No sábado (08), centenas de manifestantes ocuparam a Av. Paulista, em São Paulo, em protesto contra a Chacina do Jacarezinho. O ato, convocado pela Coalização Negra Por Direitos, contou com a participação de diversos movimentos, partidos, ativistas e gente da população em geral, que foram expressar sua revolta pela operação criminosa da polícia do Rio de Janeiro (leia o artigo Jacarezinho: A maior chacina da polícia na guerra aos pobres e negros no RJ).

Um grito contra o genocídio do povo negro, por Covid ou na ponta do fuzil

A manifestação começou no vão do Museu de Arte de São Paulo (MASP), às 17horas, e, depois, caminhou até a Praça do Ciclista, onde se encerrou, às 20horas. Durante este tempo, muitas intervenções pintaram em cores vivas o massacre de negros e negras nas periferias.

Na véspera do Dia das Mães, a fala de Dona Zilda, uma das líderes do movimento Mães de Osasco, emocionou a todos os presentes. “Eu passei isso que as mães lá de Jacarezinho estão passando… A nossa identificação pra eles [os governantes] é só o título de eleitor. As vidas negras não importam”, disse emocionada, lembrando que seu filho foi um dos 18 assassinados por policiais militares, em 2015, na região de Osasco e Barueri.

Como lembrou João Pedro, militante do PSTU (SP), falando em nome do movimento Quilombo Raça e Classe, filiado a CSP-Conlutas, “no Brasil se mata pela bala e pela falta da vacina”. De fato, a maioria das vítimas da COVID-19 no Brasil é formada por moradores das quebradas e favelas, em geral negros e negras, trabalhadores que já sofriam com o racismo dos governos burgueses e, hoje, enfrentam o risco permanente da contaminação ao sair para trabalhar, já que nunca tiveram a devida assistência econômica.

Uma lamentável face do racismo comprovada por duas pesquisas lançadas em abril passado. Segundo o Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde, da Pontifícia Universidade Católica (Rio), enquanto 55% de negros morreram por Covid, a proporção entre brancos foi de 38%. Já o Instituto Polis mostrou que a taxa de óbitos por Covid-19 entre negros, na capital paulista, foi de 172/100 mil habitantes; enquanto, para brancos foi de 115 óbitos/100 mil habitantes.

Uma discriminação que também se expressa em relação à vacinação. Segundo uma reportagem realizada pela agência “A Pública”, em 15/03/2021, há uma enorme discrepância entre brancos e negros vacinados: 3,2 milhões de pessoas que se declararam brancas receberam a primeira dose do imunizante contra o novo coronavírus; já entre os negros, esse número cai para 1,7 milhão.

Fato destacado por Vera, ex-candidata à presidência pelo PSTU, no início de sua fala no ato. “Nós, mães da classe trabalhadora e mais pobres, já temos chorado demais. Nós choramos a morte dos nossos filhos assassinados… Nós choramos a morte dos nossos filhos que são levados pela COVID-19 sem nenhum tipo de assistência”.

Os governantes são os mandantes

Vera também apontou para aqueles que estão por trás deste genocídio constante. “O Estado brasileiro mata, assim como mata o Estado na Colômbia. O Estado é assassino, não confiemos a ele as nossas vidas (…). Nós precisamos garantir que, nos morros, favelas e periferias, tenhamos direito à vida. E para ter direito à vida, nós vamos ter de nos organizar contra o Estado assassino”.

O governo do Rio, chefiado por Cláudio Castro (PSC) após o impeachment de Wilson Witzel, foi duramente criticado pelos manifestantes. Como seu antecessor, Castro defende sem restrições esse tipo de ação das polícias, sintetizada numa asquerosa declaração dada por seu antecessor, em 1º de maio de 2018: “A polícia vai fazer o correto: vai mirar na cabecinha e… fogo! Para não ter erro.”

Exatamente como a postura de miliciano, defendida por seu aliado político, o genocida Jair Bolsonaro, algo mais uma vez enfatizado, desta vez por seu vice, o general Hamilton Mourão, que, na sexta, dia 7, parabenizou a ação covarde da Polícia Civil do Rio, afirmando que as vítimas são “tudo bandido”.

Nós vamos ter que nos organizar contra os seus mandantes [da chacina], que são o prefeito do Rio de Janeiro, o governador do Rio e é Bolsonaro, que tá fazendo o que mais gosta: matar. A sua especialidade é matar, através da COVID e através dos seus parceiros milicianos”, disse Vera sob aplausos.

PM agride e detém dois jovens

Após a concentração no vão do MASP, o ato seguiu pela Paulista, parando na frente do prédio da Justiça Federal, onde foram acesas velas em memória das vítimas do Jacarezinho. Ao longo do trajeto, inclusive, alguns dos seus nomes foram falados ao microfone, como um esforço de combater a desumanização que apresenta todos simplesmente como “criminosos”.

Próximo ao final, dois jovens foram detidos pelo 7º Batalhão de Forças Especiais (BAEP) e encaminhados à Delegacia de Polícia dos Jardins. Segundo informações da Ponte Jornalismo, ambos são moradores da periferia, na Zona Sul, e participavam do ato para registrar imagens para seu blog.

Em determinado momento, ao tentar tirar fotos das viaturas, foram xingados pelos policiais, ao que responderam. Em seguida, ambos levaram socos, “gravatas” e foram jogados no camburão. Foram liberados somente às 5horas da manhã, após a ação de defensoras públicas e organizadores do ato.

Como se vê, a polícia burguesa nunca perde a oportunidade de mostrar seu ódio ao povo.

Nos aquilombarmos para conquistar justiça e paz

Em sua fala, Vera lembrou que, agora, é hora de nos indignarmos e mostrarmos solidariedade aos mortos, seus familiares e amigos. Mas é preciso pensar no futuro, para que cenas terríveis como as vistas no Jacarezinho não se reproduzam.

“[Precisamos] nos organizar. Precisamos de auto-defesa e auto-organização, porque só a nossa classe será capaz de garantir a sua paz, porque o temos até hoje é o terror, é a morte, é a falta de condições, é o desassossego (…). No morro só tem ditadura. No morro não existe paz nem democracia. O que existe lá é o terror, da polícia e das milícias. O que existe lá é a miséria e a fome. O que existe lá é a ditadura e nós precisamos garantir a democracia da classe operária e da classe trabalhadora mais empobrecida deste país”, concluindo que um passo fundamental e imediato para isto é colocar para fora Bolsonaro, Mourão e Castro.

Uma luta que, particularmente para nós, negros e negras, tem um importante marco ainda esta semana, no dia 13 de maio. É preciso reforçar esta data, não como símbolo de nossa libertação, mas como referência da necessidade de conquistarmos a liberdade, a igualdade e a justiça que nunca foram (nem serão) garantidas pela burguesia.

Algo que só conquistaremos com verdadeiras reparações, não só em relação aos séculos de escravidão, mas também em relação a todo o racismo e crimes cometidos pelos que nos exploram e oprimem. Reparações que só serão possíveis quando os trabalhadores, aqueles e aquelas que produzem toda a riqueza, governem juntamente com negros, mulheres, LGBTIs e todos os explorados e oprimidos.