Empresários de Campina Grande (PB) obrigam trabalhadoras a suplicar de joelhos a reabertura do comércio

Alice Maciel, militante do PSTU e ativista do Movimento de Mulheres em Luta (MML) da Paraíba

Atravessamos um momento complicadíssimo em nossa sociedade, de dimensões globais. A Covid-19 que acomete o planeta em proporções jamais vistas pela atual geração se espalha em uma velocidade surreal e, para minimizar os efeitos pandêmicos, autoridades de todo o mundo decretaram isolamento social, o que significa paralisação de todas as atividades não essenciais, visando minimizar os efeitos catastróficos da doença. Mas como bem sabemos, o capital não se satisfaz com a mão de obra paralisada. Mão de obra parada não gera lucro.

Na última segunda-feira (27/04) observamos a vergonhosa ação dos empresários de Campina Grande (PB), que não contentes em promover as “carreatas da morte”, contra o isolamento social, se superaram obrigando seus funcionários a suplicar, de joelhos e com suas roupas de trabalho, pela reabertura do comércio no centro comercial da cidade. Na sequência do evento houve várias denúncias sobre a coação sofrida pelos trabalhadores e, a partir da repercussão, o Ministério Público resolveu investigar essa deprimente situação.

Chamamos atenção para um detalhe marcante nessa história, a maioria das pessoas ajoelhadas eram mulheres. E o que isso representa?

A nós evidencia, mais uma vez, qual papel a mulher cumpre no seio da sociedade capitalista, colocada como base da pirâmide, responsável por carregar os tijolos dos “provedores”. Somos maioria em várias atividades econômicas, contudo estamos sempre colocadas dentro de um papel de subordinação ao “senhor”, quer seja no comércio, quer seja em casa.

No comércio recebemos os piores salários, temos as piores condições e somos as que sofrem as piores humilhações, como na situação da cidade de Campina Grande. Em diversas situações, além da jornada de trabalho fora de casa, ainda temos as demandas domésticas que, historicamente, são colocadas como nossa função. “É nossa função” ter e cuidar dos filhos; “é nossa função” organizar a casa e fazer comida. Temos jornadas triplas de trabalho, mas recebemos o mínimo de subsídio (quando recebemos).

Nesse período de pandemia essa discrepância social é evidenciada ainda mais. Somos obrigadas a permanecer trabalhando nas casas de família enquanto eles seguem seu isolamento, somos as primeiras cotadas para perderem os cargos de trabalho, somos as primeiras que sofrem com as reduções salariais, sofremos com o aumento da violência doméstica e do feminicídio e aqui, o cúmulo da humilhação, da manipulação da fé que nos subjulga e promove o aumento da vulnerabilidade.

É preciso dar um basta nessa desigualdade e evidenciar para a sociedade, de uma vez por todas, que essa polarização de gênero atende apenas aos interesses do capital, que utiliza a opressão como ferramenta de manutenção da sua lógica de castas. Ainda mais nesse período de pandemia, onde estamos morrendo aos montes.

É preciso compreender também que somente as atividades essenciais devem funcionar nesse momento que ainda não chegamos ao ponto máximo de contaminação no Brasil. Não podemos fingir que estamos no mesmo nível de países que já passaram e podem afrouxar o isolamento sob pena de aumentarmos o colapso do sistema de saúde e o aumento do número de mortes. Temos muitas pessoas morrendo por falta de respiradores e outras passando fome e desespero por uma ajuda que não chega e acaba por levar as pessoas às ruas.

O isolamento social é, no momento, a única ferramenta de que dispomos para fazer frente ao Covid-19, porém o Estado tem de fazer sua parte, dar condições dignas para que todas/es/os possam fazê-lo. É necessário que o Estado arque com sua responsabilidade e proporcione ao trabalhador condições dignas de poderem se manter em isolamento social, sem prejuízo de manutenção da vida. É necessário que o governo realize o pagamento do auxílio emergencial aos trabalhadores, que já não é um valor suficiente, com a mesma velocidade com que destinaram trilhões aos banqueiros ( mostrando que a prioridade desse governo não é salvar a vida dos trabalhadores, nem as pequenas empresas que são as maiores empregadoras em nosso país, mas tornar mais ricos os que já estão no topo da pirâmide).

Não podemos mais ficar caladas, devemos nos unir, homens e mulheres, para exigir uma sociedade socialista onde a igualdade de gênero e racial seja real, onde todos  tenhamos nossos direitos assegurados, direito a vida, aos nossos corpos, a salários iguais para trabalhos iguais, a divisão de responsabilidades, saúde, educação, segurança. Temos muito a lutar neste contexto pois o capitalismo nos mata e escraviza.

Quebrar o isolamento social é igual a pedir para morrer, lembrem que nosso sistema de saúde está longe de fazer frente às necessidades dos brasileiros. Procurem ficar em casa, se tiverem de sair usem máscara todo o tempo. Não podemos esquecer que atualmente estamos com uma alta taxa de contaminação, cada pessoa contamina três pessoas.

Não podemos mais tolerar um presidente que ri do sofrimento de seu povo, de ministros mais preocupados com o capital do que com a saúde e a vida de seu povo.

Fora Bolsonaro, Mourão e Guedes!