Asimov vive: cem anos do maior escritor de ficção científica e seu legado para a ciência e as artes

Rodrigo Barrenechea

Tirando os remakes e spin-offs de Guerra nas Estrelas e Jornada nas Estrelas, a ficção científica do século XXI é muito terrestre e pouco alienígena. Um pouco disso se deve ao fim da Guerra Fria, e com isso, à diminuição notória da “corrida espacial” – a cada ano que passa, os lançamentos de foguetes servem mais para colocar satélites em órbita do que para lançar sondas que nos permitam conhecer melhor o universo. No capitalismo de hoje, telefonia celular é mais importante do que saber se há planetas habitáveis fora do sistema solar. No entanto, se pensamos em conhecer o espaço e em usar máquinas inteligentes para isso, devemos muito a Isaac Asimov.

Nascido na Rússia Soviética e criado nos Estados Unidos, Asimov nasceu em 2 de janeiro de 1920. Como chegou ainda bebê aos EUA, nunca aprendeu a falar russo. Apaixonado por ciências desde jovem, largou a faculdade de biologia (em protesto contra a dissecção de um gato numa aula de anatomia) e foi estudar química. Mas, ainda jovem, na onda dos pulps (revistas baratas de contos de mistério e ficção científica), começou a escrever contos.

As três leis da robótica
Nessa época, os pulps publicavam contos de ficção normalmente associados a invasões alienígenas à Terra, majoritariamente de marcianos – sem que se tivesse ideia de que Marte não era capaz de abrigar vida orgânica. Mas Asimov começou a subverter essa noção. Seus primeiros contos traziam um elemento já conhecido, o de máquinas inteligentes, então chamados de “autômatos”, mas ele nomeia sob um rótulo novo: robôs.

O termo vem de rabot, trabalhador em diversas línguas eslavas, incluindo russo. A primeira vez em que o termo apareceu foi em 1920, numa peça chamada R.U.R., do dramaturgo tcheco Karel Čapek, em que há uma máquina com formato humano. Fritz Lang, em “Metropolis” (1927), leva os robôs ao cinema. Asimov, por sua vez, não criou o termo; mas quase tudo o que pensamos e sabemos de robôs vem de seus contos e livros. É dele de que vêm a ideia de que robôs servem para fazer trabalhos que os humanos não conseguem realizar, por seu perigo ou penosidade. E é dele o primeiro conjunto de normas de comportamento dos robôs. Um primeiro código de ética robótico. São as “três leis da robótica”.

  1. Um robô não pode ferir um ser humano, ou, por omissão, permitir que um ser humano seja ferido.
  2. Um robô deve obedecer às ordens recebidas dos seres humanos, a não ser no caso de estas ordens entrarem em conflito com a Primeira Lei.
  3. Um robô pode proteger a sua própria existência, contanto que tal proteção não entre em conflito com a Primeira ou Segunda Leis.

Por quase toda sua vida, Asimov escreveu sobre robôs. Em seus vários contos (reunidos em coletâneas como “Eu, robô” e “Nós, robôs”) e nos livros da série protagonizada pelo detetive Elijah Bailey e pelo robô R. Daneel Olivaw, ele nos traz um mundo onde robôs deixam de ser ameaças à civilização ou à humanidade (como o androide Gort de “O dia em que a Terra parou”) para serem assistentes e mesmo amigos dos seres humanos. Obviamente que as três leis nem sempre funcionavam bem: isso, por si só, já garantia material de enredo para diversos contos, muitos deles protagonizados pela roboticista Susan Calvin, uma especialista em robôs que acabou se identificando mais com seus objetos de estudo que com os próprios seres humanos.

Nem todos os escritos de Asimov eram sobre robôs, obviamente. Ele escreveu uma série de livros curtos, para consumo de jovens e adolescentes, sob pseudônimo. Lucky Starr, personagem principal deles, era um aventureiro que defendia a Terra das ameaças que punham o planeta em perigo. Porém, como nos escritos sobre robôs, nada de supervilões. O que ameaçava a Terra eram ou fenômenos naturais, como cometas, ou a própria ganância humana. Definitivamente Asimov não seguia o cânone usado pelos autores de Histórias em Quadrinhos como Bob Kane e Jerry Siegel, criadores de Batman e Super-Homem, respectivamente.

Ilustração de Asimov: Bíblia, satélites e ciências em suas palavras

A Enciclopédia Galáctica
Asimov se notabilizou por outra série, “Fundação”. Na verdade, uma derivação de suas histórias sobre o Império Galáctico, que teria espalhado a humanidade pelos quatro cantos da Via Láctea após os seres humanos terem abandonado a Terra num dado momento da História. O Império, que já durava milênios, entra em crise, e uma das personagens mais interessantes do elenco de Asimov propõe uma solução. Hari Seldon – uma espécie de alter ego do próprio autor – estabelece que o fim do Império é inevitável e que seria necessário criar uma “Fundação”, com a responsabilidade de produzir um compilado do conhecimento humano já produzido, a “Enciclopédia Galáctica”. Na verdade, a Fundação seria um núcleo de pensadores que faria uma transição suave para o Segundo Império Galáctico, diminuindo o intervalo de caos para apenas mil anos. Essas descobertas teriam sido feitas por Seldon através da “Psico-História”, uma ciência estatística que permite, em certa medida, prever o futuro.

Os temas abordados em “Fundação” – crise civilizatória, papel dos intelectuais na política, expansionismo colonial –, apesar de estarem em sintonia com as preocupações presentes em tempos de Guerra Fria, transcendem-na. A ideia de uma decadência da civilização humana (estranhamente apenas humana – robôs e alienígenas pouco ou nada participam desse arco temático), que seria revertida pelo planejamento científico e, de alguma forma, enfrentando-se com os interesses de políticos mesquinhos, é presente até hoje, em tempos de pós-verdade e de irracionalismo anticientífico.

Além dos livros de ficção (que não ficaram apenas nos temas acima), Asimov escreveu não-ficção. São perto de uma centena os livros de divulgação, que envolviam diversos assuntos: Biologia, Genética, Astronomia, Geologia, História e muito mais. Asimov era um apaixonado pelas grandes civilizações do passado, tendo escrito sobre Fenícios, Gregos, Romanos, Egípcios e outros tantos. Estudioso de religião, escreveu um “Guia Asimov sobre a Bíblia”. Considerado um narcisista egocêntrico, escreveu simplesmente três autobiografias. Uma de suas obras mais interessantes são as “100 perguntas básicas sobre Ciência”, antecedidas do singelo cabeçalho “Asimov explica”. Fundou uma revista de ficção científica, um tanto parecida com as que escrevia na juventude, a Asimov’s Science Fiction, também publicada aqui no Brasil.

Um homem de seu tempo
Evidentemente que Asimov foi uma pessoa de seu tempo, com seus erros e preconceitos. Geralmente assumia posições políticas conservadoras, mas, em geral, pouco se envolvia com a política de sua época. E cometeu erros, como julgar que no fim do século XX já teríamos carros voadores, o que não temos nem agora no século XXI. No entanto, apresentou preocupações interessantíssimas, como a relação entre feminismo e crescimento populacional desordenado. Numa entrevista nos anos 1980, afirmou: “Gostemos ou não de admitir, a mulher continua sendo, do ponto de vista cultural, econômico e social, uma máquina de fazer crianças, e enquanto não a permitirmos fugir desse papel histórico não podemos pretender seriamente reduzir as taxas de crescimento da população mundial”. Em outra série de artigos, publicada em 1964, e que previa o mundo 50 anos depois, ele acerta no uso de TV’s de tela plana, microchips, fornos de micro-ondas, apesar de que não com os nomes que os conhecemos atualmente.

Em 1983, Asimov sofre um enfarto, e precisa fazer uma cirurgia de emergência. Ao fazer uma transfusão de sangue, é contaminado com o HIV. Passa quase 10 anos com AIDS sem revelar ao mundo, morreu em 1992 por complicações da doença. Só em 2002 que a família resolve divulgar a causa da morte. Ele teria sido convencido a não falar nada, em função do preconceito com a AIDS. Nesse caso, deve ter ficado bastante contrariado: não era uma pessoa de se curvar a pressões, e fazia piada de suas manias e limitações, como não saber nadar, andar de bicicleta e gostar de lugares apertados. E passou os últimos anos de sua vida em intensa atividade, editando a revista e escrevendo livros e artigos. O “Breve Século XX”, do qual nos fala o historiador Eric Hobsbawm, teve Asimov presente em sua maior parte, para nosso benefício.