Cena de "Ao mestre com carinho"

O ator Sidney Poitier, que morreu aos 94 anos, na quinta-feira, dia 6, entrou para a História como o primeiro negro a vencer o Oscar de Melhor Ator, em 1964 (ou seja, quase 40 anos depois que a premiação foi criada), em função de sua atuação em “Uma voz nas sombras” (dirigido por Ralph Nelson). Contudo, sua importância para a história da cultura popular e, particularmente, de negros e negras sempre esteve para muito além do tardio reconhecimento por parte da indústria cinematográfica norte-americana.

Na cerimônia em que recebeu sua estatueta, Poitier foi curto e direto: “A viagem foi longa para chegar aqui”. Uma “viagem” marcada pela violenta segregação racial que caracteriza todos os aspectos da história dos Estados Unidos, mas também pela forma como o universo da arte e da cultura refrata – ou seja, reflete de forma distorcida e contraditória – os abalos e rachaduras que a luta de classes e os conflitos sociais impõem às ideologias dominantes e opressivas, como o racismo, o machismo, a LGBTIfobia, a xenofobia etc. Uma história em relação à qual, Sidney Poitier foi, inegavelmente, tanto um exemplo quanto um mestre.

Filho e reflexo de uma época

Antes de Poitier, a única pessoa negra premiada com um Oscar havia sido Hattie McDaniel, como atriz coadjuvante, em 1939, pelo papel extremamente caricato e estereotipado da empregada da “sinhá” Scarlett O’Hara (Vivien Leigh), em “E o vento levou…”, o épico em defesa dos “valores” do Sul escravocrata norte-americano, no contexto da Guerra Civil (1861-65).

E, como veremos abaixo, é preciso dizer que, de lá pra cá, a história não mudou de forma realmente significativa. Basta lembrar, inclusive, que em 51 de suas 93 edições não houve um único negro ou negra indicado para qualquer uma das categorias e a primeira mulher premiada como Melhor Atriz foi Halle Barry, por sua atuação em “A última ceia”, em 2002.

Além disso, a premiação de Poitier e, ainda mais importante, sua carreira e filmografia só podem ser entendidas no contexto em que o ator viveu e trabalhou, particularmente após meados dos anos 1950, quando houve a explosão do chamado Movimento pelos Direitos Civis.

Poitier nasceu em Miami, em 1927, quando sua família (originária do arquipélago das Bahamas, ao norte de Cuba) estava tentando entrar nos Estados Unidos. Voltando para sua terra natal e tendo sido obrigado a abandonar os estudos aos 12 anos, o futuro ator migrou para os EUA aos 14 anos, onde trabalhou como lavador de pratos, morou nas ruas e, em 1943, falsificou seus próprios documentos para, como muitos negros de sua geração, ingressar no Exército e se alistar na II Guerra Mundial, pura e simplesmente para ter um salário, como admitiu em sua autobiografia.

Depois da Guerra, juntou-se ao “Teatro do Negro Norte-Americano”, primeira companhia teatral exclusiva para artistas negros e, nos anos 1950, começou a desempenhar pequenos papéis em filmes que geralmente tinham à frente diretores de esquerda ou antirracistas.

Já nessa época, o ator se caracterizou por uma postura pioneira e essencial: a recusa em interpretar papéis de negros submissos, caricatos ou servis. Apesar de nem sempre conseguir manter esta posição, foi graças a ela que, no decorrer da vida, ele participou de produções extremamente significativas, a começar por “O ódio é cego” (“No way out”, dirigido por Joseph L. Mankiewicz, em 1950), no qual interpretou o então impensável papel de um jovem médico, obrigado a tratar um arrogante racista.

Para se ter uma ideia do impacto do filme, basta dizer que ele chegou a ser banido na cidade de Chicago e em praticamente todos os estados do Sul do país e acabou repercutindo até mesmo na luta pela independência da Bahamas (conquistada somente em 1973, com expressivo apoio do ator), onde a censura imposta pelos colonizadores britânicos estimulou uma onda de protestos.

Outro exemplo importante foi a participação, em 1951, em um dos primeiros filmes contra o apartheid sul-africano, “Os deserdados” (“Cry, the beloved country”, 1951), dirigido pelo socialista húngaro Zoltan Korda e baseado no livro do ativista branco sul-africano Alan Paton. Já em 1955, ele integrou o elenco de “Sementes da violência” (“Blackboard jungle”, dirigido por Richard Brooks), que discutia a violência no sistema escolar norte-americano e foi um dos primeiros a introduzir o “rock and roll” como trilha da crescente rebeldia da juventude norte-americana.

Lutando por um lugar ao Sol

Foi neste mesmo ano que a operária têxtil e ativista negra Rosa Parks se recusou a ceder seu assento no ônibus a um homem branco (como determinava a segregacionista legislação Jim Crow, que vigorava desde 1876 e só seria derrubada a partir de 1965), dando início a uma onda de protestos e um boicote nacional ao transporte público que marcaram a virada da luta contra o racismo nos EUA e cujos reflexos ecoaram com força na produção cinematográfica, tendo em Poitier um dos seus principais representantes.

Nos anos seguintes, o ator destacou-se pelo papel em “Acorrentados” (“The defiant ones, 1958), dirigido por Stanley Kramer, e pelo qual Poitier se tornou o primeiro homem negro indicado ao Oscar de Melhor Ator, interpretando um prisioneiro que foge da cadeia literalmente acorrentado a um homem branco (vivido por Tony Curtis), uma situação que servia como gatilho e metáfora para um instigante debate sobre as relações raciais no país.

Cena de “Acorrentados”

Tema igualmente central em “Um homem tem três metros de altura” (“Edge City”, de Martin Ritt, 1957), no qual a amizade entre o personagem de Poitier e um trabalhador branco das docas (John Cassevetes) é ameaçada não só por questões trabalhistas, mas também pelos preconceitos de um supervisor racista.

Em 1959, o ator estreou o espetáculo teatral “O Sol tornará a brilhar” (“A raisin in the Sun”, transformado em filme, também com o Poitier, em 1961, sob a direção de Louis Gossett, Jr.), uma das experiências mais significativas da história cultural e política negra norte-americana (e também LGBTI) no século 20, ao envolver nomes de artistas-ativistas que vão dos anos 1920 aos 1960.

O texto gira em torno de uma família negra de Chicago que é tomada por conflitos após receber uma razoável quantia de dinheiro através do seguro de vida deixado pelo pai e foi escrito por Lorraine Hansberry (1930-65), primeira mulher negra a ter uma peça montada no circuito da Broadway (o centro nervoso do cenário teatral de Nova York).

Lésbica e ativista social, Hansberry tomou o título emprestado de Langston Hughes (1902-67), o poeta e escritor, negro e gay, que esteve no centro de um movimento cultural conhecido como a Renascença do Harlem, nas décadas de 1920 e 30. A prematura morte de Hansberry, diga-se de passagem, inspirou Nina Simone a compor um de seus maiores sucessos, transformado, nos anos 1960, em “hino político” da juventude negra norte-americana: “Young, gifted and black” (“Jovem, talentosa e negra”).

No mesmo ano, Poitier atuou na versão cinematográfica da peça “Porgy e Bess” (conhecida por sua fabulosa trilha sonora, que inclui clássicos como “Summertime”) ao lado da principal atriz negra de sua geração, Dorothy Dandridge, que, em 1954, havia se tornado a primeira mulher negra indicada para um Oscar de Melhor Atriz, por sua atuação em “Carmen Jones”, a fantástica versão jazzística, com um elenco totalmente negro, da famosa ópera de Bisset.

O rebelde professor de gerações

Os rebeldes anos 1960 foram marcados pela radicalização dos protestos sociais, pela chamada contracultura e por rebeliões e revoluções que agitaram corações e mentes ao redor do planeta em processos e movimentos que incluíram a Revolução Cubana (1959), a luta contra a Guerra do Vietnã, o incessante combate contra o imperialismo e pela descolonização na África e a intensificação das lutas dos setores oprimidos e da juventude.

No campo racial, as lutas também fervilhavam. Em 1963, Martin Luther King Jr. fez seu famoso discurso “Eu tenho um sonho”, em uma marcha que reuniu cerca de 300 mil pessoas em Washington DC, em 1963 e dois anos depois, em fevereiro de 1965, Malcolm X foi assassinado como tentativa de interromper o ascenso. Contudo, em outubro de 1966, Bobby Seale e Huey Newton provaram a disposição de luta da juventude negra ao fundarem o Partido Pantera Negra para Auto-Defesa, no mesmo momento em que a mais e mais setores da juventude branca estavam se aliando a negros(as) e latinos(as) para varrerem as leis segregacionistas.

Foi neste contexto que, em 1967, Sidney Poitier protagonizou três filmes que, literalmente, reescreveram a história de negros e negras na produção cinematográfica norte-americana: “Ao Mestre, com carinho”, “No calor da noite” e “Adivinha Quem Vem Para Jantar”.

No primeiro, dirigido por James Clavell, Poitier assumiu o papel de um engenheiro que, sem perspectiva de emprego, torna-se professor substituto numa escola da periferia de Londres, onde os embates raciais e sociais com um corpo estudantil totalmente branco e os métodos criados pelo professor para encará-los abrem espaço para um profundo debate que marcou gerações, imortalizando, ainda, a música-tema “To sir, with love”.

Já em “O calor da noite”, Poitier interpretou um policial numa cidadezinha ultraconservadora do Mississipi onde é obrigado a atuar ao lado de um xerife racista (interpretado por Rod Steiger). Ambos tiveram enorme impacto nos debates raciais do período; mas, com certeza, “Adivinha quem vem para jantar” (dirigido por Stanley Kramer) foi o que tocou mais profundamente nas feridas do país.

Poitier em “Adivinha quem vem para o jantar”

O filme foi lançado no mesmo ano em que a Suprema Corte finalmente derrubou a proibição “constitucional” de casamentos interraciais e, nele, Poitier interpretou um médico, noivo de uma jovem branca que o leva para jantar na casa de seus ricos pais (vividos por dois dos maiores astros de Hollywood no período, Spencer Tracy e Katharine Hepburn), que, apesar de se apresentarem como intelectuais “liberais”, não conseguem mascarar o racismo, uma situação que se agrava ainda mais pela também oposição dos pais do noivo. Marcado por interpretações geniais e diálogos cortantes, o filme em muito contribuiu para debates que incluíam questões de raça e classe num dos momentos fundamentais da luta antirracista nos EUA.

Pioneiro de uma História ainda há ser escrita

Nas décadas seguintes, além de continuar atuando, com um longo intervalo nos anos 1980 e 90, Poitier também trabalhou como diretor e produtor de inúmeros filmes para o cinema e a TV. Sua estreia como diretor foi em 1972, à frente do “western” (faroeste) “Um por Deus, outro pelo Diabo”, no qual também atuou, ao lado de outro ator negro conhecido por sua militância política: Harry Belafonte.

Apesar de nunca ter assumido posições “radicais” em relação ao tema racial e, muito menos, diante da sociedade capitalista, Poitier sempre se manteve longe de uma postura alienada diante do mundo, como muitas vezes foi acusado. Como também é inegável que suas escolhas e trajetória cumpriram um papel importante no questionamento sobre a presença e representação de negros e negras na indústria cinematográfica.

Algo que, inclusive, a Academia de Hollywood, na medida em que os debates contra o racismo avançaram no decorrer das décadas, foi obrigada a reconhecer ao lhe conceder, por exemplo, em 2002, um Oscar pelo Conjunto da Obra e outra premiação honorária, em 2009, mesmo ano em que Barack Obama, como parte de sua propaganda sobre um suposto “EUA pós-racial”, lhe conferiu a Medalha Presidencial da Liberdade, a principal premiação dada a um civil.

Sua última aparição no Oscar foi em 2014, quando a palavra de ordem “Black Lives Matter” (“Vidas negras importam”) começava a saltar das redes sociais para as ruas, na esteira dos protestos (iniciados em julho de 2013) contra a absolvição do policial branco George Zimmerman, que havia assassinado, um ano antes, o adolescente negro Trayvon Martin, na Flórida.

Na ocasião, o ator foi ovacionado, de pé, pela nata de Hollywood e sintetizou como avaliava seu papel na história do cinema: “Na época, eu encarnava as esperanças de todo um povo. Não tinha controle sobre o conteúdo dos filmes, mas podia recusar um papel, o que fiz muitas vezes.”

Contudo, os anos posteriores foram exemplares de que a postura de Poitier, apesar de sua importância, foi insuficiente para abalar os alicerces do racismo na sociedade norte-americana, inclusive na indústria cinematográfica.

As cerimônias do Oscar de 2015 e 2016 foram marcadas pela completa ausência de não-brancos nas categorias de atuação, o que acabou dando origem ao movimento #OscarTãoBranco (#OscarSoWhite), impulsionado, também, pela constatação de que, desde 1929, dentre as quase 800 pessoas premiadas nas seis principais categorias (ator/atriz protagonista e coadjuvante, direção e roteiro), apenas 40 eram não-brancas (incluindo negros, latinos, árabes ou asiáticos).

Seja como for, Sidney Poitier viveu o suficiente para ver como a intensificação da polarização racial nos Estados Unidos e no mundo continua impactando até mesmo a lógica mercadológica do Oscar. A cerimônia realizada em abril de 2021, ainda sob o impacto do assassinato de George Floyd e da rebelião antirracista nos EUA e ao redor do mundo, não por acaso, foi a mais “diversa” da história da premiação.

Foi a primeira vez, em 93 edições, que duas mulheres (Emerald Fennell, por “Bela Vingança” e Chloé Zhao, por “Nomadland”) foram indicadas ao prêmio de melhor diretor(a), o que fez com que Zhao se tornasse a segunda mulher a levar esta estatueta e a primeira asiática a ganhar um Oscar. Além disso, em 2021 foi registrado o maior número de atores e atrizes não-brancos indicados como protagonistas e coadjuvantes (nove, dentre os 20 indicados), ao lado de uma porção de outras indicações ou premiações inéditas.

Por exemplo, foi a primeira vez que houve a indicação de melhor ator para um muçulmano (Riz Ahmed, de origem paquistanesa, por “O Som do Silêncio”) e para um asiático-americano (Steven Yeun, por “Minari: em busca da felicidade”), a primeira indicação e premiação de uma asiática na categoria de melhor atriz coadjuvante (a coreana Yuh-Jung Youn, por “Minari”); a primeira vez que um longa-metragem produzido por negros foi indicado como melhor filme (“Judas e o Messias Negro”) e, também, a primeira em que mulheres negras (Mia Neal e Jamika Wilson) ganharam estatuetas na categoria caracterização e maquiagem (por “Ma Rainey’s Black Bottom” – “A voz suprema do Blues”, no Brasil).

Também como refração da intensificação dos debates raciais, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas foi obrigada a adotar uma série de medidas que deverão ser respeitadas, a partir de 2025, pelas produções que desejarem concorrer à categoria de melhor filme: ter um ator ou atriz de grupos étnico-raciais subrepresentados, num papel de protagonismo; ter 30% de representantes das “minorias sociais” no elenco, equipe de produção ou direção; ter histórias que discutam estes temas e remunerarem  brancos, negros, mulheres e LGBTI+ de forma igualitária.

Evidentemente, não há nada, nem mesmo estas orientações, que assegure que os setores historicamente marginalizados continuarão ganhando espaço na premiação do Oscar, até mesmo porque, ao ser determinada pelo retorno financeiro obtido nas bilheterias e pela lógica da indústria cinematográfica, a Academia de Hollywood acompanha a mesma dinâmica de outros setores do capitalismo: toda e quaisquer conquistas neste campo são sempre parciais, distorcidas e passíveis de retrocesso, a depender principalmente das crises do próprio sistema e da dinâmica das lutas sociais e de classe.

De qualquer forma, não é possível negar que, mesmo dentro do limitado espaço das telas dos cinemas, Sidney Poitier deixou sua marca e em muito contribuiu para questionar o racismo, principalmente no momento em que a segregação era praticamente absoluta. Algo que, com certeza, não pode ser menosprezado e, inclusive, cumpriu um papel importantíssimo não só para que negros e negras pudessem ser “ver” nas telas para além dos papeis segregacionados e estereotipados, mas também para inspirar gerações de artistas negros que seguiram seus passos.