Joaquin Zarrabeitia

Neste dia 29 de maio se comemora o aniversário de 51 anos de uma das mais datas mais importantes da história da classe operária argentina. Uma semi-insurreição popular, com os trabalhadores e estudantes à frente, que ocupou as principais ruas e bairros da capital de Córdoba (a terceira cidade mais importante do país) com barricadas e fogueiras, derrotando a repressão policial. Córdoba passou aquele dia 29 literalmente nas mãos de jovens trabalhadores e estudantes, apoiados pela grande maioria do povo. Mais de meio século depois de tal fato histórico, os revolucionários precisamos extrair desse grande processo os ensinamentos para as próximas batalhas que os trabalhadores e os setores populares temos pela frente no mundo todo, ainda mais neste contexto de pandemia e de crise do capitalismo que os banqueiros e empresários, com o aval dos governos, queremo jogar sobre as nossas costas.

A luta nas ruas

Obviamente, o Cordobazo não se explica sem a compreensão do processo de mobilização que existia em todo o mundo e que explodiu um ano antes com o Maio francês, a Primavera de Praga e as manifestações nos Estados Unidos e ao redor do mundo contra o invasão ianque no Vietnã. Foram esses processos que colocaram à vanguarda da luta enormes setores do movimento estudantil, com métodos radicalizados e confrontação direta contra o imperialismo, a burocracia stalinista e os governos servils dos exploradores.

Na Argentina, que vinha de uma série de derrotas da classe trabalhadora e suas lutas por anos, o Cordobazo foi precedido por uma série de manifestações de trabalhadores e estudantes, com seus pontos mais altos nas mobilizações do movimento estudantil em Corrientes, onde foi assassinado o jovem Juan José Cabral, e em Rosario, onde os estudantes Adolfo Bello e Luis Blanco são assassinados também na repressão policial. Isso levou a uma grande revolta popular e juvenil, que foi um anúncio do que aconteceria alguns dias depois em Córdoba, e que ficou conhecido como o primeiro “Rosariazo”.

Em Córdoba, o governo vinha atacando as conquistas históricas da classe trabalhadora, como o sábado inglês, além de congelar a discussão de acordos e aumentos salariais, e reprimir fortemente a organização dos trabalhadores, o que levou a uma greve geral na capital de Córdoba nos dias 15 e 16 de maio. Como continuação dessa luta, e também do que estava acontecendo em Rosário, a CGT convocou uma greve geral a nível nacional para o dia 30 de maio, que os setores sindicais cordobeses decidiram estender para 48 horas, ou seja, 29 e 30, e com uma grande mobilização de todos os sindicatos no dia 29 para a sede da CGT local.

Dois dias que movimentaram o país

Naquele dia 29 de maio, as colunas de trabalhadores partiram de diferentes pontos para o centro da cidade. Os principais foram os da SMATA (trabalhadores da indústria automobilística), trabalhadores da luz e força (trabalhadores de empresas de energia elétrica), junto com metalúrgicos e motoristas de ônibus. Os mais de 4.000 trabalhadores que saíram da fábrica da IKA-Renault a caminho do centro foram acompanhados por mais de 1.000 estudantes e trabalhadores de outros setores. Pouco depois de entrar em uma das principais avenidas do centro, começou o confronto com a polícia, que imediatamente foi para cima com gás e disparos de armas letais, matando o jovem mecânico Máximo Mena. Aí a fúria popular explodiu. Os trabalhadores e estudantes organizados fizeram a polícia correr. A cidade estava nas mãos dos manifestantes. Dezenas de barricadas e fogueiras foram levantadas. A população da área, os donos das lojas dos bairros, mostrou solidariedade com os trabalhadores.

A coluna de luz e força , dirigida pelo renomado Agustín Tosco, abriu outro foco de resistência e calcula-se que, ao meio-dia do dia 29, as barricadas e fogueiras cobriam cerca de 150 quarteirões. Os que também queimaram foram os edifícios das empresas Xerox e Citroën, a direção geral de Rentas e várias concessionárias e sedes de multinacionais mais. No Bairro Clinicas, com uma grande composição estudantil, apareceram pichações como “Barrio Clinicas, território livre da América” ​​ou “Bairro ocupado pelo povo”. A polícia havia desaparecido, a cidade estava nas mãos de trabalhadores e estudantes, que se organizavam através de coordenadoras compostas de operários e estudantes.

O Exército só no dia seguinte agiu, avançando com o fogo da metralhadora, enquanto os manifestantes se retiravam para os bairros vizinhos, cobrindo-se com franco-atiradores. A  semi-insurreição deixou mais de uma dúzia de mortos, centenas de feridos e mais de mil detidos. Os principais líderes sindicais como Agustín Tosco e Elpidio Torres foram presos e sentenciados por um conselho de guerra a 8 e 4 anos de prisão respectivamente. Os combates duraram mais alguns dias nos bairros periféricos, onde um grande número de trabalhadores e estudantes se refugiou da brutal repressão das forças militares.

Lições de um processo histórico

O Cordobazo durou dois dias, durante os quais os trabalhadores e estudantes empurraram a polícia para trás e forçaram o regime a intervir com o Exército. A resistência exercida pelos setores populares, operários e estudantis, deixou o controle da cidade nas mãos das massas mobilizadas, e gerou importantes conseqüências políticas e sociais.

Em primeiro lugar, marcou o início do fim do governo de Onganía, abrindo um grande processo revolucionário no país, liquidando anos de retrocesso das lutas operárias, no qual surgiu uma nova vanguarda operária e popular no calor das lutas que estavam acontecendo, com um componente classista e anti-burocrático e com a luta contra o capitalismo e o imperialismo  como estratégia, e que só foi duramente derrotada com o golpe de 1976.

Também, em um tempo caracterizado pelo surgimento de um grande número de organizações revolucionárias que aderiram à guerrilha como um método permanente de luta, isolado das ações das massas, o Cordobazo mostrou o potencial revolucionário da classe trabalhadora organizada, como caudilho dos setores explorados, colocando ainda mais a necessidade de um partido revolucionário para atuar na classe e em suas lutas cotidianas, para levar os trabalhadores à tomada do poder.

O papel central ocupado pelo movimento estudantil como um aliado dos trabalhadores, sendo o barril de pólvora que acendeu a maioria das lutas que ocorreram durante esses anos, mas, acima de tudo, na unidade com os trabalhadores na luta, construindo a greve geral e mobilizando-se como um todo, enfrentando a repressão, mostrou qual é o lugar que os estudantes devem ocupar nas lutas dos explorados e oprimidos.Hoje, vivemos no Brasil e no mundo uma pandemia causada por um vírus extremamente contagioso e mortal, mas a letalidade do coronavírus se expressa na política dos governos e empresários que continuam querendo ter lucro com nossa saúde e nossas vidas. Demissões em massa, serviços de saúde colapsados e cenas de barbárie que nos botam ainda mais na cara que o capitalismo só nos oferece fome e miséria.

Bolsonaro promove um verdadeiro genocídio de nossa população, com ataques brutais na educação pública e nos direitos e condições de vida da classe trabalhadora, enquanto as pessoas morrem esperando um leito de UTI nos hospitais públicos. E os maiores focos de contágio são as absurdas fileiras dos milhares que procuram receber o auxílio emergencial.

A necessidade de tirar esse governo assassino é urgente e, para isso, é fundamental a unidade operário-estudantil como vanguarda dos explorados e oprimidos, e também, a radicalização dos nossos métodos no enfrentamento com as forças repressivas e contra os grupos fascistas que o defendem. A dinâmica da luta de classes que vamos ter pós-pandemia se resume na disputa para ver quem vai pagar essa crise econômica brutal que já estamos vendo, e nesta tarefa de defender as condições de vida da nossa classe exemplos como o Cordobazo nos mostram a força dos trabalhadores na luta, e também  a necessidade de avançar mais ainda, acabando com esse sistema podre para substituí-lo por uma sociedade organizada em base às necessidades da maiora da população, uma sociedade socialista.

E já que são os trabalhadores os que produzem as riquezas da sociedade e fazem o país funcionar é, portanto, lógico que eles sejam donos de seu própio destino e também que o potencial revolucionário do movimento estudantil só exista se tivermos a classe trabalhadora lutando juntos na mesma trincheira.