Corrupção e milícia: Escândalo envolvendo Flávio Bolsonaro expõe hipocrisia da família no poder

FotoWilson Dias/Agência Brasil

Redação

A operação deflagrada pelo Ministério Público do Rio de Janeiro contra o senador Flávio Bolsonaro (atualmente sem partido), nesta quarta-feira, 18, complica ainda mais a vida do clã Bolsonaro. Investigação do MP-RJ dá mais detalhes da prática da “rachadinha” (devolução de parte dos salários dos assessores ao parlamentar), lavagem de dinheiro e, principalmente, as espúrias relações da família com a milícia.

Não se trata de mais um caso de corrupção ou uma prática que “todo mundo faz”, como vem defendendo parte dos apoiadores do governo. Como se isso já não fosse grave o suficiente, expondo o discurso hipócrita de Bolsonaro, esse escândalo revela mais ainda a ligação do clã com os bandos armados que dominam cada vez mais territórios no Rio. As milícias são esquadrões da morte ligados ao aparato de Segurança do Estado, que controlam comunidades inteiras utilizando o terror, como máfias obrigando o pagamento por “segurança” e negócios ilegais.

Além da relação de Flávio com Fabrício Queiroz, o ex-PM que chefiava seu gabinete quando era deputado da Assembleia Legislativa do Rio, as investigações lançam luz sobre o envolvimento do senador com o chefe da milícia “Escritório do Crime”, o também ex-policial e capitão do Bope Adriano Magalhães da Nóbrega, conhecido como “Capitão Adriano”. A mãe e ex-mulher do miliciano era assessoras no gabinete do filho de Bolsonaro. Já se sabia que elas, assim como os demais assessores do parlamentar, repassavam parte dos salários para Flávio, via Queiroz. Pois agora se sabe também que as duas sacavam dinheiro que, ao que parece, irrigava a milícia.

Quando foi exonerada em dezembro de 2018, logo após as primeiras denúncias do esquema, a esposa do miliciano pede que ele interceda a seu favor junto ao gabinete. A ela o miliciano diz que “contava com o que vinha do seu também”, mostrando que o ex-capitão do Bope também se beneficiava com o esquema.

O escândalo inclui lavagem de R$ 2,3 milhões através de uma loja de chocolates e imóveis para encobrir as movimentações dessa verdadeira organização criminosa incrustrada na Alerj.

Bolsonaro “não tem nada a ver com isso”?
No dia em que a Ministério Público fez busca e apreensão nos endereços ligados a Flávio Bolsonaro, à ex-mulher de Jair Bolsonaro cujos parentes fantasmas lotavam o gabinete do filho, e os milicianos, o presidente afirmou que “não tem nada a ver com isso”. Mesmo assim, se reuniu com Flávio e um advogado a portas fechadas no Planalto.

A verdade é que na cabeça dessa organização criminosa e paramilitar não está Flávio Bolsonaro, mas seu pai, Jair Bolsonaro, que foi quem colocou Queiroz lá. Como ele mesmo gosta de repetir, Queiroz foi seu amigo desde 1985, o acompanhando em praticamente toda a sua vida política. Queiroz fez a ponte entre Bolsonaro e os grupos de miliciano que serviram de apoio eleitoral e pavimentaram seu caminho até o Planalto. Até mesmo recentemente, Jair Bolsonaro despachava no gabinete de Flávio.

Se a relação da família Bolsonaro com a milícia já era bem conhecida, o que essa investigação vai desvelando são os meandros desse mecanismo.

Investigação já! Prisão dos corruptos e corruptores
O escândalo expõe ainda a hipocrisia do ministro da Justiça, o ex-juiz Sérgio Moro. Além de, mais uma vez, se calar diante desse escândalo, ainda teve a cara de pau de dizer que em 2019 não havia tido nenhum escândalo de corrupção. Sérgio Moro, na realidade, começou a se queimar quando aceitou integrar esse governo, que, já se sabia, tinha relações estreitas com milicianos e com integrantes já investigados pela Justiça.

Uma vez no governo, se silencia diante da sujeira que cerca Bolsonaro e, mais que isso, ajuda a blindar o presidente.

É preciso exigir investigação do esquema de corrupção de Flávio Bolsonaro e da família Bolsonaro. Investigar a fundo o envolvimento desses grupos de milicianos com o assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, crime que se aproxima do segundo ano sem que tenha sido esclarecido. Que a família Bolsonaro utilizava uma rede de funcionários, grande parte funcionários fantasmas, para se enriquecer e financiar as milícias já está mais do que provado. Resta saber a participação que esses bandidos tiveram na execução de Marielle e Anderson.

Vale notar ainda o silêncio do ex-presidente Lula diante das recentes revelações. O PT secundarizou a grave denúncia do governo a alguns deputados, enquanto sua maior figura pública se mantém calado diante do caso. Claro, qual a moral para se denunciar a corrupção depois de ter tanto relativizado o tema? Ao invés de justificar a corrupção, o papel da esquerda teria de ser a denúncia implacável de corruptos e corruptores, exigindo a prisão de todos e o confisco de seus bens.