Debate no Largo de São Francisco encerra caravana de haitianos

Debate sobre o Haiti lotou plenário da Faculdade de Direito da USP
Cromafoto

Evento reuniu importantes entidades do movimento negroA tradicional Faculdade de Direito da USP foi palco na noite desse dia 25 de junho de um debate sobre a ocupação militar do Haiti pelas tropas da ONU, lideradas pelo Brasil. Com a presença do dirigente da organização sindical Batay Ouvryie (Batalha Operária), Didier Domenique, o debate contou também com a presença de entidades do movimento negro, como o MNU, UniAfro, e Círculo Palmarino. Também estiveram presentes o DCE da USP e a Conlutas, uma das organizadoras da turnê de debates com a caravana do Haiti no Brasil.

Movimento negro brasileiro contra a ocupação
O evento marcou a unidade na luta dos movimentos contra o racismo e o movimento sindical e estudantil. Miltom, diretor de relações internacionais do Movimento Negro Unificado lembrou a histórica luta dos haitianos contra a exploração e exigiu reparação dos governos aos povos negros. “Temos que exigir também ‘fora as tropas brasileiras´ do Haiti, pois eles treinam lá para subir os morros e favelas aqui”, exigiu.

“O Haiti foi o exemplo da possibilidade de o povo construir a sua própria história” , afirmou Joselício, do Círculo Palmarino. “A luta no Haiti nos serve de inspiração até hoje” , lembrou o ativista. Bárbara Regina, representante da UniAfro, uma dissidência da EduAfro, reiterou a posição contrária da entidade à ocupação e colocou a inteira solidariedade do movimento á campanha pela retirada das tropas.

Já Dirceu Travesso, o Didi, representando a Conlutas, combateu a ideia de que o povo haitiano não “pode ser abandonado à própria sorte” e que, portanto, a ONU deveria os socorrer enviando tropas. “Esse argumento é a expressão mais clara do racismo e do colonialismo” , afirmou. “O povo haitiano não precisa da ajuda de ninguém, foi ele quem financiou Simon Bolívar em sua luta pela libertação da América Latina, com a condição de que a escravidão fosse extinta” .

“Por enquanto só morreram haitianos, mas daqui a pouco vão começar a morrer soldados brasileiros, e aí a esquerda vai estar com o seguinte dilema: vamos às ruas lamentar suas mortes ou vamos com a bandeira do Haiti exigir a retirada das tropas? Nós da Conlutas não temos dúvida, colocaremos nossas forças a favor dessa luta” , afirmou Travesso, sendo aplaudido pelo público.

Escalada repressiva no Haiti
Didier Dominique, representante do Batalha Operária, traçou todo o histórico de ocupação e exploração do país caribenho. Colocou a questão de forma clara como um problema de raça, mas também de classe. “A questão aqui é de raça e classe, pois temos também entre as forças de ocupação da ONU soldados do Senegal e da Costa do Marfim” , disse, referindo-se à países com população majoritariamente negra cujos governos apóiam a ocupação.

Didier afirmou que a ocupação militar atende aos interesses das grandes multinacionais por mão de obra barata e a colocou na perspectiva de um plano do Imperialismo, relacionado também à instalação de bases e o avanço militar dos EUA por sobre o continente. O haitiano afirmou ainda que a escalada repressiva das tropas, que teria começado em 2008 com os protestos contra as mobilizações provocadas pelo aumento do preço dos alimentos, aumentou ainda mais com os recentes protestos pelo aumento do salário mínimo do país.

“O movimento estudantil, que no Haiti é bastante proletarizado, esteve á frente dessas mobilizações e estão sendo duramente reprimido” , contou, traçando um paralelo entre a repressão no Haiti e a recente repressão da tropa de choque contra estudante na USP. As tropas da ONU despejam bombas de gás lacrimogêneo de forma indiscriminada em universidades e até mesmo dentro de hospitais, para conter os protestos. “Chegam a jogar bombas de forma preventiva em bairros, às 5 da manhã, para as pessoas nem conseguirem sair de casa” , denunciou.

Ao final do ato, Didier mostrou fotos chocantes da brutal repressão dos soldados da ONU no Haiti, mostrando que, de paz, essas forças militares não têm nada.

O debate terminou com uma declamação de um rap do grupo 286 e Liberdade e Revolução, integrantes da Família Rap Nacional, que emocionou a todos.

A caravana do Haiti no Brasil se reúne na tarde desse dia 26 de junho a fim de realizar uma avaliação das atividades da campanha pela retirada das tropas da ONU no país.