Neste último final de semana duas notícias contra povos indígenas foram estarrecedoras: a morte de duas crianças yanomamis sugadas por dragas de garimpo e de dois indígenas no Rio Grande do Sul. Esses são desdobramentos da possibilidade aberta pela PEC 187 (Proposta de Emenda à Constituição), que tramita no Congresso Nacional, e pretende permitir desmandos nas terras indígenas pelo agronegócio, madeireiros e mineradores ilegais sem a menor proteção a esses povos, assim como a tramitação do Marco Temporal que intenta dar fim a demarcação das terras dos povos originários.

A primeira, a morte de duas crianças que foram dragadas por máquinas de garimpo ocorreu na comunidade Makuxi Yano, região do Parima, em Terra Indígena Yanomami, em Roraima. A segunda notícia, a denúncia de tortura, assassinatos e expulsão de indígenas de suas terras do povo Kaingang no Rio Grande do Sul, apontou a cooptação do cacique da aldeia pelo agronegócio em busca da apropriação criminosa das terras indígenas para arrendamento ilegal.

“A cada dia se reafirma a abordagem de etnocídio e genocídio de povos indígenas no Brasil, principalmente no governo Bolsonaro. A liberação para ações deliberadas sem punição pelo agronegócio, por madeireiros e garimpeiros ilegais em terras indígenas promovem ações violentas contra esses povos em áreas de interesse e contam com vista grossa das autoridades locais alinhadas ao governo”, afirma a integrante da Secretaria Executiva Nacional Gesa Corrêa de etnia Tupinambá.

Indígenas Kaingang da Serrinha no RS enfrentam torturas, expulsão e morte

No sábado (16), o vídeo da indígena Vãngri Kainpang, desde a aldeia de Serrinha (RS), explicou como e porque vem ocorrendo os casos de tortura, assassinatos e expulsão de indígenas de suas terras.

Vãngri afirma que a causa é o arrendamento de terras para o agronegócio, motivos confirmados em nota pela INKA (Organização Indígena Instituto Kaingáng), Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil), Cimi-Sul (Conselho Indigenista Missionário Regional Sul) e outras entidades indigenistas.

As mulheres  da Rede ANMIGA (Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade) também divulgaram nota.

O episódio de violência ocorreu novamente neste sábado (16) quando dois homens foram mortos a tiros dentro da terra indígena cuja área abrange os municípios de Ronda Alta, Três Palmeiras, Constantina e Engenho Velho.

A violência e morte na região. Foto: divulgação

De acordo com nota assinada pela Apib e Arpinsul, arrendamentos são observados na região em que o empresariado do agronegócio “coopta e corrompe lideranças colocando indígenas contra indígenas em uma política de violência incentivada pelo atual Governo, fomentada pelo agronegócio e que gera mortes”.

Como relatou Vãngri em vídeo os episódios de violência ocorrem há meses na região da Serrinha a partir de ações do cacique Marciano Inácio Claudino cooptado por empresários do agronegócio.

Constantemente ocorrem intimidações, cárcere privado, tortura e assassinatos diante de um poder público omisso na região.

Gesa denuncia: “O agro é morte com erosão e contaminação dos solos, do ar e das águas, queimadas devastadoras, retiradas ilegais de madeiras e assassinatos de indígenas”.

A reserva da Serrinha tem mais de 650 famílias e população total superior a 3 mil pessoas. Após a violência que ocorreu no final de semana o mais provável é que a Polícia Federal assuma o caso com o apoio da Polícia Civil.

Yanomamis: Os meninos dragadas pelo garimpo

Outra notícia que choca e aperta corações é a a morte de duas crianças da comunidade Makuxi Yano, no Parima, Terra Indígena Yanomami, em Roraima. No Dia das Crianças, dois meninos, de 7 e 5 anos, foram sugados por uma draga que extrai minério na região do rio Uraricuera, no município de Alto Alegre, para depois serem “cuspidos” no meio do rio e levados pelas correntezas.

No dia seguinte, a HAY (Hutukara Associação Yanomami) divulgou nota na qual o vice-presidente da associação, Dario Kopenawa Yanomami, denuncia que os garimpeiros e lamenta a situação. “A draga é um problema sério na Terra Indígena Yanomami, há quase seis anos. Estamos muito tristes e revoltados com os futuros guerreiros que foram mortos”.

A intensa violência vem desde quando os Yanomamis interceptaram uma carga de cerca de mil litros de combustível para abastecimento das aeronaves do garimpo criminoso da região.

Segundo a Apib, a Terra Indígena Yanomami conta com a invasão de cerca de 20 mil garimpeiros. Até setembro de 2021, mais de 3 mil hectares de floresta foram destruídos pelo garimpo ilegal, o que indica um aumento de 44% em relação a dezembro de 2020.

Somente na região do Parima, onde está localizada a comunidade de Macuxi Yano e uma das mais afetadas pela atividade ilegal, foi atingido um total de 118,96 hectares de floresta degradada, um aumento de 53% sobre dezembro de 2020.

Além das regiões já altamente impactadas, como Waikás, Aracaçá, e Kayanau, o garimpo avança sobre as regiões de Xitei e Homoxi, cujo aumento de invasão para garimpo atingiu 1000% entre dezembro e setembro de 2021.

Essa situação de absoluta e constante violência enfrentada pelos povos indígenas no Brasil reflete a projeto de extermínio do governo Bolsonaro, apesar das denúncias já terem sido encaminhadas para orgãos internacionais como o Tribunal de Haia na Holanda e a ONU (Organização das Nações Unidas).

É etnocídio. É genocídio!