Atualização do Plano SP. Foto Gov SP

Se São Paulo fosse um país independente do Brasil, estaria em 11º lugar no ranking de países com mais mortos pela Covid-19. Com 61.417 óbitos até 6 de março, o estado mais rico do Brasil não tem muito do que se orgulhar em sua performance no combate à pandemia. Em número de infectados, estaríamos em 14º lugar no mundo.

Para agravar mais o cenário, em 7 de março foi divulgado o resultado preliminar de uma pesquisa levada adiante pelo Instituto de Medicina Tropical da USP em conjunto com o laboratório Dasa, dando conta que a variante P.1 (originada em Manaus) já é predominante na Grande São Paulo. Esta pesquisa só reforça os dados de uma pesquisa anterior, realizada em Araraquara, que já chamava a atenção para o crescimento da cepa de Manaus naquela cidade.

A cepa P.1, pelo que se sabe até agora, tem como características atingir indivíduos mais jovens do que se via no início da pandemia, causar uma carga viral dez vezes maior do que a cepa “original”, consegue enganar com mais eficiência o sistema imunológico dos hospedeiros e há fortes indícios de que é mais capaz de causar casos de reinfecção pelo coronavírus. Por tudo isso, ela tem maior capacidade de propagação na população.

É por conta dessas características que o coronavírus vem causando uma forte devastação no Amazonas, obviamente em total parceria com o ambiente social de total irresponsabilidade governamental na garantia do isolamento social e na infraestrutura absolutamente débil do sistema de saúde público e privado da região, que se traduziu na semana fatídica em que assistimos estarrecidos uma enorme quantidade de óbitos causados pela falta de oxigênio nos hospitais amazonenses.

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No estado de São Paulo o primeiro indicativo da chegada do virulento P.1 se deu em Araraquara, que vivenciou um súbito aumento de casos e óbitos em janeiro e fevereiro, que obrigou a cidade a entrar em lockdown antes do resto do estado.Com o crescimento assustador dos casos e óbitos no conjunto do estado, fruto das aglomerações causadas pelas festas de final de ano, praias lotadas, compras de natal com ruas abarrotadas de gente sem máscara, ônibus e metrôs também muito cheios, o governador Dória foi obrigado a tomar a iniciativa de colocar o estado em fase vermelha.

Houve protestos de setores bolsonaristas contra as restrições de circulação de pessoas no estado. Em 5 de março, por exemplo, ocorreram trancaços de caminhoneiros nas avenidas marginais de São Paulo, que provocaram muitos transtornos no trânsito da cidade e foram tratados com muita gentileza pela Polícia Militar, que demorou muito para conseguir liberação parcial das marginais. Nunca é demais dizer que o movimento dos trabalhadores raramente é tratado com civilidade pela Polícia Militar do estado.

Mas a fase vermelha de Dória tem algumas peculiaridades. Ela está muito longe de ser um verdadeiro lockdown, pois mantém em funcionamento boa parte da economia. Para piorar, agora foi dada autorização para o funcionamento de igrejas e templos, justamente na pior fase da pandemia. Essa autorização ao funcionamento religioso é uma tentativa desesperada de Dória e do PSDB de retomar parte do público evangélico, mas vai totalmente contra a orientação da ciência. É obvio que as pessoas religiosas podem rezar em suas casas, utilizar as redes sociais se quiserem rezar em grupo. Quanto maior o isolamento social, menor a chance do vírus se propagar e menor a possibilidade de surgirem mutações que tornam o vírus mais perigoso.

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A vacinação em São Paulo e no Brasil já começou, mas segue em ritmo lento, muito abaixo do que a estrutura do SUS permite. Poderíamos estar a uma velocidade cinco ou dez vezes maior, o que não acontece pelo simples fato de não haver vacinas disponíveis, por responsabilidade de Bolsonaro e Pazzuello. Esse é, talvez, o único trunfo de Dória sobre Bolsonaro. Mas o governador do estado mais rico poderia ter feito muito mais do que fez. Poderia ter bancado um auxílio emergencial de verdade para os trabalhadores desempregados e pequenos empresários do estado, que facilitaria a sobrevivência destes setores e amenizaria a resistência ao tão necessário isolamento social. Poderia ter restringido ao mínimo os setores “essenciais” que realmente não podem parar durante a pandemia. Não fez isso em relação à indústria ou ao transporte público, forçou a volta às aulas das escolas públicas no pior momento da pandemia. Tanto não fez que o governo do estado anunciou com orgulho, na semana passada, que o PIB do estado não caiu em 2020, tendo um aumento de 0,4 %, muito melhor do que o Brasil que teve queda de 4,1 %. Se houve aumento do PIB em plena pandemia é porque nunca houve um lockdown de verdade no estado de São Paulo.

A boa notícia foi dada por dados da prefeitura de São Paulo, que constatou uma queda significativa de casos e óbitos na faixa etária acima de 90 anos comparando janeiro e fevereiro. A diminuição de óbitos foi na casa de 70% especificamente nesse grupo de maiores de 90 anos. Ainda é cedo para se afirmar que isso se deu por conta da vacinação desses idosos, sendo necessário esperar os dados de março e abril. Mas essa é a explicação mais provável, o que é uma excelente notícia, pois ainda há grandes dúvidas nos especialistas sobre a eficácia da Coronavac na população (lembrando que ela foi pouco acima de 50% na fase 3 das pesquisas). Essa informação sobre a real eficácia da Coronavac vai ser mais precisa quando se concluir o estudo que o Instituto Butantã está fazendo na cidade de Serrana, aonde o grosso da população já está sendo vacinada.

A realidade é que também há dúvidas dos cientistas sobre a eficácia de todas as vacinas em relação às variantes que surgiram e ainda vão surgir. As cepas variantes mais famosas são a Inglesa, a da África do Sul, de Nova York e a de Manaus, mas certamente vão surgir outras. Aí cabe uma outra discussão essencial, que é a importância do isolamento social combinado com a vacinação. O mundo inteiro está de olho no Brasil, pois estamos combinando uma velocidade de vacinação baixa com um crescimento de casos e óbitos. Esse é um terreno ideal para o vírus se propagar e sofrer mutações, dando espaço para a seleção natural permitir o surgimento de cepas mais perigosas. Recordemos que há também um lapso de tempo entre o ato vacinal e a formação dos anticorpos e memória imunológica pelo indivíduo vacinado. É isso que explica o caso de pessoas que morrem de Covid após terem sido vacinadas, pois a infecção se deu nesse lapso de tempo. Tudo isso é conhecido pela ciência há muitos anos, mas os negacionistas nunca se importam com o conhecimento científico.

Voltando à importante questão da resposta vacinal às cepas mutantes, além da necessidade de se conhecer a resposta de cada tipo de vacina na população, há que se pensar em estratégias enquanto não surgem vacinas mais eficazes (ou se consolida algumas das já existentes como adequadamente responsivas às mutações conhecidas). Uma estratégia que está sendo baralhada é o uso de uma terceira dose das vacinas, que seria feita com as atuais vacinas com algumas mudanças. Outra estratégia é tornar a vacinação contra a Covid parte do calendário anual de vacinas, como é feito com a da gripe, por exemplo.

Qualquer que seja a estratégia, ela terá de ser acompanhada pelo menos na atual fase da pandemia pelo isolamento social e uso de máscaras e outras medidas de higiene. Para um verdadeiro isolamento social existir, é preciso o restabelecimento já do auxílio emergencial de R$ 600 pelo Governo Federal e cabe ao governo estadual complementar esse auxílio, assim como aos municípios. Insistimos também na importância da ajuda às pequenas empresas, que foi muito falha no ano de 2020. Para fazer isso, além de sensibilidade social, é necessária coragem política de se enfrentar com determinados interesses empresariais.

Nem Dória e muito menos Bolsonaro tem sensibilidade social ou coragem e vontade de se enfrentar com a burguesia. Por isso é fundamental que os sindicatos, centrais sindicais, movimentos populares e de juventude comecem a discutir alternativas, inclusive a possibilidade de uma greve geral sanitária no estado e no país. Pode parecer uma tarefa muito grandiosa para o atual estágio de mobilização do movimento de massas, mas é preciso se preparar para a possibilidade de uma piora da situação da pandemia. Estamos nos aproximando do patamar dos 2 mil óbitos por dia e, com a lentidão da vacinação, esse patamar pode até ser maior. Fazendo um paralelo puramente matemático com os EUA que chegaram em janeiro a até 4 mil óbitos por dia, o Brasil pode se aproximar dos 3 mil óbitos diários, o que sinceramente esperamos que não aconteça.

Por fim, não podemos deixar de lembrar dois elementos. O primeiro foi o chamado do secretário estadual da saúde de São Paulo para que os conselhos profissionais (de medicina, enfermagem e fisioterapia) consigam voluntários para ajudar no tratamento à Covid, argumentando que estamos em “uma situação de guerra”. O secretário acertou em citar a situação de guerra, mas isso não se resolve com trabalho voluntário. É preciso contratação imediata de pessoal médico, de enfermagem, fisioterapia e demais áreas da saúde, mas para isso ocorrer o impeditivo não é a falta de mão de obra e sim o decreto estadual que proíbe novas contratações, inclusive de concursos já realizados. O decreto é a versão estadual da “responsabilidade fiscal” apregoada por Guedes e por toda a escola liberal de economistas. O  liberalismo na economia simplesmente naufragou no mundo inteiro no trato com a crise econômica de 2007 e, principalmente, em relação ao cenário criado pela pandemia de Covid.

O segundo tema que queremos lembrar é que o estrangulamento no fornecimento de vacinas pode ser superado pela quebra de patentes da indústria farmacêutica. Isso foi proposto por Índia e África do Sul na Organização Mundial do Comércio e detonado pelos EUA com a colaboração do Brasil. Talvez o exemplo da revolta paraguaia contra o governo pela má gestão da pandemia naquele país, em que um dos elementos centrais foi a falta de vacinas, acorde o mundo para a discussão da quebra de patentes.