200 anos de Marx: Uma vida a serviço da classe operária

Em 5 de maio, completou-se 200 anos do nascimento de Karl Marx. Para homenageá-lo, o Opinião Socialista publicou uma série de dez artigos sobre o revolucionário alemão. Nosso objetivo é popularizar seu pensamento e sua obra, especialmente entre os operários e os trabalhadores pobres. Nesse primeiro artigo, apresentamos um pouco de sua história e da sua relação com a classe operária.

 

Nos dias de hoje, Marx é retratado na maior parte dos livros, artigos e documentários como um intelectual que procurava lhe dar lições unicamente alcançadas em função de sua mente brilhante. Alguns aspectos de seu pensamento são estudados nos cursos universitários, e seu nome está sempre presente na literatura que trata de temas específicos de ciências humanas: História, Economia, Sociologia e assim por diante. Há 200 anos de seu nascimento, nos meios políticos tradicionais, nas universidades e na mídia, muitos se levantam para saudá-lo ou criticá-lo.

Se por algum motivo, alguém que vivesse há 100 anos fizesse uma viagem no tempo até os nossos dias, certamente ficaria espantado com o tamanho da audiência dada a Marx nesses meios. No início do século 20, muitos anos após a sua morte, seu pensamento não era estudado nas universidades e foi pouco abordado por economistas e filósofos. Quase toda a audiência de Marx se encontrava no interior das organizações operárias e socialistas europeias, principalmente no Partido Social-democrata da Alemanha e nos demais partidos da Internacional Socialista. Seu nome já era bastante conhecido, mas era associado ao movimento operário socialista e radical. Sua teoria era pouco estudada fora desses meios.

Foram dois momentos que fizeram de Marx um nome reconhecido e famoso. Curiosamente, não foi a publicação de sua grande obra, O Capital, nem de qualquer outra elaboração sua, mas foram duas revoluções. A primeira delas foi a Comuna de Paris, em 1871. Nesse momento, Marx estava na Inglaterra, mas boa parte do mundo associou seu nome ao levante francês. Isso não foi por acaso. De fato, a Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), também conhecida como a I Internacional, cumpriu um papel importante na Comuna. Desde o início, ela foi organizada e estimulada por Marx. Foi a ele que a AIT encomendou uma declaração sobre a Comuna, publicada com o título de A Guerra Civil na França. Esse foi o primeiro texto de Marx com grande repercussão, vendendo mais de 18 mil cópias em três meses. O segundo momento que elevou o nome de Marx no cenário internacional foi a Revolução Russa de 1917. Só então seu nome passou a figurar em todos os meios.

Primeiros escritos
Nascido em 1818 numa família de classe média e filho de um advogado empregado pela burocracia estatal do que hoje é a Alemanha, Marx ingressou no sistema universitário alemão e chegou a estudar em sua principal universidade, a Universidade de Berlim. Foi lá que, anos antes, Hegel, um dos mais brilhantes filósofos alemães, lecionara. Marx defendeu uma tese de doutorado sobre os filósofos materialistas gregos e aspirou uma carreira acadêmica, o que se mostrou impossível com a repressão que se abateu em seu país a partir de 1842. Desde então, ele ingressou no que veio a ser sua atividade profissional no curso de toda vida: o jornalismo. Essa atividade mudou para sempre seu destino.

A partir de então, Marx entrou em contato com a insurreição dos tecelões da Silésia, com o movimento operário francês, bem como com os movimentos comunistas alemão e de Paris. Baseado nessas experiências e em muitas outras do passado, Marx rompeu com sua concepção anterior, democrática de esquerda, passando a defender a vinculação entre o movimento comunista e a classe operária. Em sua concepção, o socialismo não viria de fora, produto de uma elaboração feita de antemão por um reformador genial, mas, ao contrário, só poderia ser realizado estando vinculado com o produto mais genuíno da sociedade capitalista em desenvolvimento: o proletariado. Como diria na época, “a teoria se torna força material quando se apodera das massas”. Desde então, toda a atividade de Marx esteve orientada para a organização da classe operária, não apenas sua atividade intelectual, mas também suas relações pessoais e sua atividade prática e organizativa.

Escritos
Um de seus primeiros textos sobre o funcionamento da sociedade capitalista, Trabalho Assalariado e Capital, foi uma série de conferências apresentadas na Associação dos Operários Alemães de Bruxelas. Pouco tempo depois, Marx consumiria boa parte de seu patrimônio financiando o jornal Nova Gazeta Renana durante as jornadas revolucionárias de 1848-49. Esse jornal chegou a ser um dos de maior circulação durante o período revolucionário até a sua proibição e a expulsão de Marx da cidade alemã de Colônia. A sede do jornal era uma espécie de quartel armado. “Nossa redação”, disse Engels mais tarde, “dispunha de oito fuzis com baioneta e 250 cartuchos”, sendo “considerada pelos oficiais como uma fortaleza que não poderiam conquistar com um simples golpe de mão”.

Colaboradores operários
Entre os colaboradores de Marx, tanto nas organizações quanto nos jornais, encontramos vários operários cujos laços ele cultivou no curso de toda sua vida. Alguns exemplos são o relojoeiro Joseph Moll, o tipógrafo Karl Schapper, o sapateiro Heinrich Bauer, o alfaiate Jonh Eccarius dentre muitos outros. Longe de uma relação distante e passiva, esses ativistas foram colaboradores políticos e amigos pessoais de Marx por décadas.

São deles vários artigos escritos na Nova Gazeta Renana, bem como documentos e manifestos publicados nos anos que se seguiram. Seria com eles que Marx compartilharia sua vida. Para mencionar apenas um episódio, em fins de 1850, Marx empenhou o último casaco de sua esposa Jenny, o único ainda não empenhado em toda sua casa naqueles dias, para pagar o tratamento de uma doença de Eccarius, operário membro da AIT e da Liga dos Comunistas.

Dentre os intelectuais e profissionais liberais que colaboraram continuamente com Marx, todos eles voltaram suas atividades e dedicaram a maior parte de suas vidas ao trabalho nas associações operárias e ao vínculo com seus movimentos e lutas que a cada dia desenrolavam. Foram, ainda, em sua enorme maioria, provados nos processos revolucionários europeus de 1848.

Um caso exemplar é Wilhelm Wolff, filho de agricultores e professor particular de matemática. Foi Wolff quem divulgou em todos estados alemães a repressão e o significado da insurreição dos tecelões da Silésia, primeiro levante operário com o qual Marx entrara diretamente em contato. Ele liderou milícias na revolução europeia de 1848 e se ligou, posteriormente, a inúmeros ativistas da classe operária inglesa. Não sem razão, O Capital, que Marx dedicara toda sua vida a escrever, inicia-se com as seguintes palavras: “Dedicado ao meu inesquecível amigo, o corajoso, leal e nobre vanguardeiro do proletariado: Wilhelm Wolff.”

ENTRE OS OPERÁRIOS
“A libertação da classe operária tem de ser obra da própria classe operária”

Não foi por acaso que ao mesmo tempo em que o nome de Marx desaparecia nos círculos intelectuais europeus, aflorava cada vez mais nos círculos e nas organizações operárias. Essa opção, evidentemente, teve seu preço. Marx perdeu sua cidadania e foi expulso junto com sua família de um país para o outro: Bélgica, Colônia, França (por duas vezes) até que, por fim, passou o resto de sua vida na Inglaterra.

Sobreviveu, quase sempre, em situação de absoluta miséria, sendo socorrido várias vezes pelo amigo e colaborador Friedrich Engels. Num episódio particularmente marcante, com todos os casacos empenhados, Marx e sua família organizavam festivais de dança domésticos para aliviar o frio.

Não faltaram tentativas de cooptação. Seu gênio era conhecido nos altos círculos alemães. Chegou a ser sondado para uma possível colaboração com o governo ditatorial de Otto Von Bismarck na recém unificada Alemanha. Bismarck queria “pôr seus grandes talentos a serviço do povo alemão”. Marx não apenas negou todas investidas como as denunciou publicamente.

Toda a vida de Marx, portanto, esteve orientada para a organização da classe operária como o coração da luta contra o modo de produção capitalista. Tendo em vista esse objetivo, sua obra foi escrita e suas metas imediatas realizadas ou derrotadas. Não sem razão, frustrada com a recepção inicial de O Capital, sua esposa e colaboradora militante Jenny Marx, escreveu: “Se os operários tivessem noção do sacrifício que foi necessário para completar esta obra, escrita apenas para eles e em seu interesse, eles talvez mostrassem um pouco mais de atenção”. Anos depois, o próprio Marx declarava: “a acolhida que O capital rapidamente obteve em amplos círculos da classe trabalhadora alemã é a melhor recompensa de meu trabalho.”

Como se vê, Marx não apenas desenvolveu toda sua obra para e no interesse histórico da classe operária, como se vinculou organicamente a ela. Não foi por acaso que seu nome se tornou universalmente conhecido a partir dos desdobramentos da luta de classes e, com maior repercussão, da Comuna de Paris e da Revolução Russa. Ainda que, nos dias de hoje, muitos queiram domesticar o seu nome e sua obra no interior de aparatos institucionais oficiais – políticos e acadêmicos –, ele estará sempre ligado à luta revolucionária do proletariado pela sua libertação.

Nas palavra do próprio Marx, num dos últimos combates no interior da social-democracia alemã: “a libertação da classe operária tem de ser obra da própria classe operária. Não podemos, portanto, marchar junto com pessoas que abertamente afirmam que os operários são demasiado incultos para se libertarem a si próprios e que só a partir de cima têm de ser libertados, por grandes e pequenos burgueses benfeitores.”

Gustavo Lopes Machado, de Belo Horizonte (MG)