Uma marcha pelo direito de lutar por direitos

A resposta à violentíssima e lamentável repressão policial à “Marcha da Maconha” (veja vídeo) – realizada no sábado, 21 de maio – foi dada, neste sábado, 28, por cerca de quatro mil pessoas (segundo dados da própria PM) que tomaram as ruas de São Paulo, num novo protesto, convocado sob o título “Marcha da Liberdade”.

Como todos lembram, na semana passada, a Marcha, que acontece em diversos cantos do mundo, em defesa da descriminilização das drogas e legalização do consumo foi brutalmente atacada por soldados da Polícia Militar e da Guarda Civil Metropolitana, o que resultou em vários feridos, entre manifestantes e representantes da imprensa.

A convocatória da “Marcha da Liberdade”, assinada por dezenas de entidades de diversos movimentos sociais (LGBT, mulheres, negros, sindicatos, entidades estudantis e populares) começa com uma menção que deu o tom da manifestação: “Egito, Espanha, Grécia, EUA, Portuga… Essa semana, apenas, são quase 700 manifestações pelo globo. Todas espontâneas, criadas em rede, sem líderes ou bandeiras exclusivas. (…) Hoje é o dia de saber que cara temos. E de nos unir aos irmãos e irmãs do mundo todo que estão nas ruas e na rede marchando por liberdade verdadeira”.

Na sexta, 27, a “justiça” de São Paulo (através do desembargador Paulo Antonio Rossi e do Tribunal de Justiça) tentou proibir a nova manifestação, alegando que os participantes pretendiam “dissimular o objeto patrocinado pela ‘Marcha da Maconha’, que seria a indução e instigação ao uso indevido de droga frente a uma numerosa parcela da sociedade paulistana”.

Contudo, a ânsia reacionária do desembargador, que, para barrar o evento, ainda utilizou o argumento de que a Marcha seria um exemplo de “apologia ao crime” e “induzimento no uso de drogas”, não foi suficiente para conter o protesto, principalmente depois que a absurda violência policial obrigou os órgãos públicos a afastar dois PM e abrir uma investigação na GCM

É proibido proibir! É inaceitável reprimir!
Esse anseio por liberdade (e, inclusive, o porquê da necessidade de luta por ela) era visível assim que se chegasse ao vão livre do Museu de Arte de São Paulo (Masp), ponto de concentração da manifestação: um compacto cordão de policiais literalmente bloqueava a passagem, numa tentativa de intimidar os manifestantes ou, ainda, obrigá-los a “pedir licença” para entrarem na área.

Contudo, nenhuma das duas coisas aconteceu. Quem estava ali, não tinha a menor disposição de pedir “licença” alguma para exercer seus direitos, como estava estampado num dos muitos cartazes e faixas nas mãos de gente que se postou a um palmo das caras enfurecidas dos PM’s: “Afasta de mim este cale-se”.

Antes da Marcha sair (em direção à Praça da República, no centro da cidade), o vão do Masp foi transformado numa espécie de “território da liberdade”, onde versos de “Sociedade Alternativa”, de Raul Seixas, mesclavam-se com batuques diversos; animadas rodas de conversas, disputavam espaço com acalorados debates políticos e gente de todos espectros do “arco-íris” político (à esquerda, evidentemente) se misturava.

Presente no ato, o dirigente da CSP-Conlutas Dirceu Travesso lembrou que a “Marcha da Liberdade, além de sua bandeira específica, a discriminalização e legalização das drogas, bastante justa e correta, tem uma enorme importância, também, porque se insere numa luta que diz respeito a todos nós, dos movimentos sociais: a constante tentativa, por parte dos setores mais reacionários e conservadores, de criminalizar e reprimir os movimentos sociais e, inclusive, impedir o debate sobre nossos direitos”.

Idéia semelhante foi defendida por Maurício Fiore, professor universitário e pesquisador do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos (NEIP, ligado à Universidade de S. Paulo). Autor do livro “Uso de ‘drogas’: controvérsias médicas e debate público”, Maurício lembrou que “a simples necessidade de sermos obrigados a fazer um ato para se manifestar contra a enorme repressão que marcou a Marcha da Maconha já é um exemplo lastimável da situação em que o debate sobre o tema se encontra no Brasil”.

Como lembrou Maurício, “estamos aqui lutando para legalizar e ‘desproibir’ um debate, que tem sido bloqueado inclusive com o uso de violência. O irônico, do ponto de vista dos conservadores, é que foi exatamente esta repressão, lamentável em todos os sentidos, que possibilitou uma ampliação do debate e por isso mesmo não podemos perder este momento: é preciso aprofundar a discussão e levar a luta pela descriminalização para a sociedade”.

Uma luta de todos que defendem a liberdade
O dirigente da CSP-Conlutas foi um dos muitos que ressaltou que “a luta pela descriminalização das drogas não pode ser vista como uma bandeira somente da classe média, como está um pouco expresso na composição desta manifestação. Este setor tem sido historicamente importante na luta pelas liberdades democráticas, mas a violenta repressão que vimos na semana passada tem que ser vista num contexto mais amplo, pois ela acontece cotidianamente na periferia ou entre ambientalistas e sindicalistas, que são perseguidos e mortos pela crescente criminalização dos movimentos sociais”.

Esta necessidade também foi destacada por Guilherme Rodrigues, militante da Secretaria LGBT do PSTU e que, recentemente, foi vítima de uma história em que se mesclam agressão homofóbica, descaso e cumplicidade policial: “É preciso dar um basta nesta história de que não podemos nem sequer ter o direito de ter uma causa. E esta causa, a descriminalização das drogas, é pra lá de justa e tem tudo a ver com muitas outras”.

Segundo Guilherme, “a onda de agressões homofóbicas, as declarações escandalosas de fascistas como Bolsonaro e Marcelo Feliciano, a retirada, por parte de Dilma, do kit anti-homofobia e absurda agressão contra a Marcha da Maconha são facetas de uma mesma e lamentável realidade: vivemos num país onde até mesmo as mais básicas das chamadas liberdades democráticas ainda são meras ilusões e no qual comportamentos humanos ‘diferenciados’ são reprimidos com métodos brutais”.

Foi exatamente esta percepção que, segundo Guilherme “levou os setores mais combatentes do LGBT a se integrarem à Marcha da Liberdade. É aquela coisa meio Cazuza. Para a classe dominante, somos todos só ‘bichas, maconheiros’ que podem ser insultados, aviltados e reprimidos. Nós, de nossa parte, temos que responder da forma que estamos fazendo aqui. Protestando, lutando juntos e dizendo que não somos ‘só’ bichas e maconheiros; também somos negros, mulheres, jovens, trabalhadores, sindicalistas… E queremos direitos e liberdade para sermos o que somos”.

A consciência sobre a relação entre a Marcha e os demais movimentos sociais ficou evidente quando, diante do Cemitério da Consolação, todas as quatro mil pessoas fizeram um minuto de silêncio, em homenagem aos ambientalistas José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo, assassinados no Pará; às Mães de Maio (que tiveram seus filhos e parentes mortos na ofensiva da polícia contra os ataques do PCC, em 2006) e “às inúmeras vítimas da nossa frágil democracia”, como dizia o manifesto que convocou a Marcha.

Irreverência é uma expressão da liberdade
O minuto de silêncio foi interrompido por um solitário trompete que entoou as primeiras notas de uma famosa canção consagrada por Bezerra da Silva – “vou apertar mas não vou acender agora… – criando mais um dos muitos momentos em que a irreverência explodiu como expressão da liberdade.

Algo que contagiava os participantes particularmente nas inusitadas palavras de ordem que pipocavam durante o percurso. Para o porta-voz da homofobia, a mensagem foi em forma de ironia: “Ei, Bolsonaro, sai do seu armário”. Lembrando os interesses que residem por trás da ilegalidade das drogas, os manifestantes gritavam: “Maconha é natural , o capital é que faz mal”

Os militantes LGBT acharam uma forma de combinar as duas lutas numa rima marcada pelas gíria do “gueto”: “Olha que ‘bafon’, maconha é crime, homofobia não”. Enquanto os ativistas do Movimento Pelo Passe-Livre foram no mesmo caminho, lembrando o caos do transporte na cidade: “Vamos dichavar o busão! O busão ta prensadinho”.

Já a ostensiva presença das forças de repressão era satirizada a todo momento, como frases como “Ei, polícia! Liberdade é uma delícia” ou uma famosa canção infantil, entoada ao lado do cordão de isolamento que “acompanhou” a passeata até a Praça da República, no centro da cidade: “Marcha soldado, cabeça de papel…”.

Prosseguir e ampliar a luta
Henrique Carneiro, professor da Universidade de São Paulo, pesquisador do NEIP, militante do PSTU – e um dos feridos na Marcha da Maconha – destacou que “o clima, aqui, reflete as manifestações do Egito, da Espanha e da Grécia, não só pela forma como a manifestação foi convocada, mas principalmente pelo fato de Marcha ter conseguido unificar diferentes movimentos sociais que entenderam que a proibição até mesmo do debate público sobre o consumo de drogas é algo que fere todos os direitos civis. É ótimo que vários movimentos tenham entendido isto. Agora é preciso intensificar a luta”.

Mesma opinião de Paulo Henrique, diretor do Centro Acadêmico de Letras, na USP. Negro, o dirigente estudantil lembrou que “é importante lembrar que a violência que vimos na Marcha da semana passada é nefasta, mas muito diferente daquela que nossa população, a juventude negra, sofre cotidianamente, também em função da criminalização e da ilegalidade, que alimentam o tráfico e tudo o que vêm com ele: chachinas, ‘acertos de contas’ e um batalhão de jovens, negros e pobres utilizados com ‘aviões’ e bucha de canhão para os traficantes. Por isso mesmo é preciso intensificar a luta e ampliá-la para todos os demais setores sociais”.

Com este objetivo, os organizadores da Marcha pela Liberdade anunciaram um novo protesto, no dia 18 de junho, para o qual, desde já, estão convocando todos os setores dos movimentos sociais.