Dia 7 de setembro será um dia de manifestações dos movimentos sociais, tradicionalmente sendo a data do Grito dos Excluídos e agora incorporado no calendário de luta da Campanha Fora Bolsonaro. De outro lado, os movimentos de direita por todo o país estão convocando caravanas para participar das manifestações em São Paulo e em Brasília. Essa convocatória está sendo endossada por Bolsonaro, que promete participar da manifestação em São Paulo.

A convocatória das manifestações bolsonaristas e de direita varia. Estão falando que é hora de revidar, de defender o presidente, de realizar uma segunda independência, de lutar pelo Brasil. E se amparam nas últimas ações de Bolsonaro, que vem construindo sua argumentação golpista falando contra o STF (Supremo Tribunal Federal) e sobre o voto impresso.

Bolsonaro utiliza esses dois argumentos para justificar seu projeto de golpe ditatorial. O tema do voto impresso, por exemplo, é menos sobre o voto impresso em si e mais uma tentativa de Bolsonaro de criar uma justificativa para que não tenham eleições em 2022. Ou ainda, falar contra o STF faz parte do perfil antiregime e anti-instituições que ele precisa construir para justificar o projeto golpista contra a democracia burguesa e suas instituições.

Bolsonaro faz essas ameaças porque quer instaurar uma ditadura no país. Esse sempre foi seu projeto. O fato de Bolsonaro ser o porta-voz da ditadura no Brasil é a mais pura expressão do nível de decadência econômica, social e política do país. Demonstra também como a decadência e falência do capitalismo engendra o surgimento de alternativas absurdas, que em tempos “normais” não aparecem tanto, mas que surgem como uma possibilidade em períodos de crise e instabilidade. É o desequilíbrio que exige medidas mais drásticas por parte da burguesia, justamente para que as coisas não saiam totalmente dos trilhos e coloquem em cheque o próprio poder dos ricos. É por isso que a burguesia não tem nenhum problema em fazer parte de projetos autoritários, se assim for necessário para continuar lucrando.

Não vamos aceitar que essa direita bolsonarista vá para a rua fazendo apologia a um regime de tortura, repressão, fim das liberdades democráticas e direitos democráticos conquistados. Não vamos permitir que ousem falar em defender o país e a população, quando apoiam um presidente genocida que matou mais de meio milhão na pandemia e que entrega de mão beijada o país para as empresas estrangeiras e para o imperialismo. Que joga o povo trabalhador cada vez mais na miséria e amargura. Fora Bolsonaro e Mourão, ditadura nunca mais!

Bolsonaro e o agora ex-ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva. Antônio Cruz/Agência Brasil

Os setores da burguesia e Bolsonaro

A necessidade de derrubar Bolsonaro é urgente. Perante essa necessidade, é um crime o que fez Lira e mesmo Maia, de travarem os muitos pedidos de impeachment. Enquanto Lira e os políticos foram jogando o impeachment para um amanhã que nunca chegou, Bolsonaro foi subindo o tom a cada semana, a ponto de agora convocar uma manifestação nacional explicitamente golpista. E o que fazem as instituições e os partidos dos setores da burguesia? Discursos bonitos em defesa da democracia como tem feito os jornais e a imprensa. Ou pedem prudência, como tem feito o PSDB e Doria, que disse que não tem possibilidade da PM se amotinar a favor de Bolsonaro. Ou se articulam, como fizeram os governadores, para dialogar com Bolsonaro.

Ou seja, todos fazem apelos se ancorando nos bons modos, na prudência, na moralidade. Como se fosse possível, por esses apelos, através do diálogo, dissuadir o projeto político do governo. Ou ainda, como se fosse possível, apelando pelo bom senso, constranger Bolsonaro a desistir do seu reacionarismo golpista. E assim ficam todos esperando que a democracia não saia dos trilhos, confiando na compostura do exército, da polícia militar e da cúpula das forças armadas.

Enquanto isso, a Associação Nacional dos Militares Estaduais do Brasil (Amebrasil) dá um chega-pra-lá nos governadores, dizendo que a PM seguirá o Exército em caso de ruptura institucional. Em São Paulo, um coronel foi afastado por incentivar a participação nas manifestações de direita. Ninguém sabe exatamente como esses setores vão se comportar. Hoje nenhum setor da cúpula do exército se pronuncia abertamente a favor de um golpe. Assim como também não acontece com a cúpula do mercado ou do capital.

Mas diante de um fato consumado, diante de um golpe, qual vai ser a postura de todos eles? Ninguém sabe. Então o que mais falta? A rejeição de Bolsonaro na sociedade já é gigantesca. O presidente já pediu o impeachment de dois ministros do STF, antes o Barroso e agora Alexandre de Moraes. Também falou, sobre o STF e TSE (Tribunal Superior Eleitoral), que a corda não está arrebentando, que “já arrebentou”. O que mais Bolsonaro precisa fazer para esse povo se mover e fazer algo?

Fica evidente que não é desses setores burgueses que virá a luta contra o golpe, não é dessas instâncias parlamentares e institucionais que virá a resposta que precisamos. Se o Congresso, por exemplo, fosse uma instituição que levasse adiante a vontade popular, que servisse aos interesses populares, o impeachment já teria sido levado adiante há muito tempo.

E a esquerda nisso tudo?

Perante essa necessidade urgente de derrotar Bolsonaro, o que tem feito a esquerda e a oposição? Até agora fizemos algumas manifestações contra Bolsonaro. Manifestações, no entanto, construídas à revelia de partidos como PT, PCdoB e mesmo setores do PSOL. Isso foi assim porque, por um lado, tentaram colocar um pé no freio das mobilizações, adiando a convocação de novas datas, e por outro nada fizeram para que a luta se massificasse.

A verdade é que participaram das manifestações na justa medida em que estas não saíam dos trilhos, e também com um pé já no barco das eleições de 2022. Ou seja, querem derrotar Bolsonaro eleitoralmente, e não agora. O que é um erro, não só porque até ano que vem tem muita água pra rolar em relação à pandemia, às mortes, surgimento de novas variantes de vírus. Mas inclusive porque isso dá tempo e espaço para Bolsonaro desenvolver seu projeto autoritário e ditatorial.

Esses setores depositam sua confiança em toda a burguesia enquanto iludem os trabalhadores. Confiam que a burguesia não vai deixar Bolsonaro se insurgir. Confiam que as forças armadas e os militares vão conter Bolsonaro porque não querem um golpe. Confiam que o capital será prudente. Confiam em tudo do pior que tem, e pros trabalhadores dizem que basta segui-los que estará tudo resolvido. Sendo que sequer há garantia de como serão as eleições ano que vem.

Em última instância, sua postura acaba tendo o mesmo efeito que os setores da burguesia e da grande imprensa que estão apenas fazendo apelos à democracia e ao diálogo. Isso é quase como dar a benção pros golpistas. Porém, ainda que apostem no bom senso dos outros atores políticos, não deveríamos lutar contra as ofensas ditatoriais mesmo assim? Nós precisamos de muito mais do que moções contra os ataques autoritários. É preciso derrubar Bolsonaro, antes que ele implemente ofensivamente seu projeto.

Lula e o PT estão costurando a frente ampla com os setores do centrão e da direita que hoje sustentam Bolsonaro. É com essa galera que a esquerda ousa apresentar uma “alternativa” pros trabalhadores e jovens. Com aqueles que seguem roubando, saqueando o país e enriquecendo os empresários.  Com aqueles que não tem nenhum pudor de apoiar uma ditadura, se isso os beneficiar de alguma forma.

A luta do povo pode deter a ameaça e derrubar o Bolsonaro

Não podemos ficar reféns disso, é necessário construir a nossa alternativa. Nós precisamos, portanto, tomar as ruas, precisamos nos levantar e reagir, senão estamos lascados. Ou nós lutamos para nos defender e enterrar o autoritarismo bolsonarista, ou ficamos vendo o bonde da história passar na nossa frente, porque a burguesia, a imprensa, o Congresso, a esquerda reformista, ninguém fará isso por nós. Precisamos derrubar já Bolsonaro, Mourão e todos aqueles que ameaçam nossas liberdades democráticas.