Flavia Bischain, moradora e professora na Brasilândia; e Marina Dias, estudante e militante do coletivo Rebeldia

A Brasilândia, bairro da Zona Norte de São Paulo, ganhou espaço no noticiário nacional nas últimas semanas. Infelizmente por uma triste razão.

Aqui no sétimo distrito mais populoso da capital e um dos mais negros[1], onde vivem 264.918 pessoas, se concentra a maioria das mortes pelo novo coronavírus na cidade: 103 óbitos no momento em que escrevemos, 4 de maio.

Uma tragédia anunciada

Esses dados causam indignação, mas não surpresa. Como relata a moradora e ativista cultural Sonia Bischain:

“O vírus chegou ao Brasil trazido por pessoas que puderam se tratar em hospitais particulares. Agora, chegou nas periferias da cidade e está lotando os hospitais públicos, que sempre foram incapazes de atender com eficiência essas populações”.

De acordo com os dados do IBGE (2018), a Brasilândia possui apenas 0,011 leitos hospitalares em uma proporção ideal de 2,5 a 3 leitos. E até agora, a entrega do Hospital Brasilândia continua sendo uma promessa de quase 40 anos sem ser cumprida. A data de finalização da obra foi postergada novamente pela prefeitura, desta vez para dezembro deste ano. O prefeito promete entregar apenas 150 leitos neste mês, para atender um universo de mais de 300 mil moradores da região. Ou seja, se depender dele, podemos nos preparar para um massacre.

Muitos já estão morrendo sem que as famílias tenham a confirmação da doença, devido à falta de testes. No “nobre” Morumbi, um condomínio fez parceria com um laboratório e está testando todos os moradores, até quem não está doente. Mas e quem mora na periferia? Aqui, quando algum morador apresenta os sintomas, vai em um dos 17 postos de saúde e é mandado de volta para casa fazer a quarentena sem testagem.

“É difícil para eles acreditar num inimigo invisível”

Os problemas não param por aí. “As dificuldades são muitas. Na periferia, muitos são trabalhadores informais, autônomos, sem vínculos com empresas, sem renda fixa. São camelôs, pedreiros, diaristas, artesãos, catadores de reciclados, funcionários de pequenos comércios nas periferias. Essas pessoas, sem renda, sem trabalho, não têm como garantir o isolamento social.” Os dados oficiais sobre a região confirmam o que Sonia diz: menos de 5% dos que trabalham têm emprego formal[2].

A mídia e o governo culpam a população pelo baixo índice do isolamento social nas regiões mais pobres. No entanto, apesar de prorrogar a quarentena para o dia 15 de maio, o governador João Doria (PSDB) continua sem apresentar condições reais para que a maior parte dos trabalhadores e moradores da periferia possam se manter em casa. As contas não param de chegar e as famílias se preocupam em como colocar a comida na mesa. O resultado são ruas cheias e trabalhadores buscando sua renda.

“As pessoas que trabalham em fábricas, call centers, comércio, área da saúde, serviços que não puderam parar, continuam expostas, circulando, tendo que usar o transporte público. Os jovens, muitos desempregados desde antes, circulam pelos bairros, se reúnem. É difícil para eles acreditar num inimigo invisível”, diz Sonia.

A própria dinâmica da vida faz com que muitas pessoas tenham uma relação diferente com a morte. O Estado alimenta isso com polícias que atuam de tal forma que à violência dos criminosos, se soma a violência do governo. Não é difícil saber que nós trabalhadores saímos perdendo em qualquer caso. Agora, Doria fala em reprimir a população para impor o isolamento, mas não proíbe as empresas de demitirem, nem as obriga a parar a produção mantendo os salários integrais.

Nem a segurança alimentar da população é garantida. Tanto o prefeito Bruno Cova (PSDB), quanto Doria se negaram a pagar auxílio-merenda para todos os estudantes da rede pública. Só liberaram o benefício para as famílias que ganham Bolsa Família ou estão inscritas no Cadastro Único do Governo Federal (o que equivale a cerca de 20% dos alunos). Além disso, o valor de R$ 55,00 nem de longe é o suficiente para pagar a alimentação de uma criança por um mês. Só para se ter uma ideia, segundo os estudos do Dieese, o valor da cesta básica em São Paulo atingiu R$ 519,00 no mês de março. A fome já é uma dura realidade nas periferias. Não há dúvidas, quando Doria vai à imprensa dizendo que a vida vem em primeiro lugar, não é da nossa vida que ele está falando.

Doria e Bolsonaro não são muito diferentes

Nesse sentido, apesar dos diferentes discursos, Doria tem mais semelhanças com Bolsonaro do que se diz por aí. Ambos são nossos inimigos e não poupam cinismo em seus discursos frente à pandemia

O primeiro fala em quarentena, mas não garante as condições reais para que ela aconteça. O segundo, diz que está preocupado com o desemprego, mas aproveita a pandemia para aprovar medidas que facilitam as demissões e retiram direitos, como a MP 905, que já afetou mais de 1 milhão de trabalhadores com suspensão de contratos ou redução de salários.

Ao afirmar que a pandemia é só uma “gripezinha” e que o comércio e as escolas devem voltar a funcionar, Bolsonaro escancara seu projeto de genocídio da classe trabalhadora e do povo pobre de nosso país. Nos vê como carne pro abate, afinal, alguns têm que morrer pra “economia não parar”. Não serão os familiares, nem os amigos ricos do presidente. E não é porque estão em forma.

É que pra eles não faltarão testes, nem médicos, nem leitos nas UTIs.  Para nós, restará velar os mortos no caixão lacrado. A luta pela quarentena real, com proteção social, estabilidade nos empregos e renda, segurança alimentar e isenção das contas de água, luz e gás é uma necessidade urgente para impedir milhares de mortos nas periferias.

Nós por nós

Dada a situação de tantas incertezas que a periferia vive todos os dias, os moradores têm se organizado em diversas iniciativas de solidariedade. Assim como os exemplos divulgados em Paraisópolis (Zona Sul), aqui na Brasilândia muitos grupos e coletivos estão se envolvendo em ações auto-organizadas. Em uma rua do Jd. Guarani, por exemplo, os moradores mapearam os locais em que estava faltando água, criaram um grupo de whatsapp e obrigaram a subprefeitura a disponibilizar caixas d’água.

Frente às dificuldades do isolamento social, um grupo de psicanalistas, criou um “ponto de escuta”, um espaço virtual de acolhimento gratuito aos moradores da Brasilândia. Nas escolas, professores têm se organizado para apoiar quem teve corte de salário ou de benefícios (como os professores eventuais e das merendeiras, por exemplo).

Muitos grupos culturais, como o Sarau da Brasa e o Samba do Congo, também têm tido iniciativas nesse sentido. Sonia, que atua com eles, conta que: “As ações, e pedidos de colaboração e participação, são divulgadas nas redes sociais e têm sensibilizado muitas pessoas, movimentos sociais, coletivos, moradores da região, e de vários bairros da cidade, etc. Iniciamos uma campanha de arrecadação de alimentos e produtos de higiene e limpeza e também doações em dinheiro que utilizamos para comprar cestas básicas em comercio local. Já conseguimos distribuir 120 cestas entre famílias da Brasilândia e famílias da Aldeia Guarani, no Jaraguá.  Cadastramos algumas famílias, e um grupo de colaboradores faz as entregas em um pontos específicos, com todos os cuidados recomendados para evitar a disseminação do vírus.  Pretendemos, na medida do possível, continuar essa campanha durante todo o tempo que durar a quarentena”.

Os burgueses que lutem

Se esses exemplos nos mostram a capacidade de auto-organização e de solidariedade da nossa classe, também nos mostram que só podemos contar com nossas próprias forças. Devemos exigir tudo o que os poderosos nos negam. A situação mais confortável para Dorias e Bolsonaros é deixarmos fingirem que nós não existimos.

Ao mesmo tempo, não podemos esquecer que o descaso com as vidas periféricas não é novidade. Em condições normais, o Estado já nos nega as mais básicas condições de existência, manda matar e criminaliza a juventude negra e desmonta os serviços públicos. Esse Estado, controlado por uma minoria para servir essa mesma minoria, não nos serve. Nunca serviu.

Precisamos nos organizar na periferia para realizar todas as ações de solidariedade que forem necessárias, mas também para construir uma saída definitiva dessa sociedade que consome nossas forças e não garante nossa sobrevivência. A solução está fora do sistema, exige a defesa do socialismo, de outra sociedade e da revolução.

Isso significa, por exemplo, discutir como colocar em xeque o acesso à terra, tanto urbana quanto rural, aos interesses de grandes latifundiários, empreiteiros, construtoras e bancos. É o interesse do lucro que torna a moradia uma questão tão penosa na Brasilândia.

Já que faltam leitos para os nossos doentes, por que não exigir que o Estado tome os leitos dos hospitais privados? É questão de vida ou morte. Outra questão é garantir fila única para os testes, sem que fiquemos para trás.

Não vamos trocar nossas vidas pela economia dos ricos. Não queremos simplesmente mais Estado, queremos o controle do Estado. E a burguesia que lute.

[1] http://www.saopaulodiverso.org.br/dados-sobre-sao-paulo/

[2] https://exame.abril.com.br/brasil/em-brasilandia-area-de-sp-mais-afetada-pela-covid-19-isolamento-e-luxo/