Coronavírus e indígenas: é urgente impedir um genocídio

Gabriela Hipólito

As populações indígenas, junto com os grupos de risco, são os setores mais vulneráveis na pandemia que consome o mundo. Se a ameaça cotidiana que sofrem já acompanha um silêncio criminoso por parte do governo, nessa situação as consequências podem ser ainda mais graves.

Historicamente os povos indígenas sofreram com as doenças trazidas pelo homem branco, causadoras de genocídio, desde a invasão de seu território há 520 anos até recentemente, como na ditadura militar.

Em primeiro lugar, a pandemia –para a qual apenas os recém curados têm anticorpos – encontra uma população indígena com um sistema imunológico totalmente diferente e povos que têm enfrentado todo tipo de ameaça e escassez de alimentos e recursos. Muitas doenças já os golpearam: malária, tuberculose, gripe, hepatite, sarampo, entre outras trazidas pela invasão de garimpeiros.

Fechando os acessos

Em meio a uma emergência nacional, pouco foi feito pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) e pelos órgãos que deveriam garantir a saúde e a segurança dos indígenas. Diante dessa paralisia criminosa e de várias suspeitas de infecção, muitos grupos indígenas se organizaram para impedir o contágio. A maioria deles fechou o acesso aos territórios, como em Roraima. No Mato Grosso do Sul, com o fechamento das comunidades, a preocupação seguinte dos guarani kaiowás é outra, temem ficar sem comida porque não podem plantar em área que disputam.

No Pará, muitas comunidades como as do Xingu e Tapajós já fecharam aldeias e estão difundindo as medidas preventivas. Um dos grandes obstáculos, tanto na região quanto no conjunto das comunidades, é a falta de água potável e de saneamento básico nas aldeias.

Saúde indígena colapsada

No Amazonas, estado da região Norte mais ameaçado pelo coronavírus, um médico depois diagnosticado com o vírus, teve contato com os Tikuna, maior população indígena da Amazônia. Ao menos uma jovem indígena foi contaminada, mas fala-se em subnotificação e pode haver mais casos.

A verdade é que, se já não estavam preparadas para saúde indígena antes, os 34 Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI) do país não têm um plano de ação. Alguns partidos entraram com o pedido de um “gabinete especial para o combate ao coronavírus” entre os indígenas que garanta segurança, assistência de saúde e alimentos aos povos.

A Associação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) já tinha feito uma pauta de reivindicações que pedia a proteção dos territórios independentemente das demarcações, principalmente para povos isolados. Essa medida deveria coibir garimpeiros, grileiros, outros invasores e tentativas de ingresso nos territórios. Por fim, caso nada seja feito, reivindicam a participação de órgãos internacionais como OMS e Organização Pan-Americana de Saúde.

Cabe ressaltar que muitos missionários buscam estabelecer contato forçado com os povos, afim de iniciar atividades religiosas nas comunidades, uma verdadeira ação de colonização com efeitos etnocidas.

Nesse momento, além de reiterar todas as medidas expostas pelas organizações indígenas, achamos fundamental garantir seu direito à auto-organização e à autodefesa. Isso deve ser reivindicado por meio das entidades de classe dos trabalhadores, dos movimentos sociais e apoiadores da causa indígena. Também é fundamental exigir total transparência nas medidas adotadas.

  • Verba já para a SESAI!
  • Segurança nos territórios e punição rigorosa para qualquer tentativa de ingresso sem autorização.

Líder Guajajara é assassinado no Maranhão

No Maranhão, estado com grande população guajajara, a decisão também foi se isolar, inclusive protegendo povos isolados como os Awa. Porém, aqui encontramos um grande exemplo de que essa pandemia e só um dos problemas. Com vários líderes recentemente assassinados, no dia 31 de março, soubemos do assassinato de mais um, Zezico Guajajara. Isso demonstra que a perseguição aos povos indígenas não entrou em quarentena.

Capitalismo promove genocídio permanente

Sabemos que a questão indígena é das mais complexas em nossa sociedade. Entender, respeitar e garantir os direitos indígenas são ações que enfrentam mais de 500 anos de visão colonizadora e privatista da terra, dos recursos naturais e de um extermínio da cultura indígena. Defender a floresta, os saberes e o modo de viver indígena entra em choque completo com o capitalismo. O que interessa ao sistema é o simples extermínio e a expropriação dessas populações para que se possa ganhar dinheiro.

Para que os povos indígenas tenham direito a uma vida digna no país, há de se travar um confronto direto com o agronegócio, latifundiários e as mineradoras em geral, inimigos dos povos indígenas.

Que possamos juntos, cidade, campo e floresta, construir uma nova sociedade, com respeito e atenção à diversidade, baseada nas relações humanas, na produção coletiva e no direito dos povos nativos a seus território e cultura.