Em meio à pandemia e ao aprofundamento da crise socioeconômica, que têm levado milhões ao desemprego e à fome, o Primeiro de Maio foi celebrado de distintas formas ao redor do mundo. Em países onde as limitações à circulação de pessoas estão mais relaxadas, principalmente na Europa, houve atos públicos e manifestações de rua. Em outros, nas Américas, Ásia, Oriente e África, foram realizados atos “simbólicos” ou outras atividades que não colocassem os participantes em riscos.

Mas, em alguns deles, nem mesmo as restrições foram capazes de conter a revolta e indignação populares, provocando a explosão de protestos de rua, alguns extremamente expressivos, como na Colômbia. Em todos os casos, os governos, a serviço da burguesia, atuaram exatamente como nos eventos de maio de 1886, apelando para a repressão.

Inclusive, numa típica demonstração de hipocrisia, muitos governos que, durante toda pandemia se recusaram a implementar medidas concretas de isolamento social, tentaram impô-las somente no 1º de maio, como tentativa de conter os protestos. Aliás, um dos focos das manifestações, principalmente na Europa, são as tentativas, por parte dos governos, em restringir liberdades democráticas e direito à expressão e manifestação.

ÁFRICA

Quênia

Na capital, Nairóbi, um pequeno ato reivindicando medidas por melhores condições de vida durante na pandemia de Covid-19, foi violentamente reprimido pela polícia, que fez várias prisões e disparos de bombas de gás lacrimogêneo, atingindo inclusive uma repórter da agência internacional de notícias alemã, DW.

AMÉRICA LATINA

Como noticiado em um artigo publicado pela agência de notícias “EFE”, no dia 1º de maio, o subcontinente é, de acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), um dos mais atingidos pela combinação da crise sanitária e socioeconômica. O número de mortos pela Covid-19 chega a 910 mil, quase metade, 400 mil, no Brasil, que tem um terço da população que habita entre o México e a Argentina.

Na esteira da crise sanitária, o Produto Interno Bruto (PIB) da região, regrediu aos patamares de 2010, segundo a Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (CEPAL), com elevações estratosféricas dos índices de fome, pobreza e desemprego, sendo que 57% dos empregados estão em trabalhos precários. Neste contexto, apesar das restrições, foram registrados protestos em praticamente todos os países.

Colômbia

Foi o país onde ocorreram as manifestações mais significativas da região que, na verdade, deram sequência a uma onda de protestos iniciada dias antes, em 28 de abril, quando a população saiu às ruas contra a Reforma Tributária do presidente ultra conservador Iván Duque. Os protestos adquiriram caráter de Greve Geral, convocada por centrais sindicais e movimentos sociais, resultando em gigantescas mobilizações em cidades como Bogotá, Cali, Medellín, Barranquilla e Neiva, dentre dezenas de outras cidades.

As manifestações têm se enfrentado com criminosa repressão. Na madrugada de sexta-feira (30), foram registradas ao menos oito mortes em um massacre empreendido em Cali. Segundo nota do Comitê Executivo do Partido Socialista dos Trabalhadores (PST) da Colômbia, organização, assim como o PSTU, filiada à Liga Internacional dos Trabalhadores (LIT-QI), cerca de 35 pessoas já foram assassinadas; 400, detidas; mais de dez jovens, lesionados, e duas mulheres estupradas pela Polícia Nacional, que usa armas de fogo à queima-roupa para dispersar os manifestantes e entram nas casas e conjuntos residenciais disparando gases e armas paralisantes.

Para saber mais sobre este vigoroso processo de lutas, leia a nota do PST-Colômbia – “SOS Colômbia: Deter o Massacre! Não à militarização das cidades!”.

Honduras

No país da América Central, centenas de trabalhadores participaram  de uma marcha em que exigiram que o governo promova a “vacinação em massa” contra a Covid-19 e adote outras medidas destinadas a garantir emprego, salário e renda e combater os efeitos socioeconômicos da pandemia.

Panamá

No Panamá, que tem, hoje, a maior taxa de desemprego em 20 anos, os protestos foram contra a proposta de Reforma Trabalhista que pretende mudar o sistema de pensões e combater, como divulgado em um Manifesto, o “modelo de exclusão que retira os direitos trabalhistas e de seguridade social” da classe trabalhadora.

Paraguai

No país onde, recentemente, houve uma explosão de revoltas contra a forma criminosa que o governo vem tratando a pandemia, as entidades sindicais e organizações políticas colocaram o tema do desemprego no centro das manifestações do 1º de Maio. Segundo dados publicados pela agência “France-Presse”, desde o início da pandemia, em 2020, cerca de 300 mil trabalhadores (numa população nacional de 7,1 milhões) perderam os empregos, com a eliminação de 110 mil postos de trabalho, dos quais 2 mil nos serviços domésticos.

México

O principal ato unitário, realizado na capital, Cidade do México, sob o lema “Educação, Pão, Moradia e Trabalho”, exigindo o fim das políticas neoliberais, das demissões e precarização do trabalho; o não pagamento da dívida externa; o fim da crescente militarização do país e criminalização dos movimentos sociais e vacinação para todos e todas.

O protesto contou com a forte participação dos trabalhadores (a maioria mulheres) da principal agência de notícias do país, a SutNotimex, em greve a quase 350 dias.

Venezuela

Segundo a agência “France-Presse”, apesar das restrições impostas pela pandemia, mas também pelo governo, sindicatos organizaram atividades exigindo “salários decentes”, “exigências laborais” e “vacinas para todos”. Com o misto de hipocrisia e populismo ineficaz que caracteriza o Chavismo, foi anunciado um aumento do salário mínimo nacional (atualmente de 1,8 milhões de bolívares), agregado a uma gratificação alimentar (de $ 3 milhões). O aumento elevou o salário para cerca de 10 milhões de bolívares.

Mas, ninguém deve se impressionar com os números. Trocando em miúdos, isso corresponde a cerca de três dólares (R$ 16), e não é suficiente para comprar, na Venezuela, sequer um quilo de carne ou uma caixa com 30 ovos (que custa 11 milhões de bolívares).

ÁSIA

Indonésia

Na Indonésia, país formado por milhares de ilhas vulcânicas e maior economia do sudeste asiático, milhares de pessoas saíram ás ruas em mais de 200 cidades, principalmente em protesto contra uma nova lei de trabalhista que pretende reduzir as indenizações em caso de demissões e limita a contratação de mão de obra imigrante, um pesado ataque, principalmente num momento em que o número de mortos pela pandemia está numa cursa ascendente.

Na capital Jacarta, onde residem 10 milhões dos 250 milhões de habitantes do arquipélago e se concentra a maioria dos 45 mil mortos por Covid-19, caixões e cruzes foram espalhados pelas ruas.

Filipinas

Na capital Manila, o governo estendeu o lockdown, decretado há um mês, com o objetivo de tentar barrar os protestos que estavam previstos. De qualquer forma, centenas de trabalhadores se reuniram em uma das principais praças da cidade, exigindo auxílio-emergencial e subsídios salariais, como forma de enfrentar o aumento do desemprego e da fome, além de vacinação em massa para a população.

Em entrevista à agência de notícias “The Associated Press”, Josua Mata, líder sindical local, sintetizou a situação no país: “Os trabalhadores foram, em grande medida, deixados à sua própria sorte durante o lockdown”.

Myanmar (Burma)

O 1º de Maio ocorreu em meio aos protestos que, desde o golpe militar de 1º de fevereiro, sacodem o país, paralisando quase toda atividade econômica, num processo contínuo de greve e passeatas. Contudo, apesar da falta de informações (dado ao bloqueio, inclusive a internet, impostos pelos golpistas), tudo indica que o Dia Internacional de Luta dos Trabalhadores ajudou a inflamar ainda mais a revolta.

Segundo a agência “Reuters”, no fim de semana foram registrados os maiores protestos desde o golpe. As manifestações, particularmente fortes no domingo, foram convocadas pelos movimentos sindicais e populares (que continuam atuando na clandestinidade, desde que foram banidos, em fevereiro), através de um Manifesto que anunciava seu objetivo no primeiro parágrafo: “sacudir o mundo com a voz da unidade do povo de Mianmar”.

Como sempre os protestos foram recebidos com extrema e criminosa repressão. Oito pessoas foram mortas, em três diferentes cidades. Segundo a ONG Associação de Assistência aos Prisioneiros Políticos, desde o golpe pelo menos 759 manifestantes já foram mortos. O número de prisioneiros e feridos é incalculável.

Apesar disto, os protestos só têm aumento em número e radicalização. No sábado, 1º de maio, foram registradas, ainda segundo a Reuters, 11 explosões de bombas caseiras, principalmente em Yangon, principal cidade do país.

EUROPA

Alemanha

Os maiores protestos, reunindo algo entre 20 e 30 mil trabalhadores e jovens, ocorreram em Berlin, onde a principal reivindicações foram a redução dos aluguéis, aumento de salários e pensões, além outras medidas visando amenizar os custos da crise, que estão sendo jogados para a cima das costas dos trabalhadores.

No final da tarde, a polícia, que colocou nada menos que 5,6 mil agentes nas ruas que partiram para cima dos manifestantes, dando início a um conflito que se espalhou, por horas, pelo Centro da cidade, deixando dezenas de feridos e presos.

Assim como no Brasil, também houve protestos de setores da ultra-direita e negacionistas, em oposição às políticas de isolamento social

 Estado Espanhol

Segundo a agência “France-Presse”, ocorreram protestos em 70 cidades do Estado Espanhol, envolvendo dezenas de milhares de manifestantes, a maior delas na capital Madrid. Estas foram as maiores manifestações desde o início da pandemia e maioria dos participantes usava máscaras e observou medidas de distanciamento social, limitando o número de pessoas, para garantir o respeito pelas medidas anti-Covid. Em Madrid, o protesto foi limitado a 1.000 pessoas.

Como em outros países, a principal reivindicação foi em torno de garantias para enfrentar a pandemia e a crise socioeconômica, com destaque para a revogação de um projeto de Reforma Trabalhista (que, evidentemente, visa cortar, ainda mais, direitos), o aumento do salário mínimo e a aprovação de uma lei sobre igualdade salarial.

França

As maiores manifestações aconteceram em Paris, mas houve protestos em várias outras cidades. Segundo a agência de notícias “France-Presse”, em Paris, o número de cinco mil manifestantes divulgado pela polícia é, no mínimo, subestimado. A Confederação Geral dos Trabalhadores divulgou um balanço contabilizando manifestações em 300 cidades, reunindo cerca de 170 mil pessoas, 25 mil somente na capital. O próprio Ministério do Interior calcula que foram 106 mil pessoas em nível nacional, 17 mil delas em Paris.

Além de passeatas, estradas e avenidas foram bloqueadas com barricadas e pneus incendiados. Em todas cidades, os “coletes amarelos”, que organizaram enormes manifestações em 2018, se fizeram presentes.

O tema central foi a exigência de proteções ao trabalho e à renda, fortemente comprometidos durante a pandemia, como demonstrou uma pesquisa publicada pela ONG “Le Cercle des Économistes”, publicada em março, que revelou que, na segunda maior economia da Europa, metade dos jovens adultos tem acesso limitado ou incerto aos alimentos; sendo que quase um quarto deles está rotineiramente pulando pelo menos uma refeição por dia.

Outra reivindicação central levada às ruas foi a revogação de um projeto, que está para ser votado em julho, que altera a legislação sobre os benefícios do seguro-desemprego. Além disso, os manifestantes saíram em defesa das liberdades democráticas, inclusive o direito de manifestação, que têm sido atacadas pelo governo francês que, assim como em outros países do continente, tentou se aproveitar da situação criada pela pandemia para restringir o direito de reunião e organização.

Convocado com medidas de prevenção como uso de máscaras e distanciamento social, o protesto em Paris enfrentou-se com forte repressão, resultando, no mínimo, em 34 detenções. Em Lyon, onde também houve confrontos, cinco pessoas foram detidas e 27 agentes da polícia saíram feridos.

Itália

Aconteceram manifestações em diversas cidades do país. Em Roma, diversas organizações e trabalhadores atenderam ao pedido dos trabalhadores da Alitalia e do sindicato da categoria para participar de um ato, em uma das principais praças da cidade, visando construir a unidade necessária para enfrentar a pandemia, que continua provocando mortes no país que já foi duramente atingido, e barrar os projetos da burguesia e dos governos, que está avançando nas privatizações, cortes de direitos e outras medidas que têm imposto o aumento do desemprego, a queda de salários e maiores índices de exploração.

Para conhecer melhor este processo de luta, leia o artigo “Explode a luta dos trabalhadores da Alitalia, começa a oposição de classe ao governo Draghi!” (https://litci.org/pt/63588-2/).

Reino Unido

Alguns dos maiores protestos neste 1º de Maio ocorreram na Inglaterra, principalmente na capital Londres. A principal palavra de ordem era “Kill de Bill” (algo como “matem o decreto”, num trocadilho com o famoso filme de Quentin Tarantino), numa referência a um projeto de lei, apresentado em março passado e que já passou por duas votações no Parlamento, que pretende impor fortes restrições à liberdade de expressão e de reunião, além de dar maiores poderes à polícia para reprimir protestos e perseguir ativistas.

Considerada a medida mais autoritária em décadas, o projeto permite que o governo e a polícia determinem se uma manifestação é “justificável” ou não; que sejam proibidas, caso causem “incômodos” para a comunidade, organizações e empresas circundantes (ou até mesmo “uma única pessoa”, como consta no texto) e que tenham seu início e fim pré-determinados pela polícia (que pode, inclusive, limitar o volume máximo do barulho feito)

Em relação à polícia, o projeto amplia os seus poderes e uso de força no caso de revistas e batidas, o que, como sempre, atinge mais diretamente a população negra que, em Londres, segundo dados oficiais, já tem 19 vezes mais probabilidade de serem detidos e revistados pela polícia.

Um de seus artigos foi redigido sob medida para coibir as manifestações antiracistas, impondo uma condenação de até 10 anos de cadeia para quem “danifique” patrimônio e memoriais, particularmente estátuas, como ocorreu no ano passado, quando monumentos em homenagem a racistas e traficantes de escravos foram parar no fundo do mar. Por isso, não por acaso, dentre as várias entidades sindicais e políticas que têm atuado nos atos, destacam-se grupos locais vinculados à estrutura internacional do “Black Lives Matter” (“Vidas Negras Importam”).

“O projeto de lei representa um ataque maciço às liberdades civis e faz parte de uma tendência mais ampla, por parte do governo, de ataques à liberdade de expressão, impedir protestos, silenciar vozes dissidentes”, declarou Pragna Patel, coordenadora do grupo “Southall Black Sisters” (“Irmãs Negras de Southall”), em entrevista ao jornal “The Guardian”, durante o protesto.

O ato do 1º de Maio foi convocado por mais de 600 organizações e foi o maior desde março.

ORIENTE

Palestina

Profundamente atingidos pela pandemia e suas consequências socioeconômicas, cujo enfrentamento ainda esbarra nas políticas de apartheid do Estado de Israel (que, enquanto se vangloria pela vacinação de grande parte de sua população, impede a chegada dos imunizantes aos territórios palestinos), os palestinos realizaram atividades, online, enfatizando a importância da solidariedade internacional dos trabalhadores nas lutas pela libertação da região e, também, de seus muitos presos políticos. Como em todos os anos, se juntaram aos atos realizados mundo afora.

Como noticiado por um Centro de Direitos Humanos para os Territórios Ocupados, até mesmo a jornada de 8 horas, pela qual os “Mártires de Chicago” deram suas vidas em 1886, ainda não é uma realidade para os palestinos. Como exemplo disto, o Centro divulgou um vídeo (gravado no próprio 1º de maio) mostrando que os trabalhadores que têm “permissão” para trabalhar em solo israelense têm que checar aos pontos de checagem às 3 horas da manhã, passando por um processo humilhante e demorado. (https://www.btselem.org/video/20210501_on_may_day_2021_palestinian_workers_at_the_checkpoint_can_only_dream_of_an_8_hour_workday#full).

Turquia

No país, onde também há um aumento no número de mortes diárias pela Covid-19 (de 176, em 1º de abril, para 394, no dia 30), há um lockdown que permite a circulação apenas no caso de recolhimento de alimentos e medicamentos. De qualquer forma, foi autorizado um ato simbólico, na Praça Taksim, em na capital Instambul, onde representantes sindicais depositariam flores em homenagem aos trabalhadores mortos.

Contudo, a polícia atacou violentamente aqueles que tentaram se aproximar do local, prendendo mais de 200 pessoas.