UTI em Manaus no início da pandemia Foto: Mário Oliveira – SEMCOM

A pandemia de Covid-19 trouxe uma importante e árdua tarefa para historiadores, estatísticos, epidemiologistas e cientistas sociais. Há cada vez mais fortes indícios de um fenômeno denunciado desde o início da pandemia: a subnotificação de casos e óbitos por Covid. Não se trata apenas de um fenômeno brasileiro ou dos países mais pobres. Trata-se de um problema global de primeira magnitude, por enquanto ainda pouco discutido pela mídia e mesmo nos fóruns mais politizados.

Para os brasileiros isso ficou evidente desde os primeiros meses da epidemia, como consequência da vergonhosa política do Ministério da Saúde de baixa testagem, o que diminuía o número de casos e o rastreamento das populações mais vulneráveis ao vírus. Quando os óbitos começaram a se acumular, a falta dos referidos testes e o desconhecimento parcial de uma doença nova por parte dos sistemas público e privado de saúde deixaram passar vários óbitos como casos a investigar. Mortes ocorridas em casa também eram pouco pesquisadas. Os negacionistas propagavam aos quatro ventos que havia supernotificação de casos, pois seriam pretensamente mais bem remunerados pelo SUS, mas isso era apenas mais uma fake news criminosa para somar na longa ficha de crimes do Bolsonarismo.

Conforme foram sendo publicados números mais confiáveis e comparando com as estatísticas gerais de óbitos de anos anteriores ao início da pandemia, foi ficando evidente que havia uma subnotificação de óbitos por Covid no Brasil na casa dos 30%, ou seja, para cada mil óbitos havia 300 que não eram contabilizados como causados pelo coronavírus. A porcentagem de subnotificação de pessoas infectadas era provavelmente bem maior do que esses 30%, devido a baixa porcentagem da população testada e muitos casos assintomáticos.

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Em agosto de 2020 a mídia americana noticiou, sem alarde exagerado, que na Rússia a subnotificação era gigantesca, na faixa de dois óbitos não notificados para cada óbito oficializado. Vários meses depois começam a surgir notícias que o mesmo ocorreu em diversos países, a começar pelos Estados Unidos.

O IHME (Institute for Health Metrics and Evaluation) de Seattle publicou um levantamento de sua estimativa de casos subnotificados por país. Para nossa surpresa, o país mais rico do mundo tem uma estimativa de subnotificação pior do que a brasileira. Os EUA podem ter deixado de notificar nada menos do que 57,7% das mortes por Covid (dados de 06/05/21). Esta estimativa foi feita através do cálculo de quantas mortes a mais ocorreram no país comparado ao mesmo período antes da pandemia. Evidentemente, podem ter ocorrido mortes a mais por outras causas, mas a comparação é feita com uma série histórica. Então, pode-se dizer que, inclusive devido ao distanciamento social e o home office, houve até diminuição de mortes por causas como acidentes automobilísticos e crimes, o que compensaria as mortes a mais por causas não-Covid que não procuraram tratamento por medo da pandemia.

A estimativa do IHME para a Índia é de omissão de 195% de óbitos a mais. Para o México é de 183% e para a Rússia nada menos que a escandalosa cifra de 442%. No caso brasileiro, a omissão estimada de óbitos é de 45%, abaixo de todos estes países, mas ainda assim bem acima dos 30% anteriormente estimados. Pensando em termos globais, enquanto o número oficial de mortos por Covid é de 3,47 milhões, o IHME aposta em 7,52 milhões de óbitos até agora.

Sempre se diz que as pessoas entendem melhor e sentem mais empatia quando se fala de casos individuais que representem um determinado drama humano. No entanto, é fundamental discutirmos os números e projeções, pois eles têm consequências concretas na vida das pessoas. Por exemplo, até agora se calculou que no ano de 2020 houve uma queda de quase dois anos na expectativa de vida do brasileiro. Se as estimativas do IHME estiverem corretas, provavelmente houve uma queda de quase três anos na expectativa de vida no Brasil e em 2021 a queda vai ser ainda maior. A política genocida do governo Bolsonaro está roubando de cada brasileiro, inclusive dos bolsonaristas, vários anos de vida.

A única forma de estancar este processo é a combinação de vacinação em massa, aprofundamento das medidas de distanciamento social e auxílio econômico para os trabalhadores e pequenas empresas poderem sobreviver. O exemplo da Índia mostra que o lockdown sozinho não resolve o problema (houve pouco auxílio emergencial e no início da pandemia não havia vacinas). Os EUA, depois de passarem pelo pesadelo trumpista, conseguiram vacinar boa parte da população e já iniciaram um recuo acelerado nas medidas de distanciamento e mesmo de proteção individual como o uso de máscaras. Podem estar cantando vitória antes da hora, pois há um problema chave não resolvido. A pandemia é mundial, a circulação de mercadorias e pessoas é global e boa parte do mundo tem índices de vacinação raquíticos.

O baixo nível de vacinação nos países mais pobres e nos intermediários cria um caldo de cultura explosivo para o surgimento de novas cepas do coronavírus, que podem se mostrar mais resistentes às vacinas existentes. A Índia, ao lado da América Latina, é a bola da vez nesse sentido. O caso indiano é extremamente preocupante por se tratar de um país com população gigantesca de 1,4 bilhões de pessoas e com clara subnotificação de mortos e casos. Há grande tráfego de pessoas e mercadorias entre Índia e EUA. O mesmo ocorre entre América latina e EUA. Isso explica a mudança de posição de Biden no que toca a suspensão provisória das patentes das vacinas, mas a efetivação desta política ainda está extremamente lenta.

Para complicar ainda mais o cenário, ainda está em investigação a durabilidade da imunidade oferecida pelas diversas vacinas.  A China já está falando em terceira dose para as populações mais vulneráveis, talvez em um prazo de 6 meses, e mesmo as vacinas que incorporam tecnologia mais moderna podem necessitar desta terceira dose, num prazo de um ano.

Por isso, é urgente a quebra da patente de todas essas vacinas, tanto para vacinar bilhões de pessoas sem distinção entre países ricos e pobres, como para investigar a durabilidade da imunidade oferecida pelos diversos tipos de vacinas em populações geneticamente diferentes, envolvendo cientistas do mundo todo.

Enquanto isso, no Brasil, a discussão continua no nível mais raso possível. O presidente insiste em patrocinar aglomerações e incentivar o não uso de máscaras, o ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazzuello, deu um show patético de mentiras na CPI da pandemia, deixando até o comando militar envergonhado pela desmoralização do papel das Forças Armadas no atual governo. Bolsonaro segue defendendo a cloroquina, mas seu novo ministro da Saúde, num passe de mágica, retirou a recomendação de tratamento precoce do site do ministério.

Do lado da oposição, nenhum governador teve a coragem política de bancar um verdadeiro lockdown e, infelizmente, o mais provável é que enfrentaremos uma terceira onda de casos e mortes, que partirá de um patamar mais alto do que as ondas anteriores. Fazemos esta afirmação baseada em três elementos. O primeiro é o ainda baixo índice de vacinação, que avança a ritmo muito mais lento que o necessário e possível. O segundo elemento é que o inverno naturalmente propicia que as pessoas fiquem em ambientes mais fechados e com baixa circulação de ar, facilitando as doenças respiratórias transmissíveis. Por fim, embora estejamos na fase descendente da segunda onda, a queda do número de casos e mortes está abaixo do esperado, então a terceira onda pode partir de um patamar inicial de casos maior.

Cabe à classe trabalhadora, aos movimentos sociais e à juventude lutar pelo programa político correto para enfrentar o Covid. Não é possível fugir do programa de vacinação em massa com a exigência de quebra de patentes e aumento de testagem da população, combinado com lockdown rigoroso e auxílio emergencial de verdade para os trabalhadores e população pobre poderem ficar em casa, além de ajuda efetiva para as pequenas empresas conseguirem sobreviver. Não é possível ficar esperando a hipotética derrota eleitoral de Bolsonaro em 2022 (e a posse de um novo governo em 2023). É preciso tirar Bolsonaro e Mourão agora, sob pena de termos de lamentar mais algumas centenas de milhares de vidas perdidas nos próximos meses.

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