Lula e Arthur Lira Foto Ricardo Stuckert/Divulgação

Que o PT preparava uma frente amplíssima com os partidos do chamado “centrão” e a direita para compor o futuro governo, não era novidade para ninguém. Mas o que alguns não poderiam prever era que essa frente fosse tão ampla que abarcasse até o principal nome do bolsonarismo na Câmara dos Deputados, o atual presidente da Casa e candidato à reeleição, Arthur Lira (PP-AL).

O anúncio do apoio da federação liderada pelo PT e PSB à candidatura de Lira se deu nesta semana, sob o argumento de que o nome forte de Bolsonaro já estava praticamente eleito, e seria inútil enfrentá-lo. Sua vitória “já está praticamente garantida”, sentenciou o deputado Carlos Zarattini, do PT-SP.

Arthur Lira foi quem assegurou, na Câmara, a base parlamentar para o desgoverno de Bolsonaro desde o início de 2021, quando se elegeu Presidente no lugar de Rodrigo Maia (DEM-RJ). Junto com o atual ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, foi quem colocou o centrão à disposição do bolsonarismo para garantir governabilidade, e costurou com o governo o esquema bilionário de compra de votos do Orçamento Secreto.

Lira cumpriu sua parte do acordo empenhando os votos de sua quadrilha multiparlamentar e engavetando mais de 140 pedidos de impeachment contra Bolsonaro.

Governo nas mãos de Lira

Lula sabe muito bem do poder de Arthur Lira. Em entrevista ao Jornal Nacional em agosto passado, afirmou que ” Bolsonaro é refém do Congresso Nacional”, já que, para liberar verba, “o ministro liga para ele, não liga para o presidente da República”. E a pergunta que fica é: como o futuro governo vai resolver os problemas do país, como a fome, o emprego, a carestia, e todas as questões que afligem a classe trabalhadora e o povo pobre, com Lira tomando conta da pauta do Congresso Nacional, e, na prática, com o orçamento na mão?

Para acabar com o desemprego e a uberização, a generalização do trabalho precário, o primeiro passo é a revogação por completo da reforma trabalhista, além da reforma da Previdência. Algo que, evidentemente, contraria os interesses de Lira e do centrão, assim como de boa parte dos partidos que estão preparando as malas para desembarcar no novo governo. Estão adiantadas as negociações com o PSD de Kassab, o MDB e até o União Brasil, que elegeu Sérgio Moro.

A perpetuação de Lira no comando da Câmara mantém ainda o orçamento secreto, cujas cifras para 2023 somam R$ 19 bilhões. O PT já se negou a contrariar o bilionário esquema de compra de votos em votação da Câmara nesta semana, mas apoiando Lira vai estar, efetivamente, chancelando o negócio. E turbinando ainda mais o cacife do líder do centrão.

Mesmos erros

O PT afirma que não deve repetir os erros que cometeu com o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), em relação a Lira. Ou seja, não bater de frente com quem tem um grande poder nas mãos e que, eventualmente, possa se tornar um adversário. No entanto, ao firmar apoio ao líder do centrão, o que o PT é justamente repetir o mesmo erro que cometeu com Cunha. Basta lembrar que, antes de se tornar desafeto do PT, o deputado era aliado de Dilma e Temer.

Não coincidentemente, Lira é discípulo de Cunha. Um aprendiz dedicado que concentrou ainda mais poder que o antigo mestre. Com o apoio da frente partidária encabeçada pelo PT, prevê-se que Arthur Lira vença as eleições para a Presidência da Câmara com mais de 400 votos. Ou seja, vai sair ainda mais legitimado e fortalecido que antes, e com o destino do futuro governo nas mãos. Assim como fez com Eduardo Cunha, o governo Lula já prepara a cova em que pode ser enterrado.

Essa costura política com a escória da base do bolsonarismo no Congresso Nacional, inclusive, sela um acordo com os mesmos setores que, em 2015, votaram pelo impeachment de Dilma Rousseff. Isso reforça ainda mais o fato de que nem mesmo o PT acredita na tese do “golpe”, repetida à exaustão até as eleições. Aliança com “golpistas” para enfrentar o golpismo de Bolsonaro? Uma história que não pára em pé.

Aliança de classes dá gás ao bolsonarismo

O apoio a Lira, porém, é apenas a ponta do iceberg  e a expressão do erro maior que o PT prepara: a reedição de um governo de aliança com o grande empresariado, os banqueiros, o agro e todos os seus representantes no Congresso Nacional. O crescimento da ultradireita na Câmara, e nos estados, deveria já ser um sinal da falência de uma política eleitoreira de aliança de classe. Mas para o PT, é justificativa para pender ainda mais à direita.

O que se desenha com isso é a manutenção da atual política econômica, dos atuais acordos na Câmara, do atual arranjo institucional, inclusive, com a cúpula das Forças Armadas mantendo influência política sobre o Estado sem que ninguém o barre. Com a diferença agora de que estamos numa crise muito superior às que atravessaram os antigos governos do PT, e da existência, do outro lado, de uma oposição de ultradireita armada, mais organizada, e sedenta para retornar ao poder.

É uma ilusão pensar que apoiando Lira, não mexendo com a cúpula militar, e abraçando o centrão, se estará “minando por dentro” e isolando o bolsonarismo. Essa é a receita perfeita para fortalecer a extrema-direita, já que, com essa política e essas alianças, o que se espera é o fracasso e a desmoralização, e a consequente capitalização, por outro lado, do polo que aparece como oposição. Tal como o que vem ocorrendo no Chile, e demais países governados pela esquerda.

Independência de classe para garantir reivindicações e derrotar a ultradireita

Lula foi eleito porque o povo não suportava mais o trágico e reacionário governo de Bolsonaro. Indo na contramão do sentimento dos eleitores, Lula e o PT costuram acordos com Lira e o centrão, a base de sustentação do governo Bolsonaro. O time de parlamentares corruptos que votaram todas as medidas de ataques à classe trabalhadora e o povo pobre.

É necessário organizar pela base a classe trabalhadora para lutar e exigir do futuro governo a revogação da reforma trabalhista, da Previdência, a redução da jornada, o fim das privatizações, e todas as medidas em prol do emprego, da renda, e para combater a pobreza e a fome. Medidas que, necessariamente, se enfrentam com o grande capital, os bilionários, os banqueiros e o agronegócio. Por isso, é preciso ter independência de classe.

É justo o contrário do que vem apontando as direções das grandes centrais sindicais, que acabaram de se reunir com a equipe de transição do governo e afirmaram não defender a revogação da reforma trabalhista. Quando deveriam estar nas bases, preparando a luta pelo fim dessa reforma que só trouxe desemprego e precarização.

Da mesma forma, é necessário que a esquerda socialista organize desde já a oposição de esquerda ao futuro governo, inclusive discutindo e implementando uma política de autodefesa que possa se contrapor às ameaças da extrema-direita. Não confiando, para isso, nas instituições dessa “ricocracia”, mas ao contrário, avançando na organização independente da classe.