Uma ‘viagem´ no árido sertão pernambucano

Cena de `Árido Movie`
Divulgação

O contraste entre a metropolitana São Paulo e o sertão pernambucano. A contradição entre a falta d´água e o excesso de informação e tecnologia. Uma vingança, uma rixa entre famílias, que tem por trás um confronto histórico entre fazendeiros ricos e povos indígenas pelas terras. Um estudo sobre a água em plena seca. O misticismo religioso e a manipulação. Árido Movie é um filme dirigido por Lírio Ferreira que escancara algumas das principais contradições no cenário pernambucano e brasileiro.

Este é o segundo longa de Lírio, que dirigiu em 1997 o filme Baile Perfumado, filme que conta a história de um jovem libanês radicado no Nordeste que tenta capturar com sua câmera imagens do bando do cangaceiro Lampião. Para Árido Movie, ele contou com um elenco de primeira: Guilherme Weber, Giulia Gam, José Celso Martinez Corrêa, Selton Mello, Matheus Nachtergaele, Renata Sorrah, José Dumont, Luiz Carlos Vasconcelos, Paulo César Pereio, Lirinha (do grupo pernambucano Cordel do Fogo Encantado), entre outros.

Lázaros
O filme conta a história de Jonas (Guilherme Weber), o homem do tempo, que apresenta previsões meteorológicas na TV. Ele mora em São Paulo, mas subitamente tem que viajar de volta a sua cidade-natal, a fictícia Rocha, no interior do Nordeste, devido ao assassinato de seu pai. No caminho, Jonas pega carona com Soledad (Giulia Gam), que está filmando um documentário sobre a água no sertão.

Ao chegar, a família que ele sequer conhece, já que saiu da cidade aos oito anos, cobra que ele, como único filho legítimo, vingue a morte do pai. A avó inclusive se nega a enterrar o corpo, que já começa a feder, enquanto Jonas não chega na cidade. Lázaro, o nome do pai morto, não parece ter sido escolhido em vão. Na Bíblia, um outro Lázaro também morre e aguarda quatro dias, já cheirando mal, pela chegada de Jesus para ressuscitá-lo. No caso de Jonas, a ‘ressurreição´ é vingar o nome da família, sobretudo mantê-lo de pé.

O conflito, entretanto, não é somente uma vingança pessoal, mas carrega um conflito histórico entre fazendeiros ricos e povos indígenas na região. O assassino é Jurandir, de família indígena inimiga de Lázaro.

O elemento religioso não fica só na referência a Lázaro. José Celso Martinez Corrêa interpreta o líder espiritual da região, Meu Velho. O personagem diz curar através da água benzida por ele, que seria “um dos filhos diretos” de Deus. Há nele traços do Antônio Conselheiro, interpretado e dirigido pelo mesmo Zé Celso no Teatro Oficina, na versão teatral de Os Sertões.

`Jonas`

O estrangeiro
Se o pai Lázaro e a família remetem à bíblia e às tradições, Jonas é um personagem estranho a esta realidade. Ele se assemelha muito a Mersault, o personagem principal de O estrangeiro, de Albert Camus, livro que ele próprio cita no filme em uma cena com Soledad. Está alheio àquela realidade, mostra-se quase inexpressivo e indiferente e se limita a dar respostas imediatas às situações que lhe aparecem, sem planejar.

A figura indiferente e fria não é só característica de Jonas e do Mersault de Camus, mas é uma típica imagem do homem do tempo, o que faz com que a profissão se encaixe perfeitamente no personagem. Jonas é um estrangeiro em sua terra-natal, já perdeu o sotaque da região, não reconhece seus familiares e olha para o cadáver do pai sem muita emoção. É um estrangeiro.

Na estrada
Uma história paralela se desenha com os amigos de Jonas, Verinha, Falcão e Bob. Preocupados com o amigo, eles partem em uma viagem paralela, que se torna uma aventura e um núcleo cômico no filme. Numa referência ao livro On the road, de Jack Keourac, o trio faz das estradas poeirentas do sertão nordestino uma versão tupiniquim da rota 66, a estrada que liga as duas costas dos Estados Unidos.

Os três buscam se divertir, bebem, fumam maconha, dançam, se metem em confusão. Esta parte também é um pouco autobiográfica para Lírio Ferreira, pois o diretor sempre viajou muito pelo sertão desde sua infância, como relatou em um bate-papo em um portal da internet. “Cruzar o sertão sempre foi uma rotina minha, mas não importa quantas vezes eu passasse por aquelas paisagens, eu sempre me impressionava”, diz Lírio.

Música
A trilha sonora, que se encaixa com precisão no filme, traz desde a jovem guarda dos anos 70 até o Otto do mangue beat. A mistura se parece com o cenário contraditório do sertão: o moderno e o antigo se sobrepõem. Renato e seus Blue Caps, os Incríveis, Márcio Greyck (que inclusive é nome de um dos parentes de Jonas) emolduram um sertão que parece parado no tempo, com o coronelismo, as velhas tradições, a seca, o misticismo.

O mangue beat, por sua vez, é a mistura musical que melhor expressa a união do antigo e do moderno que norteia todo o filme. Na verdade, o movimento cinematográfico que surgiu nos últimos anos em Pernambuco e o movimento musical mangue beat são parte da mesma movimentação cultural na região, da qual faz parte Árido Movie, o filme e a trilha.

A viagem
Árido Movie é uma amostra de contradições, é também um filme que coloca um patamar de qualidade na produção cinematográfica nacional. Ganhou seis prêmios no Festival de cinema de Pernambuco (Cine PE), nas categorias de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator Coadjuvante (Selton Mello), Melhor Fotografia, Melhor Edição e Prêmio da Crítica.

Um pouco beatnik, um pouco mangue beat, meio drama, meio comédia, nem moderno, nem antigo, repleto de contradições e cenas meio psicodélidas, Árido Movie é uma viagem, em todos os sentidos.