CILENE GADELHA, DE SÃO PAULO

“Brasil, meu nego deixa eu
te contar
a história que a história
não conta
o avesso do mesmo lugar…
…tem sangue retinto pisado
atrás do herói emoldurado
…mulheres, tamoios, mulato …”
Samba enredo da Mangueira, 2019

Assim é a Cabanada. Uma história que a história não conta, pouco contada nos livros de história, muitas vezes confundida com a Cabanagem (Pará). Ocorreu entre
1832 e 1835, em Alagoas e Pernambuco, no período regencial, após a queda de D. Pedro
I. Tomou a forma de uma guerra entre dois exércitos: o do governo e o dos cabanos. Cheia
de contradições, começou com alianças pouco prováveis, congregando num mesmo campo
índios, negros foragidos, posseiros pobres e grandes proprietários de terra juntos contra o Governo Regente. O intrigante é que o objetivo inicial da revolta, aparentemente comum, foi a exigência da volta de D. Pedro I ao trono do Brasil. Uma bandeira restauradora. No entanto, o que estava por trás desse aparente acordo eram motivações bem diferentes. O setor burguês, donos de engenho e um setor de militares, estava insatisfeito com a
perda de postos de poder, pois o governo regencial privilegiou alianças com os antigos inimigos do rei. Já o que movia os cabanos era a crença que a volta de D. Pedro I garantiria o que eles realmente necessitavam: terra e liberdade. Não é à toa que a Cabanada é considerada uma das principais lutas pela terra no Brasil.
A crise econômica, social e política em que o país se encontrava era creditada à Regência e à falta de um imperador forte. A Cabanada foi embalada por essa ideia.
No seu curso, a Cabanada foi se transformando num movimento do povo explorado e
oprimido abolicionista contra os governos central e locais. Rapidamente, voltou-se contra os seus primeiros líderes, os donos de engenho e os senhores de escravos. A Cabanada chegou a comandar várias cidades, questionou a propriedade privada da
terra e ensaiou, em nível local, a construção de um novo tipo de sociedade.
Um feito desses não podia ser tolerado pelo governo. Os presidentes das províncias de
Pernambuco e Alagoas, depois de inúmeros revezes e derrotas humilhantes impostas pelos cabanos, uniram-se com o apoio do governo central para esmagar a Cabanada.
Seus primeiros líderes, os fazendeiros, se acovardaram e negociaram já no início. Os
quilombolas, os índios e os pobres do campo resistiram por três anos. Em 1835, porém, sua revolta foi reprimida a bala e sufocada pelo isolamento, pela fome e por doenças, forçando a rendição de uma parte e a fuga de outra

Por que explodiu a Guerra dos Cabanos?

A economia da época era essencialmente agrícola e voltada para o mercado externo. O açúcar tinha papel de destaque. Contudo, com a concorrência do açúcar das Antilhas e do açúcar de beterraba europeu, era negociado a preços muito baixos.
As antigas oligarquias do Nordeste começaram a perder poder econômico. Com isso, não
só os grandes proprietários, mas a população de uma forma geral passou a sentir os efeitos de um cenário desolador.
Na região da Cabanada, em particular Pernambuco, concentravam-se mais de 50% dos engenhos de cana-de-açúcar do país, baseados no trabalho escravo.
A luta dos escravos por liberdade foi um combustível importantíssimo da Cabanada. Essa
região no passado abrigou o quilombo dos Palmares e mesmo após a sua destruição mantinham mocambos que sustentavam a resistência negra na floresta. Os negros aproveitavam todas as oportunidades para lutar por sua liberdade. Não é à toa que
os negros eram a maioria dos cabanos e foram os mais aguerridos na luta.
Os índios que participaram da Cabanada, em particular os Jacuípe, lutaram contra o recrutamento forçado e a apropriação de terras indígenas.
A crise do algodão e do açúcar, a escravidão, a resistência dos negros foragidos, dos índios
e dos caboclos na luta pela terra estiveram na base da guerra dos Cabanos. Por isso, a revolução iniciada por coronéis se transformou numa guerra popular dos explorados e oprimidos.

Uma sociedade diferente no interior da mata

A Cabanada ganhou esse nome devido às moradias da população pobre e excluída que morava em palhoças de terra batida no meio da mata. A sociedade cabana era composta de várias etnias – negros foragidos, índios, brancos, mestiços – unidos pela
luta contra a opressão e a exploração e por uma vida melhor. Constantemente ameaçados pelo avanço dos canaviais, os cabanos se uniam em busca de um projeto coletivo de sobrevivência nas matas.
Sua prática e seus valores desmentiam seu discurso conservador em prol do rei e da Igreja. Usavam métodos de guerrilha e só atacavam os ricos e poderosos, assaltando os engenhos, matando proprietários, ocupando terras e libertando escravos. Sua
organização era igualitária, baseada em relações solidárias que visavam a reprodução da comunidade. A apropriação da terra não era privada, mas comunitária. Todos trabalhavam na terra de armas na mão, prontos para enfrentar as tropas do governo.
Chegaram a comandar alguns povoados, como Cavaco, Japaratuba, Riachão, Utinga, Piabas
Mortas, Altinho, Panelas, Porto Calvo entre outros. Reuniam cerca de 50 mil pessoas e controlavam um território de 300 quilômetros de extensão e 60 quilômetros de largura. Escolhiam seus chefes democraticamente, possuíam uma hierarquia flexível baseada no destaque na luta. Todas as decisões políticas e administrativas eram tomadas de forma
coletiva com todos participando.
O tipo de sociedade criada pela Cabanada não poderia ser tolerado pelas classes dominantes. Por isso, não foram poupados esforços, dinheiro e vidas para derrotá-la.

O fim da Cabanada

Em 1834, o governo regencial e os presidentes de Pernambuco e de Alagoas reuniram
esforços para atacar a Cabanada com mais de 5 mil homens. O presidente da província de Pernambuco ordenou a destruição de todos os ranchos encontrados. As lavouras eram
queimadas e os cavalos, tomados para privar os cabanos de alimentação e transporte. Uma
parcela dos revoltosos, atingida pela fome e também pela terrível peste de bexiga, acabou
aceitando a anistia oferecida pelo governo. Por outro lado, a morte de D. Pedro I, ocorrida
naquele mesmo ano, desanimou os revoltosos.
Para estimular a deserção entre os cabanos, foi oferecido algum dinheiro, roupas, instrumentos e sementes para trabalharem a terra, além de cuidados médicos. Prometeram aos índios o retorno às suas aldeias.
Aos escravos nada foi concedido e só restaria a volta à escravidão. Cercados na mata por
tropas inimigas, restaram no local apenas os mais fiéis à causa. Os escravos resistiram até o fim, preferiam lutar até a morte à escravidão. Uma parte foi capturada; outros tantos, mortos em combate. Vicente Ferreira de Paula (ver quadro) e uma
parte importante de seu exército conseguiram fugir.
Assim terminou a Cabanada, com 1.021 cabanos rendidos, 1.072 presos e 2.326 mortos a bala. Calcula-se em 15 mil o número de mortos em combate, de fome ou doenças,
a maioria cabanos.
O movimento seguiu, e Vicente, uma das maiores lideranças da revolta, fugiu com parte
de seu exército. Eles formaram uma sociedade escondida no Riacho do Mato, com o formato de aldeias mocambeiras que realizavam ataques aos engenhos para libertar os escravos. A Cabanada foi uma página importante da história. Seus reflexos e a ação de seus sobreviventes, influenciaram fortemente lutas e revoltas futuras que constituem a história dos explorados e oprimidos no Brasil.

Quem foi Vicente Ferreira de Paula?
Um dos maiores líderes da Cabanada, Vicente era filho de um vigário e uma escrava
negra. Chegou a sargento do exército, onde chefiou motins em 1831. Tinha sempre a seu
lado, inclusive nos combates, sua companheira Laurina. Liderou o exército dos papa-méis,
o mais temido pelas tropas do governo. Só foi capturado em 1850, com 59 anos de idade.
Quando preso, foi torturado e enviado para o presídio de Fernando de Noronha, onde comandou uma rebelião de presos em 1853. Foi solto em 1861, aos 70 anos de idade.

SAIBA MAIS – A queda de D. Pedro I e o Governo Regente
O reinado de D. Pedro I foi marcado pelo autoritarismo e por confrontos entre brasileiros e portugueses. As tensões existentes fizeram o imperador abdicar do trono a favor de
seu filho D. Pedro II, na época com cinco anos de idade. Até o herdeiro atingir a maioridade, o país seria governado por uma Regência.
Na regência, abriu-se uma grave crise política que inflamou os já descontentes com o
governo imperial. De um lado, as disputas pelo poder entre os setores burgueses. De outro, diversas revoltas populares.
As medidas do governo regencial causaram grande descontentamento entre os absolutistas e conservadores, que eram comerciantes, senhores de engenho e militares.
Essa divisão entre os de cima permitiu que a Cabanada se convertesse numa guerra de
grande envergadura. A deserção em massa de camponeses pobres, obrigados a se alistar
no exército imperial, fortalecia o exército Cabano com homens e armas, chegando a mobilizar mais de 3.500 combatentes. Alguns autores falam de um exército cabano de 15 mil.

Para ler

A Guerra dos Cabanos
Manuel Correia de Andrade

Os guerrilheiros do imperador
Décio Freitas