Chile: Diário de uma rebelião popular

David Espinosa, direto de Santiago

No primeiro relato que escrevi, expliquei um pouco sobre as origens do descontentamento social no Chile que levou à explosão social que eclodiu na última sexta-feira. Também relatei como foram os primeiros dias dessa verdadeira rebelião. O “oásis” de modernidade e estabilidade da América do Sul explodiu. O recado da população trabalhadora é claro: o tão celebrado modelo chileno neoliberal fracassou.

Neste segundo texto, quero contar como segue a rebelião entre domingo (20) e segunda (21). Depois escreverei outro sobre os eventos desta terça-feira.

Durante os processos revolucionários, ou rebeliões sociais, o tempo passa muito rápido. As coisas avançam de forma veloz, todos os setores sociais se movem, as contradições acumuladas saltam. O tempo das coisas já não se contabiliza no calendário eleitoral, os anos se transformam em horas, dias. No Brasil vivemos um pouco disso em junho de 2013.

A explosão social, que começou na sexta-feira à noite (18), em Santiago, logo se estendeu a dezenas de outras cidades. No domingo à noite já tomava quase todas as cidades do país, o governo já tinha anunciado o Estado de Emergência e ocupado as principais cidades com mais de 10 mil militares. Na noite do domingo, Andrés Chadwick, ministro do Interior, responsável pela repressão, anunciou medidas ainda mais duras para combater “os delinquentes” que estavam destruindo o país. O presidente Sebastián Piñera, também em seu discurso, disse que “estamos [suponho que o governo e os empresários] em guerra contra um inimigo poderoso, que está disposto a usar a violência sem nenhum limite“. Acertou. O inimigo é perigoso, é o povo encolerizado.

Também na televisão, uma importante representante do governo anunciava o aumento de número de mortos para 7 (segundo ela, todos ligados a incêndios em supermercados ou outras lojas). A noite/madrugada do domingo foi de conflitos, o número de mortos aumentou. Há inúmeros vídeos de militares e policiais espancando pessoas nas ruas durante o toque de recolher. Em um ou dois vídeos, os policiais aparecem literalmente sequestrando pessoas, colocando-as dentro de carros particulares e desaparecendo. A raiva nas periferias aumenta. Durante o toque de recolher, não há testemunhas, é a hora de cometer atrocidades.

Também no domingo à noite um importante comunicado começou a circular pela internet. As federações e sindicatos mineiros das principais minas do país anunciavam a intenção de entrar em greve. Como disse no outro texto, o Chile é um país mineiro, é o maior produtor de cobre do mundo. Sem cobre, não há Chile. Sem cobre, grande parte da economia não se move, as exportações diminuem drasticamente, não há dinheiro para o governo, nem para as Forças Armadas, já que a maior parte dos recursos dos militares vêm da empresa estatal Codelco. A entrada dos mineiros pode mudar o cenário. A rebelião social urbana pode ser combatida com polícia e exército… mas, como obrigar os mineiros, que produzem a maior riqueza do país, a trabalharem? E as greves mineiras em geral são um pouco complicadas para a polícia, já que os mineiros utilizam enormes máquinas (como tanques de guerra) para a extração dos minerais, administram explosivos, etc.

Em Santiago, a segunda-feira (21) amanheceu relativamente pacífica. A linha 1 do metrô estava funcionando, com problemas em algumas estações pontuais. Alguns poucos ônibus recorriam as ruas. O clima era de feriado, as escolas e universidades estão sem aulas. Muitas lojas e empresas não abriram. Os poucos supermercados que sobraram tinham filas em suas portas. A entrada das pessoas era controlada pela polícia – em alguns deles, entravam de 20 em 20. Nada de multidões dentro das lojas. Os postos de gasolina amanheceram com filas de mais de uma hora.

Os protestos começaram a partir do meio dia. Milhares de pessoas começaram a se aglomerar nas estações de metrô das periferias para dirigir-se ao centro. Por volta das 15h, a multidão começou a se concentrar na emblemática Plaza Itália e também na Plaza Ñuñoa, centro de uma comuna importante onde vive a classe média. Os poucos ônibus que passavam pela Alameda (principal avenida de Santiago) estavam repletos de gente. Muitos com as mãos para fora das janelas e mostrando cartazes. Às 16h já se concentravam centenas de milhares de pessoas nas duas praças. Nas ruas em volta à Plaza Italia, às margens, mas colados à multidão, vários grupos se enfrentavam com a polícia. No Centro Cultural Gabriela Mistral (GAM) alguns manifestantes se enfrentaram com os militares. Um vídeo exibido na televisão mostrava como um dos manifestantes quase chegou a tomar a metralhadora de um militar. Nessas enormes manifestações, as bandeiras de organizações políticas são ultramarginais. Há muitas pessoas com cartazes. O “Fora Piñera” já é de massas. Outro cântico muito divertido e que agita enormemente a multidão é o “El que no salta es paco!” (Quem não pula é policial).

Durante a enorme manifestação da Plaza Italia, um grupo de mais de 2000 manifestantes se dirigiu à parte rica da cidade. Caminharam, cercados por militares, até o metrô Escuela Militar, onde se concentraram até pouco depois do toque de recolher. O clima das manifestações foi, em geral, pacífico, se comparado à violência dos dias anteriores. Muitas batucadas, grupos musicais, famílias, crianças. Isso não significa que não houve bombas de gás lacrimogênio, jatos de água, etc. O toque de recolher chegou às 20h. Após às 20h, os militares começaram a repressão em todos os lugares onde havia concentrações, mandando as pessoas para casa. Os conflitos duraram algumas horas, mas a multidão se dispersou.

No resto do país, os conflitos continuaram. Milhares de jovens se enfrentaram durante todo o dia contra a polícia e, em algumas cidades, contra o Exército. Os restos de barricadas e pedras são visíveis por todos os lugares. Há lojas, agências de AFP e Bancos completamente destruídos. Muitos supermercados foram queimados e saqueados em todo o país, principalmente os das grandes cadeias. Em Valparaíso e outras 20 cidades os portuários entraram em greve contra o Estado de Emergência. No ano passado, os portuários de Valparaíso protagonizaram uma das mais importantes greves do país, com grandes enfrentamentos com a polícia e muita simpatia da população da cidade-porto. Alguns setores de caminhoneiros também paralisaram.

Em algumas cidades, a raiva se voltou contra os principais canais de televisão e jornais. “La Tele miente”, diziam muitos cartazes nas marchas. Alguns protestos foram realizados em frente às sedes desses meios de comunicação. Em Valparaíso, a sede do El Mercurio, principal jornal impresso do Chile foi incendiada. El Mercurio pertence à família Edwards, uma das famílias mais ricas do país e também uma das principais articuladoras do golpe militar de 73.

O cansaço da polícia já é visível. Em algum lugar da Plaza Itália, os cinegrafistas de Chilevisión filmaram um policial chorando e conversando com uma jovem. Em Concepción, uma bomba de gás lacrimogênio explodiu dentro de um furgão policial. A imagem dos policiais saindo rapidamente do furgão, quase vomitando e sem poder enxergar, correu o país. Provaram um pouco do próprio veneno que jogam, sem escrúpulos, nos manifestantes. Uma das piores sensações que já senti foi a de ser sufocado pelo gás lacrimogênio. Não poder respirar, estar cego, com o nariz escorrendo, quase vomitando. Aqui, o gás lacrimogênio não vem só das bombas, mas também é misturado com a água que jorra dos Guanacos, como são chamados popularmente os tanques lança-águas. Um dos cânticos comuns nas manifestações dos estudantes é “Uh Uh qué calor, el guanaco por favor“. Guanaco é o nome de uma espécie de lhama que vive nos Andes e cospe nas pessoas quando estas se aproximam. Daí o nome.

A noite da segunda-feira foi violenta, principalmente nas periferias. A imagem de “tranquilidade” e alegria da Plaza Itália ou da Plaza Ñuñoa muda de noite e nas periferias. Longe da multidão, a polícia e os militares matam, atropelam e espancam pessoas que andam pelas ruas. O ódio contra os pobres, os “deliquentes”, sempre lhes foi estimulado pela oficialidade privilegiada. Segunda-feira, já eram 15 mortos, 4 oficialmente reconhecidos como assassinados pela polícia ou militares. São 2.643 presos. Já há várias denúncias de abusos sexuais. Centenas de feridos. Para as pessoas que não acreditam nesses dados, basta buscar informações nos próprios meios de comunicação chilenos (biobio.cl, instagram piensa prensa (alternativo), latercera.com).

Em sua declaração nessa segunda-feira, o governo teve que mudar seu discurso. Já não falou mais em “guerra”, mas sim em ser duro contra os delinquentes. Ainda não entenderam que todos somos delinquentes. O inimigo perigoso de Piñera é o povo na rua. O governo já chama a todos os partidos a fazer um grande pacto nacional. O Parlamento aprovou, em regime de urgência, a diminuição do preço da passagem. Enquanto os parlamentares aprovavam a redução do preço da passagem, ninguém comemorava. As pessoas nem se lembravam que o Parlamento existia e que a luta se tinha se iniciado pelo preço da passagem. Como disse no outro texto, a luta é por dignidade.

Texto escrito por David, um ativista em meio à rebelião