Vocês estão nos matando, mas nós resistimos!

Quilombo Raça e Classe no Ocupa Brasília dia 24 de maio

Claudicéa Durans e Hertz Dias, da Secretaria Nacional de Negras e Negros do PSTU

Quando falamos de feminicídio no Brasil, não estamos falando de feminicídio em geral, de todas as mulheres de todas as raças e classe sociais. Os corpos das mulheres que são abusadas, mutiladas, enforcadas, tem raça, classe social e território. A maioria absoluta são mulheres negras da classe trabalhadora que residem nos bolsões de pobreza das periferias brasileiras.

O Mapa da Violência publicado em 2015 já havia escancarado que no Brasil existe uma seletividade racial com profundo corte de gênero e de classe. Enquanto os casos de homicídios das mulheres brancas diminuíram 10%, das mulheres negras chegava a casa dos 55%. Obviamente que nosso desejo é que a violência entre as mulheres brancas diminua mais ainda, mas é estarrecedor constatar que, enquanto a linha branca do gráfico desce, a linha negra só sobe.

Mais um capítulo deste triste filme foi recentemente publicado pela Agência Pública que apresenta o resultado de uma pesquisa com as 10 cidades que mais mata mulheres no Brasil. Por um lado, fica explícito o lastimável nível de putrefação de um modelo de sociedade que precisa ser o quanto antes superado e, mais uma vez, as mulheres negras são as principais vítimas representando 88% das mulheres assassinadas nos últimos no período de 2005 a 2015.

Do PT ao PSDB
Desmembrando os dados por município conforme apresentado na pesquisa divulgada pelo Atlas da Violência 2017, o drama das mulheres negras cresce ainda mais.  E o mais grave: entre os 10 municípios brasileiros mais violentos para as mulheres negras mais da metade foram governados ou co-governados pela Frente Popular no período em questão.

O estado que lidera o ranking em quantidade de municípios violentos para as mulheres negras é justamente o que foi governado por Rui Costa do PT, da Bahia, que possui três entre as 10 cidades mais violentas para as mulheres negras, e o município de Camaçari que ocupa a segunda posição em casos de feminicídio foi também governado pelo PT no período de 2008 a 2012. Ananindeua (Pará) lidera o ranking tendo crescido em 2015 o índice de feminicídio. Tanto o referido município quanto o estado é governado pelo famigerado PSDB. Tudo isso prova que, tanto a direita tradicional quanto os governos petistas, foram implacáveis com os negros e negras da nossa classe.

Esse quadro tingido por sangue afro-feminino é o resultado da opção desastrosa que o PT e o PCdoB fizeram em governar para a burguesia e os grandes monopólios, ambos com DNA escravista no sangue.

A imprensa nacional e até mesmo os institutos de pesquisas se limitam a quantificar os corpos e a narrarem os casos como se as causas fossem todas elas limitadas à esfera do lar. Evitam citar a sigla dos partidos que governam estes estados e municípios. Também não conseguem relacionar o grau da violência com a ausência de políticas públicas e sociais para conter esse tipo de violência. Apesar de ser uma grande conquista do movimento feminista brasileiro, a Lei Maria da Penha, bem como a Lei do Feminicídio viraram letras mortas, pois não há medidas de urgência, metas e prazos para implementar políticas de combate à violência.

É óbvio que exigimos que todos os homens que violentam e matam nossas irmãs sejam julgados e punidos. Na contramão da postura vergonhosa de muitas organizações de esquerda, não fazemos coro com o argumento de que “os homens da nossa classe não podem ser punidos pela justiça burguesa”, debate este que só veio à tona quando algumas algemas começaram a apertar o pulso de alguns corruptos de “esquerda”. Isso é antes de tudo balela racista e machista para blindar Lula, a corja de políticos corruptos da esquerda neoliberal e até mesmo para livrar a “cara lavada” de políticos da direita tradicional como Eduardo Cunha do PMDB e Aécio Neves do PSDB.

Não temos nenhuma dúvida de que essa situação se agravou no governo Temer que assumiu a presidência em meados de 2016. Os dados do 11º Anuário de Segurança Pública divulgados este ano revelam que só em 2016 foram 61.619 mulheres vítimas de mortes violentas intencionais e 49.497 vítimas de estupros, e o que é pior sem perspectiva de solução, pois ao longo dos anos houve cortes no orçamento da política de combate à violência, sendo só no ano passado cerca de 61%.

Com impeachment de Dilma Rousseff, o governo saiu das mãos dos “capatazes” e foi para as mãos do senhorzinho que tenta aprofundar os ataques com as reformas trabalhista, previdenciária, terceirização, Escola Sem Partido, etc., porém, o poder sempre esteve nas mãos da “Casa Grande” para quem o PT governou de 2003 a 2016.

Os que alegam que a presidenta teria caído por um “golpe misógino” nascido de uma “onda conservadora” são os mesmos que silenciam diante das estatísticas oficiais sobre o feminicidio das mulheres negras, sobre os casos de abusos sexuais praticados pelas tropas lideradas por Lula/Dilma/Temer contra mais de duas mil mulheres haitianas.

Por ser mulher e, portanto, sujeita à opressão machista, Dilma foi muito mais responsável por essa tragédia afro-feminina ocorrida em seu próprio governo do que vítima de uma emboscada misógina. Se o PT tivesse governado para os explorados e oprimidos, certamente as mulheres negras teriam se colocado na linha de frente da defesa do governo Dilma e do próprio PT.

Ao contrário disso, as mulheres negras e a classe trabalhadora tem se colocado na defesa de seus direitos, suas vidas, seus corpos, seus filhos e seus maridos, fato que se expressou durante as Jornadas de Junho de 2013 que aumentou a visibilidade em torno da luta contra o genocídio negro e do feminicídio da mulheres negras. O pedreiro Amarildo de Sousa e Cláudia Silva Ferreira viraram símbolos de ambas as campanhas que ganhou muita força justamente no contexto que agora o PT considera como reacionário. As mulheres negras não derramaram lágrimas por Dilma nem por Lula, porque seus olhos secaram de tanto derramarem lágrimas por seus filhos e suas irmãs.

Essas mulheres com suas tranças, blacks, turbantes, ou seja lá como for, cada vez mais engrossam as lutas e as mobilizações que ocorrem nos estados independente de quem governe e isso é progressivo.  Estão mostrando na ação concreta que o DNA que corre no sangue da nossa classe não é o da cordialidade com os patrões e governos, mas sim o da luta. Mostraram isso participando do 8M brasileiro que foi o maior da nossa história e serviu ponto de apoio para a construção da não menos histórica Greve Geral do dia 24 de abril.  De mãos dadas com as mulheres de todas as raças, com os homens e LGBT’s de nossa classe, essas mulheres estiveram presentes nos grandes eventos que fizeram do primeiro semestre de 2017 um dos mais agitados da história do país.

O machismo e racismo que nos arrancam a vida e tentam invisibilizar nossas lutas não arrancarão nosso desejo de mudar esse país!

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