O surgimento do governo de coalizão de classes

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Sessão na Duma, o parlamento russo de antes da Revolução de Outubro

Em maio de 1917, o ingresso dos mencheviques e socialistas revolucionários no governo inaugurou um novo momento da Revolução Russa. Esses dois partidos dirigiam a grande maioria dos sovietes e procuravam construir um governo de colaboração de classes entre a burguesia e a classe operária. Os bolcheviques foram contra e disseram que esta coalizão era uma armadilha para derrotar a revolução, manter a Rússia na Primeira Guerra Mundial e salvar os capitalistas.

Nas últimas semanas de abril de 1917, uma enorme tensão social pairava sobre a Rússia. As massas haviam derrubado o czar, organizado os sovites, ocupado fábricas e grandes latifúndios. As as tropas do exército, porém, ansiavam desesperadamente pela paz. Os soldados, em sua grande maioria de origem camponesa, queriam o fim da guerra e voltar imediatamente para o campo.

O exército estava em crise. A hierarquia militar era minada pela desobediência maciça. A insubordinação, a quebra de hierarquia e a confraternização entre tropas alemãs e russas cresciam dia a dia. Porém o ministro do Exterior, Miliukov, tinha outros planos e anunciou uma ofensiva militar.

O povo reagiu. Em 20 de abril, uma manifestação contra a guerra reuniu operários seguidos por cerca de 30 mil militares armados em frente à sede do governo. No dia seguinte, operários se reuniram em frente ao palácio do governo. Uma provocação foi armada para permitir a repressão à manifestação. Houve troca de tiros, e pessoas foram mortas.

O governo provisório não tinha força para retomar a guerra. Os protestos levaram à demissão de Miliukov.

Tudo isso demonstrava que o poder pertencia ao governo provisório só no papel. Na realidade, os sovietes, que surgiram como órgãos de mobilização, passavam a ser também órgãos administrativos. Os sovietes de soldados intervinham dentro do exército. Os conselhos de camponeses lideravam ocupações de terras e faziam a divisão dos latifúndios na marra. Já os sovietes operários administravam fábricas ocupadas e resolviam questão de abastecimento, transporte e até questões econômicas e judiciais.

Entretanto, a direção dos sovietes estava nas mãos dos mencheviques e dos socialistas revolucionários (SRs), que eram contra a política dos bolcheviques de “todo poder aos sovietes”.

Nesse momento de intenso conflito social, Trotsky apontava três caminhos possíveis para o desenvolvimento da Revolução Russa. O primeiro era a entrega total do poder à burguesia e aos capitalistas, algo que seria possível apenas se houvesse uma guerra civil contra o movimento operário e os sovietes. A segunda hipótese seria aquela apontada pelos bolcheviques, ou seja, que o poder fosse entregue aos sovietes. “Bastava querer e levantar o braço”, sentenciava Trotsky. Por fim, o terceiro caminho seria o da conciliação, uma saída confusa, instável e covarde que foi adotada pelos mencheviques e socialistas revolucionários nos primeiros dias de maio.

Alexander Kerensky, ao centro, primeiro-ministro do governo provisório

A entrada no governo provisório
A quase explosão de uma guerra civil no final de abril obrigou os socialistas revolucionários e mencheviques a ingressarem diretamente no governo burguês, consumando um governo de conciliação de classes entre representantes dos capitalistas e dos trabalhadores. Mais tarde, a literatura marxista chamou isso de governos de Frente Popular. Entre as massas trabalhadoras, havia uma ilusão de que os representantes mais capazes dos sovietes agora prosseguiriam a sua luta no interior governo. Por isso, em 1º de maio, o Comitê Executivo dos Sovietes decidiu, por 41 votos contra 18, participar do governo provisório. Em 5 de maio, o soviete de Petrogrado, o mais importante de todos, votou a favor da coligação. Os bolcheviques conquistaram apenas 100 votos contra.

Os mencheviques e socialistas revolucionários conseguiram seis ministérios, dentre os 15 existentes. Entre eles, estava Victor Chernov, chefe dos SRs e agora ministro da Agricultura do governo. Autointitulava-se como o ministro dos camponeses, mas não dividiu sequer um latifúndio para a reforma agrária e ainda apoiou o envio de milhares de camponeses para morrer no front da guerra. Skobelev, líder menchevique, tornou-se ministro do Trabalho. Prometeu acabar com 100% do lucro dos empresários, mas a promessa logo deu lugar à sua ação intensiva no desmonte de greves operárias para impedir o que chamava de “anarquia na economia”. Na verdade, era para garantir que os capitalistas continuassem lucrando. Tseretelli, líder menchevique que dirigiu o Soviete de Petrogrado, foi nomeado ministro dos Correios e Telégrafos.

Leon Trotsky discursando para soldados

Trotsky contra a conciliação
Nessa reunião do soviete, Trotsky, que acabava de chegar ao país vindo do Canadá, foi acolhido com aplausos entusiasmados. Trotsky era reconhecido como líder da revolução de 1905. Foi o presidente do Soviete de Petrogrado daquele ano. A derrota daquela revolução o levou a prisão na Sibéria e, depois de uma fuga extraordinária, a um longo exílio na Europa e nos Estados Unidos.

Trotsky não era do Partido Bolchevique. Passou um tempo nas fileiras dos mencheviques, mas, em 1917, fazia parte da Interbairros, uma organização que contava com aproximadamente 5 mil militantes, em que havia vários mencheviques internacionalistas. Na plenária do soviete de Petrogrado, posicionou-se contra a entrada dos mencheviques e SRs no governo e defendeu que o caminho da Rússia revolucionária deveria ser a entrega do poder aos deputados operários e soldados dos sovietes. Ele ainda defendeu três diretrizes que as massas deveriam seguir: nenhuma confiança na burguesia; controle sobre os seus dirigentes; e que as massas deveriam contar unicamente com as suas próprias forças.

Naturalmente, ao final do seu discurso, Trotsky teve uma recepção bem mais fria, com poucos aplausos e tapinhas nas costas. As fofocas e murmúrios davam conta de que ele teria “voltado pior do que Lenin”…

Mas se, por um lado, Trotsky estava se isolando da maioria da esquerda, assim como aconteceu com Lenin após voltar do exílio e defender “todo poder aos sovietes”, sua primeira manifestação pública o aproximou do velho líder bolchevique. Essa aproximação levaria, nos meses seguintes, a fusão do seu grupo com os bolcheviques.

Soldados russos depois da Batalha de Tannenber, durante a Primeira Guerra Mundial

Rússia retoma guerra imperialista
Apesar da conciliação, a dualidade de poderes não foi eliminada. Os sovietes penetravam cada vez mais fundo no interior dos setores mais oprimidos e explorados das classes trabalhadoras russas. Eles ainda não estavam sob a influência dos bolcheviques. A grande massa explorada ainda não percebia que aquilo que fora aprovado nos sovietes era conciliação com a burguesia que tentava se aproveitar dos mencheviques e socialistas revolucionários para atacar operários, soldados e camponeses. Com a colaboração dessas organizações, a burguesia russa conseguiu fazer com que o país voltasse à guerra. Mas isso não foi tão fácil.

O anseio pelo fim da guerra entre os soldados se expressava em insubordinações que paralisavam o exército. A repressão era frequentemente utilizada para sufocar a revolta, inclusive com a utilização dos terríveis cossacos, a tropa de elite do czar, agora recrutada pelos conciliadores para forçar os soldados a combaterem na guerra.

Em 18 de junho, após esmagar revoltosos no interior do exército, uma nova ofensiva militar da Rússia iniciou. A esquerda conciliadora não demorou para saudar o regresso do país à guerra. Plekhanov, considerado o fundador do marxismo na Rússia, declarava que a data “era um dia de ressurreição para nosso país e para o mundo inteiro”. Tseretelli proclamou: “Abre-se uma nova página na história da grande revolução russa. Os sucessos do nosso exército revolucionário devem ser festejados não somente pela democracia russa, como também por todos aqueles que se esforçam efetivamente por combater o imperialismo”.

A retomada da ofensiva militar foi coberta pela esquerda conciliadora por palavreados revolucionários e patrióticos contra o imperialismo alemão. Mas nenhum malabarismo teórico, nenhuma suposta defesa da revolução e da democracia, escondia o fato de que a Rússia era um país imperialista e que integrava um bloco imperialista na Primeira Guerra Mundial ao lado da França, Inglaterra e, posteriormente, dos Estados Unidos. Não por acaso, os jornais da época, saudavam o fato da Bolsa de Valores de Paris comemorar a ofensiva Russa com alta em todos os títulos russos.