Bancos entram na mira das manifestações no Líbano

    Na tarde de hoje a polícia libanesa usou bombas de gás e bala de borracha para dispersar uma manifestação em frente ao Banco Central do país. Os manifestantes revidaram com pedras e fogos de artifício. Bombas de gás foram arremessadas de volta e várias fachadas e caixas-eletrônicos foram destruídos e alguns bancos estão sendo ocupados. Desde ontem ruas estão sendo bloqueadas com barricadas e pneus em chamas. “A revolução está voltando”, gritam os manifestantes.

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    Os protestos no Líbano começaram em outubro do ano passado após uma tentativa do governo de taxar ligação por aplicativos como WhatsApp. Esse foi o estopim para expressar uma raiva que se acumulava contra um longo e profundo processo de primitivação dos serviços básicos e do desgaste dos partidos do regime envolvidos em inúmeros casos de corrupção. Um exemplo disso foi a incapacidade do governo em reagir aos incêndios que destruíram florestas libanesas porque o dinheiro para a manutenção da frota de helicópteros havia sido desviado.

    Meses de protestos

    Na esteira desse processo, o então primeiro-ministro Saad Hariri renunciou ao cargo, embora permaneça como interino. Diante dessa crise todas as tentativas de se formar um novo governo fracassaram. Nem o parlamento conseguiu dar uma resposta emergencial às reivindicações populares.

    Para piorar a situação, a libra libanesa sofreu forte desvalorização (cerca de 60%), principalmente no mercado paralelo. A população já começa a sentir os efeitos da inflação em uma das piores crises econômicas do país em décadas. Isso tem levado uma corrida aos bancos para saques de dinheiro. Estima-se que os depósitos bancários tenham se reduzido a 50%. Os bancos reagiram taxando os saques em dólares e limitando movimentações financeiras para o exterior. A população acusa os bancos de se apropriarem de suas reservas já que agora são obrigados a negociar em libras libanesas.

    Entenda

    Desde a guerra civil Libanesa (1975-1990), os principais cargos do regime são distribuídos de acordo com os grupos religiosos do país. O presidente da república deve ser cristão maronita; o primeiro-ministro deve ser muçulmano sunita, e o presidente do parlamento, muçulmano xiita. Cada um desses cargos acaba sendo controlados por sensores da guerra (de difícil comparação, mas algo como o coronelismo brasileiro só que formado durante a guerra civil) e seus apadrinhados. Desde outubro, contudo, quando os protestos começaram, a população pede o fim do regime sectário e a formação de um governo independente.