A Semana de Arte Moderna de 1922, evento que revolucionou a arte e a cultura no Brasil, completa 100 anos. Realizada com o objetivo de chocar a burguesia e sacudir a intelectualidade, a Semana foi uma tentativa de tirar a arte brasileira de sua condição de cópia acrítica de tendências culturais vindas do exterior.

As artes modernistas têm como pano de fundo a profunda transformação do Brasil, particularmente de São Paulo. Grandes invenções, desenvolvimento científico e tecnológico, lutas sociais, Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa formavam o cenário que permitiu historicamente o surgimento do Modernismo e suas renovações nas artes. No Brasil, o quadro social era pintado pelas primeiras greves operárias, pelo movimento Tenentista e a fundação do Partido Comunista. Já São Paulo, quando a maioria dos modernistas nasceu nas duas últimas décadas do século 19, não tinha sequer 60 mil habitantes. Mas, em 1920, saltou para 570 mil e, 20 anos depois, no auge do Modernismo, chegou a cerca de 1,3 milhão.

Um dos muitos destaques do Modernismo foi a criação, poucos meses depois da “Semana de 1922”, de um dos coletivos mais importantes da história da arte brasileira, o “Grupo dos Cinco”, formado por Oswald de Andrade, Menotti del Picchia, Mário de Andrade, Anita Malfatti e Tarsila do Amaral.

Os modernistas, entretanto, não negavam a necessidade de se dialogar com a produção estrangeira. Todos os seus principais expoentes, como Oswald de Andrade, Tarsila ou o maestro Heitor Villa-Lobos, não só viajaram por boa parte da Europa e do Oriente, como também defendiam que as inovações do Cubismo, do Expressionismo, do Surrealismo e do Futurismo e de toda a arte de vanguarda eram mais do que bem-vindas. O que deveria ser modificado era a postura dos artistas brasileiros diante dessa produção.

Foi com esse objetivo que escritores, músicos, artistas e poetas modernistas tomaram de assalto o Teatro Municipal de São Paulo, uma espécie de templo da arte elitizada, e provocaram um escândalo, recebido por saraivadas de vaias e ofensas, que até hoje repercute na arte brasileira.

Arte e política

Em 1924, Oswald e Tarsila do Amaral fundaram o Movimento Pau-Brasil, cujos objetivos foram expressos num manifesto que defendia libertar a poesia das influências nefastas das velhas civilizações em decadência. Algo que, para Oswald, poderia ser feito caso os poetas se voltassem para a realidade: a poesia existe nos fatos. Os casebres de açafrão e de ocre nos verdes da Favela sob o azul cabralino são fatos estéticos.

Essa mescla de arte, revolução e realidade, igualmente presente no “Manifesto Antropófago” (1928), fez com que Oswald se aproximasse da militância política. No início da década de 1930, ingressou no Partido Comunista (do qual se afastou em 1945) e se engajou nas lutas do movimento operário e antifascista, publicando, inclusive, “O Homem do Povo”, um jornal voltado para temas como revolução, arte e cultura.

Boa parte dessa militância foi feita ao lado de Patrícia Galvão, a Pagu, com quem estava casado e que foi responsável pela aproximação de Oswald das posições trotskistas, primeiro através de Mário Pedrosa, que dirigia a Liga Comunista e publicava o jornal “Vanguarda Socialista” (para o qual Pagu também escrevia), depois através da filiação à Federação Internacional da Arte Revolucionária Independente, fundada por Leon Trotsky e o surrealista André Breton.

Tupi or not Tupi

O banquete antropofágico

Sempre que falamos dos modernistas brasileiros, é necessário resgatar o conceito de Antropofagia, que norteou as propostas e o trabalho do movimento, e confunde-se com o famoso “Abaporu” de Tarsila do Amaral. O nome (dado pelo também modernista Raul Bopp), significa, em tupi-guarani, “homem que come carne humana” e serviu como inspiração para o Manifesto Antropófago (1928), no qual Oswald sintetizou as ideias modernistas e propôs que o único caminho para a construção de uma arte tipicamente brasileira seria a “canibalização” das estéticas e da cultura dominante.

No manifesto Oswald declarava: “Só a antropofagia no une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente. (…) Tupi or not Tupi, that is the question.” O que se seguia, então, era uma espinafração de tudo o que pudesse ser identificado com o conservadorismo ou o apego às tradições, a começar pela Igreja e seus ícones, como Padre Vieira e José de Anchieta.

A proposta era simples. Assim como os indígenas praticavam o canibalismo de forma ritual, para absorver o poder dos inimigos, os artistas e intelectuais deveriam canibalizar a influência estrangeira (inegavelmente mais forte) e, no processo de digestão, agregar a identidade e a cultura brasileiras, criando uma arte, ao mesmo tempo, nacional e universal.

É mais ou menos isso que Oswald faz com a célebre frase de Shakeaspeare (“ser ou não ser, eis a questão”). O tupi engole a clássica frase de Hamlet e subverte o inglês, deixando no ar uma irônica questão sobre as raízes e a identidade de nosso povo.

O ímpeto e a essência da antropofagia foram resgatados em alguns momentos e movimentos culturais do Brasil. Primeiro pelo Tropicalismo, no final da década de 1960, quando, espremidos entre a ditadura e uma produção cultural medíocre, americanizada e consumista, jovens sacudiram o cenário cultural canibalizando tudo isso e colocando para fora uma explosão criativa. No teatro, com o grupo Oficina, na música, com os Novos Baianos e os Mutantes, e na poesia, com gente como Torquato Neto.

Hoje pode-se dizer que o banquete antropofágico continua sendo celebrado em manifestações como o rap da periferia, que absorve o estilo norte-americano e o transforma com o gingado nacional, ou o mangue beat, que sabe devorar influências das mais diversas, digerindo-as com os ritmos nordestinos e a beleza simples da literatura de cordel.