Shirley Silvério, da Secretaria Nacional de Negros e Negras do PSTU

Estamos vivendo a combinação de uma crise econômica, uma pandemia e um governo genocida, racista e machista. Essa é a forma que a burguesia encontrou para lucrar com o massacre das mulheres negras.

São 125 milhões de pessoas com algum nível de insegurança alimentar, sendo 33 milhões com fome, sendo que a maior parte atingida é de famílias negras. Isso no mesmo ano em que o preço da cesta básica superou o valor do salário mínimo. Do outro lado, o Brasil acumula 62 bilionários, que ampliam seus lucros até na pandemia.

O lucro dos bancos aumentou 34% em 2021, com R$ 90 bilhões. Destes, R$ 26 bilhões foram só para o Itaú, o maior do setor. Enquanto as estruturas racistas e machistas do capitalismo garantem os lucros dos grandes empresários às custas da vida das mulheres negras, o marketing desses bancos finge que são aliados.

O Instituto Moreira Salles abrigou a exposição “Carolina Maria de Jesus: Um Brasil para os brasileiros”. O IMS é financiado pelo Itaú, que lucra com a pandemia ao mesmo tempo que busca associar sua marca às causas antirracistas.

Carolina foi uma escritora, compositora, estilista e poetisa brasileira. Mas também foi mãe, trabalhadora e uma amante da vida. Mais do que uma “favelada que escreveu um livro”, ela era uma mulher negra, uma artista.

Neste Dia da Mulher Negra, Latino-americana e Caribenha, trazemos um trecho de um dos livros de Carolina que, infelizmente, é extremamente atual.

“Levantei de manhã triste porque estava chovendo. (…) O barraco está numa desordem horrível. E que eu não tenho sabão para lavar as louças. Digo louça por hábito. Mas é as latas. Se tivesse sabão eu ia lavar as roupas. Eu não sou desmazelada. Se ando suja é devido a reviravolta da vida de um favelado. Cheguei a conclusão que quem não tem de ir pro céu, não adianta olhar para cima. E igual a nós que não gostamos da favela, mas somos obrigados a residir na favela.

… Fiz a comida. Achei bonito a gordura frigindo na panela. Que espetáculo deslumbrante! As crianças sorrindo vendo a comida ferver nas panelas. Ainda mais quando é arroz e feijão, é um dia de festa para eles.

Antigamente era a macarronada o prato mais caro. Agora é o arroz e feijão que suplanta a macarronada. São os novos ricos. Passou para o lado dos fidalgos. Até vocês, feijão e arroz, nos abandona! Vocês que eram os amigos dos marginais, dos favelados, dos indigentes. Vejam só. Até o feijão nos esqueceu. Não está ao alcance dos infelizes que estão no quarto de despejo. Quem não nos despresou foi o fubá. Mas as crianças não gostam de fubá.

Quando puis a comida o João sorriu. Comeram e não aludiram a cor negra do feijão. Porque negra é a nossa vida. Negro é tudo que nos rodeia.

… Nas ruas e casas comerciais já se vê as faixas indicando os nomes dos futuros deputados. Alguns nomes já são conhecidos. São reincidentes que já foram preteridos nas urnas. Mas o povo não está interessado nas eleições, que é o cavalo de Troia que aparece de quatro em quatro anos.

… O céu é belo, digno de contemplar porque as nuvens vagueiam e formam paisagens deslumbrantes. As brisas suaves perpassam conduzindo os perfumes das flores. E o astro rei sempre pontual para despontar-se e recluir-se. As aves percorrem o espaço demonstrando contentamento. A noite surge as estrelas cintilantes para adornar o céu azul. Há varias coisas belas no mundo que não é possível descrever-se. Só uma coisa nos entristece: os preços, quando vamos fazer compras. Ofusca todas as belezas que existe.

“Quarto de despejo: diário de uma favelada”, pp. 22-23, Carolina Maria de Jesus, 1960.

Mulheres negras precisam de uma revolução socialista

Se um texto escrito em 1960 parece retratar uma realidade de hoje, 62 anos depois, é porque o capitalismo não nos oferece alternativas. Para mudar nossa vida é preciso destruir o capitalismo. Em seu lugar, podemos erguer uma sociedade socialista, onde as mulheres negras trabalhadoras governem, ao lado de sua classe.

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O que é o dia 25 de Julho

O Dia da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha, que ocorre em 25 de julho, começou a fazer parte do calendário de lutas em 1992, durante o 1º Encontro de Mulheres Afro, Latino-americanas e Caribenhas, na República Dominicana. No Brasil, a data também busca homenagear Tereza de Benguela, mulher negra símbolo de resistência, que liderou o Quilombo de Quariterê após a morte de seu companheiro, José Piolho.