As veias da América Latina, profetizadas por Galeano, correm na superfície da Terra, abertas para todos que queiram visitar. Como nos dois sistemas, o arterial e o venoso, pulsam os dois lados: o arterial, da desigualdade brutal, fruto de uma colonização coroada pelo imperialismo que insiste em sugar o máximo possível da nossa classe. Essas próprias condições dão fruto a gerações de militantes ardorosos que ousam, ousaram e ousarão contra a ordem burguesa.

Já o venoso é o de uma cultura pulsante, fruto de uma mistura que nenhum caldeirão e colher de pau foram capazes de misturar com tanta qualidade. Aqui instrumentos de corda mouros, desenrolados na península ibérica, se trombaram com tambores africanos e melodias saxãs. A cuíca que até então marcava a distância dos inimigos nas guerras bárbaras virou marca do samba. Os passos duros da corte colonial evoluíram para o calor do tango. Os instrumentos de sopros das cerimônias, em pequenas ilhas caribenhas, em mãos negras calejadas deram origem a sequências rítmicas improváveis até hoje para europeus.

Se de um lado o mundo se choca com lamentáveis governantes latino-americanos, ele se excita com a luta de seu povo e se emociona (e até plagia) a nossa cultura. Esse texto tem a intenção de lembrar de uma dessas ocasiões, quando o mundo aplaudiu de pé um conjunto de senhores e senhoras de um dos países que foi palco de todos esses acontecimentos. Mas que dado seu símbolo, acreditamos que temos o direito de contar essa história tão repetida de outro ponto de vista. É a história do Buena Vista Social Club.

Mas afinal, o que era o “Club?”

Como em todo Novo Mundo, a sociedade cubana carrega marcas de estratificação racista. Contatos fora os impostos pela lei eram proibidos entre os colonos do hoje Estado Espanhol e negros e negras escravizados. Dessa organização, derivam as Sociedades, ou em inglês, os “Clubs”, onde círculos diversos da sociedade se reuniam. Haviam as sociedades de brancos – que se dividiam entre as profissões da burguesia local, as sociedades da corte, as sociedades religiosas, entre outras. Como oposição, ainda que não se intitulassem assim, haviam as sociedades de negros, onde as discussões giravam para outro campo: os debates abolicionistas, as insurreições localizadas, os cultos e músicas locais. Com o passar dos anos e a independência de Cuba, os “Clubs” passaram a ocupar funções de organização local, semelhante as associações de bairros.

Uma dessas associações, no começo do século XX, se tornaria lendária em toda Cuba por reunir uma classe distinta de todas as outras: a dos artistas. Localizada no bairro de Buena Vista em Havana, que até a revolução Cubana era conhecido por ser um bairro humilde e perigoso, o clube se tornou ponto de encontro de diversos artistas, que entre apresentações nos hotéis e cassinos que trabalhavam, davam um pulo no local para pôr o papo em dia, se atualizar sobre os acontecimentos políticos, e claro, tocar. O Buena Vista Social Club reuniu toda a nata dos músicos cubanos, que dado o formato dos locais onde tocavam, tinham que diversas vezes adaptar seu estilo para trabalhar. Era no clube onde ficavam à vontade, e os ritmos marginalizados de uma Havana urbana se encontravam com as canções das longínquas montanhas de La Sierra Maestra. Assim, o Buena Vista se compôs como um espaço de resistência, de uma formatação musical autêntica por fora dos grandes negócios ianques, que estavam mais interessados em vender uma Cuba de coquetéis, charutos caros e grandes orquestras elegantemente ocidentalizadas.

E como chegou no disco?

Nos anos 80, Nick Gold, um renomado produtor musical, comprou um CD em Havana e, alguns meses depois, decidiu lançá-lo fora de Cuba. Seu treinado ouvido identificou um talento único em um dos violonistas. Era Eliades Ochoa, peça chave em toda trama. Eliades vinha de uma família rural do interior da ilha. Aprendeu a tocar com a família, que percebendo seu talento, passou a enviá-lo para Havana, onde ainda criança começou a se apresentar e enviar dinheiro para ajudar nas despesas familiares. Ao longo dos anos, Ochoa se tornaria um dos muitos embaixadores da música Cubana espalhado pelo mundo. Foi em uma dessas apresentações em Londres que Nick Gold reconheceu o violonista que ouvira naquela viagem para Havana.

Gold e Ochoa passaram a trocar figurinhas, e não demorou para o produtor começar a maquinar um projeto: uma reunião da nata musical de uma Cuba pré-revolucionária. Através de outro contato, Juan de Marcos González, Nick passou a procurar outros músicos históricos no país em um trabalho de garimpeiro. Era uma época pré-internet, e sem um contato direto com a fonte, dificilmente o projeto embarcaria. Levaria uma série de anos buscando nomes e inúmeros projetos no meio do caminho para o projeto finalmente sair do papel.

Não havia como dar certo, a não ser por uma coincidência. Em uma de suas pesquisas, Gold descobriu a relação entre a guitarra da região africana de Mali e a música Cubana. Teve uma ideia inédita: reunir alguns de seus contatos, como Ochoa e González, sob a tutela de um produtor de confiança e produzir um disco que mesclasse os estilos. Esse produtor era o americano Ry Cooder.

Em entrevista, Cooder, fã incondicional da música caribenha, conta que atendeu prontamente o recado. Empolgado, desembarcou em Havana, onde Nick já o aguardava com um balde de água fria: os malineses não iriam. As despesas, porém, já estavam pagas. E eram altas. Outros músicos cubanos renomados embarcavam sentido Havana, e o estúdio EGREM já estava reservado. Ochoa, um dos primeiros a responder, tinha consigo uma fita cassete adquirida anos antes em sua cidade natal com um dos maiores gigantes da música cubana: Compay Segundo.

“Na vida, só não provei a morte”

Compay é, de fato, um dos maiores músicos da história de Cuba, ao menos do último século. Filho de lavradores, seu longínquo passado tem inúmeros detalhes incertos. O que se tem certeza é que nasceu em torno de 1907. Nos anos 20, criou o harmonico, uma fusão entre o violão normal e o tres, outro instrumento de cordas local de Cuba. Dessa maneira, o músico passou a ser convidado para inúmeros grupos de destaque. Chegou a frequentar o Buena Vista Social Club original e compor sucessos importantes em Havana na época. Em uma lenda tão improvável quanto sua história verdadeira, o mesmo contava que entregou um charuto nas mãos de Che Guevara quando a guerrilha tomou a capital cubana.

Nos anos 80, após décadas de ostracismo, Compay encontrou Ochoa em sua cidade natal e lhe entregou a tal fita com inúmeras canções. Ochoa não deu muita bola, até a última música: “Chan-Chan”. Em entrevista recente à Folha, Eliades Ochoa disse que era uma coisa “muito estranha” – um som de um instrumento original com uma letra ainda mais exótica: um jovem que morava nas serras cubanas e, ao descer para a praia, encontrava sua namorada em transe, dançando e peneirando a areia em frente ao mar, tudo coroado pela voz barítona do compositor. Segundo Compay Segundo, a música lhe veio em sonho, inspirada em histórias de sua infância.

Quando encontrou Nick Gold e soube do acontecido, Eliades Ochoa sabia que precisava dessa música no disco. Como alguns anos antes Compay já havia sido resgatado e realizado uma turnê europeia, seu nome não era exatamente estranho. Mas encontrar um senhor quase nonagenário, com inúmeras histórias que pareciam ter saído da pena de Gabriel García Márquez, em uma ilha controlada a ferro por Fidel Castro seria como encontrar agulha no palheiro. Sem esse prévio contato de Ochoa, dificilmente o projeto teria ido para frente. Compay também aceitou o convite no momento que escutou, e o melhor: ele era Compay Segundo. Nenhum músico que sabia o que foi o Buena Vista Social Club recusaria tocar com o violonista. Através desse núcleo, a música cubana se reencontrou com os salões da antiga Sociedade.

Um sucesso inevitável

O resto, como dizem, caiu como chuva. Outros nomes ainda mais lendários decidiram participar, como o cantor Ibrahim Ferrer, nas palavras de Cooder, o melhor cantor de bolero que conhecera: “tocar bem é uma questão de vontade, do esforço que você dispõe. Mas cantar é diferente. Você tem que ser capacitado”. No palco, ao lado dos chapéus e do estilo efusivo de Ochoa e Compay, Ferrer era o retrato do homem cubano normal que sabia as conquistas da revolução. Alguém sem histórias mirabolantes, humilde, que trabalhara de sapateiro e vendendo bilhetes de loteria, que defendia os avanços que a revolução trouxe a ilha. Não à toa se tornou a propaganda do grupo, ilustrando as capas e pôsteres promocionais. Sua participação em “Las Gardenias” é sem dúvida um dos pontos altos do disco, tornando-o uma espécie de aposta de Gold e Cooder em projetos posteriores do Buena Vista.

Outra prata da casa é Omara Portuondo, cantora posterior aos anos dourados do clube original. Omara diferente de seus colegas boêmios, sempre preferindo uma vida tranquila nos subúrbios de Havana ao lado dos filhos. Isso a permitiu ter uma carreira humilde, porém mais sólida que de outros colegas, sendo figura carimbada em festivais mundo afora. Porém, a própria sempre faz questão de colocar esse disco como seu auge. Um dos pontos altos do disco é seu dueto “Vinte años” com Compay Segundo, onde intercala sua voz soprada com o poderoso grave de Compay.

Outra história deliciosa sobre o disco é a entrada de Rubén González, lendário pianista dos círculos do clube original Aposentado, González tinha artrose nas mãos e já não tocava como em seu auge. Ao ser convocado, mal possuía piano e acompanhava as aulas de balé em uma escola local. Porém, chegou no dia seguinte da ligação antes do estúdio abrir. Ao ver aquele pequeno idoso prostrado de pé pedindo por um piano, o faxineiro do estúdio deixou-o entrar. Conforme o grupo chegava, todos sentavam para admirar o maestro tocando. Os anos podiam ter levado sua saúde. Mas não conseguiram apagar o talento, como mostrou no solo “Pueblo Novo”.

Dar errado era improvável. Gravado rapidamente por conta da ocasião, o disco vendeu nada menos que nove milhões de cópias, catapultando o grupo, os artistas e toda a música tradicional cubana para um patamar até então inédito. Nenhum dos músicos jamais havia experimentado tamanha fama, e ao final da vida, se tornaram heróis da cultura cubana no mundo todo.

O filme e Ry Cooder

Uma história tão fantástica era digna de um registro a mais, e não demorou para o trajeto da gravação do disco, as histórias individuais e a apresentação em Nova York se tornarem documentário. Tão famoso quanto o disco, o documentário, ainda que não apele para mentiras, para nós tem uma série de injustiças com toda a história.

O próprio Ry Cooder, ao longo de todo o filme, é colocado como o protagonista, o grande responsável por conceber e reunir aquele time de estrelas desconhecidas. Hoje, passados vinte e cinco anos, a história já pode ser contada de outra forma. Ochoa tem assumido o protagonismo que tem direito, dando sua versão dos fatos. Nada mais junto, afinal sem o contato crucial do cubano com sua terra, dificilmente o projeto teria reunido uma constelação de estrelas tão grande.

Outro fator é a própria narrativa do documentário em torno do “fim” da música cubana tradicional. O tempo todo, inúmeras dificuldades sobre a carreira de artista são jogadas como consequência da revolução: o ostracismo, uma pretensa pobreza de artistas que mereceriam muito mais, coroadas por uma fotografia que romantiza o lado colorido dos carros antigos cubanos é permanentemente citado. O regime castrista não pode ser defendido sob nenhuma questão pela perseguição aos artistas opositores a sua ditadura travestida de socialismo.

A desigualdade brutal de Cuba, como vimos nas manifestações desse ano, em nada difere de um regime capitalista normal, com um aparato repressivo que nesse momento mantém presos inúmeros militantes que dirigiram os protestos. Porém, como diversos músicos do próprio grupo apontam ao longo do documentário, há uma Cuba antes e depois da revolução. Negar as conquistas adquiridas após a derrubada de Batista é negar um processo revolucionário que deu à população uma qualidade de vida em termos de saúde, educação e cultura que poucos países capitalistas gozam. Como Ibrahim Ferrer faz questão de dizer em determinado trecho: “A vida aqui antigamente era muito, muito dura. Não há comparação com o que temos hoje”. Não somos contra a Revolução Cubana e suas conquistas. Mas sim contra a pavorosa burocracia que se instalou desde então e agora caminha novamente para tornar o país novamente em mais uma vítima do brutal capitalismo.

Nesse sentido, a grande glória do documentário e do disco é justamente mostrar do que se faz a resistência da cultura cubana através da história de cada músico e dos encontros emocionantes entre os músicos. Não é com floreios do capital e uma pretensa narrativa que se apaga o valor de músicos que tinham e tem a ideia de seu talento, e sofreram na pele tanto as opressões de um regime brutal quanto um embargo tão terrível quanto. A música e o legado da cultura e história cubana e latinoamericana, tanto arterial quanto venoso, seguirão pulsando mesmo contra aqueles que querem nos calar. É como diz Ochoa: “a música cubana é como um elefante: vai devagar, mas abala tudo o que vem pela frente.”. Viva o eterno Buena Vista Social Club!