Ana Alice*, operária do Polo Industrial de Manaus, uma das muitas trabalhadoras contaminadas pela covid-19

Já faz tempo que a diretoria do Sindmetal-AM abandonou a luta da minha categoria e levou o sindicato para os braços dos empresários. O Sindicato dos Metalúrgicos do Amazonas, que antes era o representante maior das lutas dos trabalhadores e das trabalhadoras do Amazonas, hoje é odiado. E, neste momento de pandemia, dá mais um claro exemplo de como uma diretoria pelega, burocrata e parceira da patronal faz para desmoralizar uma entidade e se ajoelhar perante as multinacionais contra a preservação da própria vida da classe trabalhadora.

Um gangster à frente do sindicato

Valdemir Santana, atual presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT-AM), está à frente do sindicato desde 2005 e da central desde 2013. 15 anos dirigindo o sindicato com mão de ferro e utilizando de todas as formas para se manter no cargo. Valdemir acumula muitas denúncias de corrupção, extorsão e apropriação de bens. Em 2016 foi denunciado pela junta governativa do sindicato pelo desvio de R$3 milhões de indenizações de trabalhadores das empresas BENQ, GBR e ECOPARK do Distrito Industrial. Em 2018 foi condenado a mais de sete anos de prisão, no regime semiaberto, e multa de R$ 333 mil, por estelionato e apropriação indébita.

O sindicato dos metalúrgicos é uma importante ferramenta de organização e de luta dos trabalhadores do Polo Industrial de Manaus (PIM) e que deveria neste momento estar na vanguarda pela garantia dos direitos, renda e trabalho dos mais de 90 mil trabalhadores e trabalhadoras. Sob a direção de Valdemir e da CUT, o sindicato tem uma longa história de aliança com a patronal e de traição das lutas do operariado amazonense. Em 2017, a maior greve do país em anos, a direção do sindicato não mobilizou nenhum trabalhador e só compareceram ao ato a cúpula burocrata do Sindmetal. Frente às reformas e a ataques aos direitos dos trabalhadores (reforma trabalhista, terceirização e previdência) implementadas sob diversos governos, a diretoria do Sindmetal fez apenas notas em seu blog e reuniões em salas fechadas sem a presença de trabalhadores da base, bem longe das fábricas.

O imobilismo criminoso frente à pandemia

Em meio a pandemia a situação de imobilismo da diretoria do sindicato é mais alarmante. O último boletim epidemiológico da Fundação de Vigilância e Saúde (FGV-AM) mostrava que o Amazonas registrou em 24 horas 1.365 novos casos de Covid-19. Com o novo aumento de casos, o total de pessoas infectadas chega a 17.181 no estado. Foram 75 novas mortes, elevando para 1.235 os óbitos pela doença.

No site do sindicato, a diretoria mostra alguns relatos de trabalhadores que denunciam as péssimas condições de trabalho e os riscos de contaminação pela covid-19. Muitos são os relatos de familiares contaminados ou mortos pelo vírus. Mas sem condições de se manterem economicamente em casa, os trabalhadores são obrigados a trabalhar, mesmo com o receio de transmitir para os colegas de linha ou de serem contaminados e contaminar suas famílias. Diante das denúncias a diretoria informa, no seu blog, que está denunciando aos órgãos competentes as queixas dos trabalhadores. Isso é insuficiente. É vergonhoso!

A diretoria do sindicato em vez de buscar dar voz aos trabalhadores, faz o contrário: dá voz à patronal. Nas redes sociais são várias as notas parabenizando diversas multinacionais pela postura diante de um momento “difícil” de pandemia mundial e pelas medidas que estas adotam para continuar rodando normalmente.

Essas empresas, se não forem serviço essencial, nem deveriam estar funcionando e deveriam garantir os salários para os trabalhadores cuidarem da sua saúde. Patético foi a nota em apoio à rede privada de saúde Samel e um vídeo de seu presidente “esclarecendo” a cobrança de R$50 mil a internação de doentes pelo coronavírus. Mas, o mais criminoso tem sido o silêncio diante da suspensão dos contratos de mais de 8 mil trabalhadores da Honda e de outras grandes fábricas.

PIM: um grande polo

O polo industrial é um grande polo de riqueza e o maior centro de aglomeração de pessoas em nossa região. As multinacionais (que enviam anualmente seus lucros de bilhões para as suas matrizes fora do país) agora pressionam o governador para que não adote o isolamento social de forma efetiva na capital. Afirmam que muitas podem quebrar ou ter que demitir uma grande parte de seus trabalhadores. Basta uma conferida rápida nos dados disponibilizados pela superintendência da Zona Franca de Manaus para ficar claro que, diferentes das pequenas fábricas terceirizadas e quarteirizadas, as multinacionais têm caixa para sobreviver tranquilamente por alguns meses sem precisar demitir ou reduzir salários. Com o aumento gigantesco de contaminados e mortos em nosso estado o primeiro local que deveria parar era o distrito. São 90 mil pessoas se aglomerando diariamente e as denúncias de exposição à contaminação crescem todos os dias.

Em meio a essa pandemia, algo ficou muito claro sobre o polo industrial: toda a riqueza produzida, toda tecnologia e toda a infraestrutura nunca estiveram voltadas para beneficiar o povo amazonense. É um absurdo que um gigantesco parque industrial, com milhares de operários e técnicos especializados, não contribua com insumos para combater a pandemia.

Seguir o exemplo dos operários italianos e de São José dos Campos

No pico da pandemia na Itália o governo decretou isolamento de muitas regiões, as cenas do exército levando mortos são emblemáticas. Ao ouvirem o discurso do primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, de que toda a Itália se tornaria uma “zona vermelha”, mas que milhões de trabalhadores deveriam continuar trabalhando, a revolta dos trabalhadores explodiu, obviamente nas formas possíveis. Greves, paralisações e protestos sacudiram a Itália.

Os metalúrgicos de São José dos Campos (SP) entraram em greve, o sindicato de lá fez um chamado à greve geral pela saúde e pela vida da própria categoria contra as ameaças da patronal e do governador João Doria (PSDB), que defendiam que as fábricas continuassem funcionando como se nada estivesse acontecendo. O resultado dessa organização e mobilização foi a liberação do trabalho para cerca de 30 mil trabalhadores com a garantia de salários. Um exemplo de luta pra toda a classe trabalhadora.

O capitalismo mostra sua face mais brutal nessa pandemia: só o que importa é o lucro! Empresários e banqueiros com o apoio e a voz do presidente genocida Jair Bolsonaro, parlamentares e governadores só se importam com a taxa de lucro de seus negócios, que em meio à pandemia correm “riscos”. É criminoso o silêncio das grandes centrais diante da avalanche de ataques do governo e patronal.

A vida acima do lucro!

A vida dos trabalhadores e das trabalhadoras do polo industrial precisam ser colocadas acima dos lucros. Como a diretoria do Sindmetal só se preocupa com o lucro das multinacionais, é preciso se organizar nas fábricas e nos bairros para lutar pelo direito à vida, lutando contra o colapso da saúde, contra a falta de segurança, contra o desemprego e a miséria.

Estamos vivendo cenas de barbárie, mas juntos e organizados podemos arrancar das mãos da burocracia as ferramentas de luta da nossa classe e assim lutar por nossas vidas e garantir que nenhum dos nossos passem necessidades.

Para garantir a vida dos/das operários/as defendemos:

– Greve geral no Polo Industrial de Manaus para defender a saúde e a vida! Somente os serviços essenciais devem continuar funcionando;
– Quarentena total já, com garantia de salário integral!
– Estabilidade no emprego!
– Garantia de renda mensal para autônomos e desempregados. R$ 600,00 não é suficiente!
– Estatização da rede privada de saúde e lista única de leitos clínicos e de UTI’s!
– Construção de novos leitos de UTI’s e conversão de fábricas para produção de respiradores!
– Distribuição massiva de máscaras e álcool em gel para a população!
– Proibição de despejos e confisco dos imóveis vazios para sem-teto!

*O nome da companheira foi trocado para evitar perseguição