública e se combina com os  constantes cortes na educação (o último ultrapassando 18%). A tentativa é a de executar um desinvestimento na universidade pública, eliminando de vez parte das atividades presenciais, e assim deixando de pagar funcionários e materiais,  e, claro, provendo o lucro de empresas que fornecem plataformas de ensino online. 

Por isso, a volta às aulas como querem é um duplo ataque, porque vai institucionalizar o ensino à distância com o ensino híbrido, além de que não há condições sanitárias para isso ainda, por exemplo com a variante Delta se espalhando rapidamente no Brasil. 

Ser contra a institucionalização do ensino remoto não tem nada a ver com, por um lado, ser contra o retorno presencial das atividades, e por outro, ser contra o uso da tecnologia no aprendizado, em que pese que a tecnologia no ensino remoto não serve pra melhorar o ensino, e há uma parcela gigante de estudantes que não tem acesso nem ao básico da tecnologia.

Nós queremos retornar o quanto antes, mas não pode ser que isso aconteça agora, sem condições sanitárias 100% seguras e com a pandemia controlada. E nós reivindicamos a tecnologia para melhorar a experiência do aluno em aula, podendo acessar seus melhores recursos e sendo um auxílio, coisa que não tem se refletido na experiência dos alunos com o ERE (Ensino Remoto Emergencial) e muito menos nas intenções do governo desde o início da pandemia.

Diante disso, existe forma  de fazer o retorno sem acentuar a desigualdade? Parece que não, já que o ensino híbrido não resolve a falta de acesso e qualidade das aulas online, e ainda  expõe o aluno e quem convive com ele à COVID e suas novas cepas.

Sensação de normalidade: Será que a pandemia está controlada?

Em vários momentos dessa pandemia, nos diversos setores educacionais, a volta às aulas foi condicionada à vacinação do corpo docente das escolas e universidades. De fato, esse grupo, colocado como prioritário mediante a educação como serviço essencial, já recebeu as duas doses da vacina em sua maioria, mas isso nem de longe era, e ainda não é, suficiente para garantir a segurança dos estudantes e professores no ambiente presencial das aulas. Colocar a educação nessa categoria foi a forma que o Estado encontrou de retomar as aulas presenciais mais rapidamente.

Recentemente, o Brasil dispôs de uma vacinação mais acelerada, apesar de Bolsonaro e dos governadores, que ficaram meses calados frente ao genocídio no país. A vacinação alcança, depois de uma espera desesperadora, a casa dos 20 anos em vários estados, ainda com variações da velocidade da vacinação nas cidades. Hoje, os números de vacinados com a primeira dose é de, aproximadamente, 64% e de duas doses, 32%, o que definitivamente não garante um estado de segurança em relação à contaminação pela COVID, ainda mais com a variante Delta se espalhando rapidamente.

Sabe-se que, para diminuir os danos da variante, mais transmissível, é necessário no mínimo ter as duas doses da vacina, o que não é uma realidade na maior parte do país. Também sabemos que, quanto mais o vírus circula, mais ele muta.  E isso nos  faz perguntar: será que já está mesmo garantida a volta à normalidade com segurança? Não é possível outra onda? Na Europa, por exemplo, ainda que com uma vacinação muito mais avançada e condições estruturais de contenção do vírus nas escolas e universidades, já foi um risco. Em vários países,  se abriu e fechou várias vezes as escolas e universidades até a vacinação atingir o patamar necessário atestado pelos cientistas. 

Portanto, diante da nossa situação o mais importante é garantir a cobertura vacinal exigida pelos especialistas para retomarmos as aulas presenciais, de fato, em segurança. 

Por um plano de retorno seguro organizado pelo movimento estudantil junto com as outras categorias da comunidade acadêmica!

Não tem jeito, quando paramos pra ver é ataque de todo lado. Com EAD e ensino remoto foi e está sendo ruim, com volta às aulas é ruim. Isso porque o ensino híbrido ataca a educação, mas também não podemos voltar presencialmente de maneira completa. Mas, por que será que nos são dadas condições tão ruins?

Isso se deve ao fato de que a educação de qualidade nunca foi uma preocupação dos governos. Bolsonaro é a cara mais feia do capitalismo, e ele quer tornar pior aquilo que já era uma tragédia. E é assim porque na sociedade capitalista em que vivemos, a educação  tem o objetivo de formar mão de obra barata, não pessoas que pensem além do operacional, querem apenas que nos submetamos a trabalhar na lógica do mercado, ou seja, submetidos à uma produção anárquica, não subordinados às necessidades das pessoas, e sim do enriquecimento de uma minoria bilionária. Nem mesmo a maior parte do que aprendemos na universidade tem utilidade nesse sistema, porque o mercado vai usar apenas aquilo que dá lucro. E mais, hoje nem sequer temos garantia de que tendo um curso superior teremos um trabalho. A juventude, inclusive graduada, bate recorde de desemprego.

Em períodos de crise os ataques se intensificam, apesar de serem uma tradição dos governos, o corte de investimentos das instituições públicas no geral está se acentuando e uma mão de obra menos qualificada vinda  das universidades serve bem aos interesses do capitalismo. Sua intenção é  apenas fingir que tá tudo normal enquanto corta e desinveste no setor, mirando sua privatização . O ensino híbrido é um atalho que serve a esse objetivo.

Mas será que é aceitável que se empurre goela abaixo a volta às aulas, sem a consulta aos trabalhadores e estudantes da comunidade acadêmica tanto um EAD permanente quanto uma volta às aulas sem a vacinação das duas doses dos alunos? E mais, sem a dose de reforço, que se fez necessária pelo fato de que a contenção da variante Delta exige um maior número de anticorpos?

Diante disso tudo, somos contra o ensino remoto. Compartilhamos da vontade massiva de voltar à aula presencial, mas apenas quando tivermos condições absolutamente seguras,  por exemplo com as duas doses da vacina aplicadas em toda população mas também com a garantia de proteção completa contra o Coronavírus e suas cepas.

Somos contra o ensino híbrido, que é uma forma de institucionalizar o EAD, forçando um semi-retorno que não deveria acontecer e também tensionam para que as aulas online sejam permanentes, o que também não deve acontecer.

Por isso, precisamos urgentemente exigir que as entidades das universidades abram um diálogo com os estudantes e trabalhadores, através de assembleias gerais que discutam a volta às aulas, as condições e os riscos. Queremos que o movimento estudantil, em aliança com os outros setores da comunidade acadêmica, construa o seu plano de retorno seguro, pois não devemos ficar reféns de reitorias e governos diante disso.