Cartas do Haiti II: Clinton, Soros… e o Haiti

O carro anda lentamente pelas ruas de Porto Principe. Estou voltando da entrevista com operários dirigentes da greve de agosto. Ainda soam em meus ouvidos suas palavras em creole, seus gestos decididos.

No caminho, Didier Dominique, de Batay Ouvriyé me leva até a Zona Industrial onde tudo começou. Muros altos separam uma área enorme das ruas. Ali está instalada a “indústria da agulha”, como eles chamam, porque inclui a têxtil propriamente dita, além da confecção de bolas de futebol e tênis. É hora da saída dos trabalhadores e uma multidão invade as calçadas, se amontoam nos tap-taps, caminhonetes que fazem o transporte urbano aqui.

Logo depois, aparece outra área enorme, também cercada de muros altos, em que será construída uma zona franca. Uma placa enorme diz “Aqui está o futuro do país”. Quem financia este projeto da zona franca é um grande expoente da burguesia mundial, nada menos que George Soros, o mega especulador.

O gerenciador de todo este plano de investimento na indústria é Bill Clinton. O ex- presidente dos EUA foi nomeado “enviado especial da ONU” para o Haiti. Já esteve no país por duas vezes só em 2009. Na verdade, ele é o posto avançado de uma operação econômica de importância para o imperialismo.

A lei Hope, votada em 2005 por três anos, torna as indústrias têxteis estabelecidas no Haiti livres de todos os impostos, tanto para a produção nesse país (inclusive do pagamento do terreno, luz e água), como para exportação para os EUA. A lei Hope 2, agora por dez anos, foi sancionada por Obama, que tem Hilary Clinton como secretária de estado.

Não existe “filantropia” para o imperialismo, menos ainda para quadros do peso de George Soros e Bill Clinton. Existe uma operação de importância para o imperialismo com a indústria têxtil no Haiti, com os menores salários do continente e bem próximo dos EUA.

Lula foi subserviente a Bush, quando ele pediu que o Brasil chefiasse as tropas de ocupação no Haiti. Agora é um instrumento de Clinton, que hoje é o chefão no Haiti.
Vejo os operários saindo do trabalho na zona industrial. Lembro das palavras dos grevistas que me deram a entrevista contra a Minustah.