Uma nova faceta de Jim Carrey

Jim Carrey como Dick Harper
Divulgação

Em `As Loucuras de Dick e Jane`, ator mostra seu talento, como um norte-americano do subúrbio que se torna vice-presidente da empresaO ator Jim Carrey costuma ser associado a seus personagens mais caricatos – como O Máscara, Ace Ventura ou um dos malucos de Débi&Lóide – ou a sua interpretação facial inconfundível. Isso faz com que muitas vezes seu talento interpretativo e sua veia dramática não sejam reconhecidos.

No entanto, constam em seu currículo excelentes produções como o Show de Truman (uma crítica aos “reality shows”, que traz Carrey como um sujeito que, literalmente, vive dentro de um espetáculo televiso); O Mundo de Andy (em que o ator interpreta o excêntrico e genial comediante Andy Kaufmann) e Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (uma excelente história em torno de um processo que permite que as pessoas “apaguem” memórias indesejadas).

Seu novo filme, no qual além de ator, Jim Carrey é produtor (e isso no mundo hollywoodiano significa que é ele quem dá a palavra final no filme, sendo, assim, tão ou mais importante que o próprio diretor), As Loucuras de Dick e Jane, em circuito nacional, parece ser o argumento final contra aqueles ainda relutantes acerca de suas qualidades cinematográficas.

As Loucuras de Dick e Jane
Carrey é Dick Harper, o norte-americano de classe média com uma casa no subúrbio, uma bela esposa (Tea Leoni), um filho, sua empregada hispânica, seu gramado impecável… O perfeito american way of life (estilo de vida norte-americano), salvo por um detalhe: empregado mediano de uma grande corporação, ele ainda não chegou ao ápice. Quando se preparava para mais um dia normal de trabalho, eis que ele é chamado ao 51º andar. Não há dúvidas, chegou o dia da grande promoção. Dick tornou-se o vice-presidente de comunicações e logo recebe sua primeira missão: apresentar o balanço da empresa na televisão ao vivo.

Quando imaginava que além da grande promoção, ele viraria uma estrela, a grande notícia: todo o vigor da grande corporação que ele representava não passava de uma bela fachada construída por seu presidente (Alex Baldwin). Subitamente as ações despencam e do dia para a noite 6 mil funcionários são demitidos e só há um intocado: o presidente, que sabia dos problemas da empresa, maquiou os balanços o quanto pôde e fugiu com o dinheiro de suas ações, vendidas na alta.

O mundo de Dick desaba. É preciso gastar todas as economias, vender tudo, seus cheques voltam, ele e sua esposa se submetem aos piores subempregos. Nada funciona e quando eles estão à beira de perder a própria casa, Dick resolve fazer como seu chefe: roubar. Vencidas as “dificuldades iniciais” com o novo “emprego”, Dick e Jane (Leoni) começam a recuperar o dinheiro perdido, mas faltava o grande golpe, aquele que colocaria fim a tudo aquilo. O alvo será o próprio presidente da corporação.

Uma ácida crítica às corporações e às mazelas do capital
Carrey conseguiu três proezas muito raras no cinema hollywoodiano: a primeira foi ter feito um filme de crítica social, a segunda foi ter feito uma comédia de muito bom gosto e a terceira foi conseguir unir tudo isso.

As “loucuras” do título escondem uma crítica afiada contra o capitalismo e a política americanos. Globodyne, a grande corporação onde trabalhava, é o arquétipo das grandes corporações recentemente falidas cujos executivos sugaram todos os recursos da empresa em benefício próprio e deixaram milhares de trabalhadores desempregados num país com um sistema de amparo ao desemprego cada vez pior. Quem não se lembra do caso da Enron, a gigante do setor energético? E tudo isso acontecendo no momento em que Bush – que aparece em uma cena de TV em momento do filme – anunciava aos norte-americanos que a economia dos EUA não poderia estar melhor.

Carrey não se esquece do drama dos trabalhadores estadunidenses submetidos aos piores tipos de “bicos” para sobreviver, como servir de cobaias para testes de cosméticos, nem da dura vida que levam os imigrantes mexicanos, submetidos aos mais duros subempregos e ao controle fascista da polícia de imigração.

Esteticamente belo, o filme está coalhado de metáforas raras no mundo dos filmes comerciais de Hollywood. O poderio destrutivo do capitalismo, quando o presidente foge de helicóptero desfolhando a árvore de estimação de Dick. A degradação do american way of live, quando até mesmo o gramado dos Harper é retirado devido à falta de fundos de seu cheque. O escárnio e o sarcasmo doentio que os capitalistas têm por seus empregados, quando Dick pensa que finalmente encontrou seu novo emprego.

A importância dos imigrantes, principalmente mexicanos, na economia e na vida dos norte-americanos também é lembrada no filme, em uma passagem em que Dick descobre, estupefato, que seu próprio filho prefere falar espanhol a inglês. No desfecho do filme – que é melhor não detalhar – também fica patente que o personagem de Jim Carrey também desenvolve ao menos um embrião de consciência de classe.

Fugindo dos padrões hollywoodianos
As Loucuras de Dick e Jane não é, evidentemente, um filme revolucionário – como os do cineasta russo Sergei Eisenstein, por exemplo. Sua visão é a da classe média à beira de perder seu estatuto e se proletarizar. É o pavor de perder seu poder de consumo e não a consciência de classe de que o capitalismo está fadado a jogar a humanidade na mais terrível barbárie.

Não é uma crítica ao conjunto do capitalismo, mas contra a ação das grandes corporações e sua vinculação com governo de extrema-direita, como o de Bush. O próprio desfecho não é obra de uma ação consciente do conjunto dos desempregados da Globodyne, mas iniciativa do casal Harper, verdadeira epifania sem ligação alguma com o resto do filme.

E, convenhamos, não se pode esperar muito mais de Hollywood. Ela permanece uma poderosa indústria capitalista, mais uma engrenagem na grande máquina mundial de dominação dos trabalhadores. Não obstante, o fato de entrever raios de luz na espessa bruma obscura, que sempre o caracterizou, não é de menor importância. Junto com O Senhor das Armas, com Nicolas Cage, O Jardineiro Fiel de Fernando Meirelles, e a trilogia ainda incompleta de Lars von Trier (Dogville e Manderlay), As Loucuras de Dick e Jane é um filme muito bom, que merece ser assistido o quanto antes.